Recuperações extrajudiciais ganham espaço e mudam dinâmica das reestruturações no Brasil

Crescimento das recuperações extrajudiciais reflete a transformação estrutural no mercado brasileiro
O avanço das recuperações extrajudiciais no Brasil começa a revelar uma mudança relevante no comportamento do mercado de crédito e na reestruturação empresarial. Com crescimento recorde em 2025 e estimativas que apontam para mais de R$ 98 bilhões em dívidas renegociadas, o instrumento passou a ganhar protagonismo entre empresas de grande porte, credores e fundos de investimento, impulsionado pela busca por soluções mais rápidas, menos litigiosas e financeiramente mais eficientes. O movimento também acompanha um ambiente de crédito mais restrito, estruturas de dívida mais sofisticadas e maior pressão sobre fluxo de caixa em setores intensivos em capital.
Hilton Junior, vice-presidente da SWOT Global e especialista em reestruturação empresarial, disputas contratuais e análise econômico-financeira, afirma que o crescimento das recuperações extrajudiciais reflete uma transformação estrutural no mercado brasileiro.
“O que antes era utilizado de forma pontual passou a ocupar um papel mais estratégico dentro das reestruturações. Hoje existe maior organização dos credores, participação mais ativa de fundos e uma busca crescente por soluções negociadas que reduzam desgaste, tempo e risco operacional”, explica o especialista.
Dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial indicam expansão consistente desse modelo nos últimos anos, favorecida também por mudanças regulatórias que ampliaram sua viabilidade. Na prática, especialistas observam que as operações passaram a exigir maior integração entre análises jurídicas, financeiras e operacionais, elevando significativamente a complexidade técnica dos processos. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de reconstrução de históricos econômico-financeiros, análise detalhada de contratos e desenvolvimento de mecanismos mais robustos de monitoramento e proteção contratual.
Fragilidades
A mudança também expõe fragilidades recorrentes na estruturação de contratos e no gerenciamento de riscos corporativos. Em muitos casos, disputas e dificuldades de renegociação surgem da ausência de cláusulas adequadas de revisão, baixa capacidade de acompanhamento financeiro ao longo do tempo e falta de organização documental para sustentar negociações complexas envolvendo múltiplos credores e investidores.
Segundo Hilton Junior, o aumento da sofisticação das recuperações tende a alterar permanentemente a forma como empresas, credores e investidores lidam com situações de crise.
“A recuperação extrajudicial deixou de ser apenas uma alternativa à recuperação judicial e começa a se consolidar como uma ferramenta estrutural de reorganização financeira. Isso exige uma atuação técnica muito mais profunda, tanto na prevenção quanto na condução das negociações, porque os processos estão mais sofisticados, mais multidisciplinares e muito mais dependentes de informação qualificada”, conclui.








