Ano eleitoral exige atenção, não alarme: o que realmente muda para as empresas

Ano eleitoral exige atenção, não alarme: o que realmente muda para as empresas

Empresários devem separar o ruído político dos impactos econômicos concretos e atualizar cenários sem tomar decisões precipitadas

Anos eleitorais costumam elevar a percepção de incerteza no ambiente de negócios. Oscilações no câmbio, expectativas sobre inflação e juros e especulações sobre os rumos da política econômica passam a ocupar mais espaço nas discussões de empresários e investidores. Para as empresas, porém, a eleição não deve ser tratada como um gatilho automático para mudanças bruscas de estratégia.

Na avaliação de Phillipe Enke Mathieu, CEO da GFX – Inteligência Financeira, o primeiro passo é separar aquilo que está sob controle da empresa das variáveis externas. Isso significa compreender de que forma o ambiente político pode, de fato, interferir no setor em que a companhia atua, em seus clientes e em sua cadeia de negócios.

“O empresário precisa olhar para o que acontece da porta para dentro da empresa, que é o micro, sem deixar de entender o que acontece da porta para fora, que é o macro. A eleição faz parte desse ambiente externo e a pergunta não deve ser apenas quem será eleito, mas o que as propostas e eventuais mudanças políticas representam concretamente para o setor e para os clientes que a empresa atende”, afirma.

Uma das ferramentas utilizadas no planejamento empresarial para essa leitura é a análise PESTEL, metodologia que observa fatores políticos, econômicos, sociais, tecnológicos, ambientais e legais capazes de afetar uma organização. Em um ano eleitoral, os dois primeiros componentes – político e econômico – tendem a ganhar relevância, mas seus efeitos variam de acordo a atividade.

Uma empresa ligada à infraestrutura ferroviária, por exemplo, pode encontrar oportunidades diante de um governo que priorize investimentos em ferrovias. Já negócios relacionados a fontes de energia que possam sofrer restrições ambientais ou regulatórias precisam considerar os impactos de possíveis mudanças nas políticas públicas. Questões como legislação, concessões, incentivos, regulação e prioridades de investimento são, portanto, mais relevantes para o planejamento empresarial do que simplesmente tentar antecipar o resultado das urnas.

Três cenários em vez de uma aposta

Para o especialista, a resposta à incerteza eleitoral deve estar no planejamento, e não na tentativa de prever com precisão o comportamento da economia após a votação.

Uma estratégia possível é revisar os três cenários tradicionalmente utilizados no planejamento empresarial: otimista, realista e pessimista. Em cada um, a companhia pode avaliar como diferentes combinações de juros, inflação, câmbio, atividade econômica e decisões regulatórias afetariam seu caixa, custos, margens e demanda.

Essa análise também ajuda a identificar medidas que estão efetivamente sob controle da gestão. Dependendo do negócio, isso pode envolver redução de custos, revisão do nível de endividamento, proteção contra oscilações cambiais, diversificação de fornecedores, lançamento de novos produtos ou ajustes no planejamento de investimentos.

“A principal recomendação é separar o ruído do fato. É preciso atualizar os cenários otimista, realista e pessimista e entender como a empresa se comportaria em cada um deles. O que deve ser evitado são atitudes bruscas baseadas apenas na expectativa de vitória de um candidato ou de outro. O resultado da eleição não está sob controle do empresário; preparar a empresa para diferentes cenários, sim”, explica Mathieu.

Mais do que tentar antecipar cada movimento do mercado, portanto, o ano eleitoral exige capacidade de adaptação. Para as empresas, acompanhar propostas, possíveis mudanças regulatórias e os sinais da política econômica é parte do planejamento. Transformar cada oscilação ou declaração política em uma mudança imediata de estratégia, por outro lado, pode criar riscos adicionais para o próprio negócio.

A recomendação é substituir a lógica da reação pela preparação: entender quais variáveis externas realmente afetam a empresa, estabelecer limites de exposição e definir previamente quais medidas deverão ser adotadas caso cada cenário se concretize. Em períodos de maior incerteza, planejamento e disciplina tendem a ser ferramentas mais eficientes do que decisões tomadas no calor do noticiário.

Política econômica também entra na conta

Outro ponto de atenção está na equipe econômica e na orientação que poderá ser adotada pelo próximo governo. A percepção de uma condução mais liberal ou mais intervencionista, por exemplo, pode alterar expectativas do mercado e influenciar projeções para inflação, câmbio, juros, atividade econômica e investimentos.

Para o empresário, o mais importante é traduzir essas variáveis para a realidade do próprio negócio. Uma valorização do dólar pode elevar custos para empresas dependentes de insumos importados, enquanto pode favorecer negócios exportadores. Da mesma maneira, juros elevados tendem a pressionar quem depende de crédito para financiar expansão, estoques ou capital de giro.

No varejo, uma eventual desaceleração econômica também pode afetar vendas. Por isso, acompanhar os indicadores macroeconômicos é importante, mas a análise só se torna útil quando conectada à estrutura de receitas, custos, endividamento e mercado de cada empresa.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *