Avanço das montadoras chinesas muda mapa do financiamento de veículos no Brasil

Bancos ampliam parcerias com novos fabricantes, enquanto competição por preço e condições de financiamento pressiona valor residual e mercado de usados
A entrada das montadoras chinesas no Brasil já levou instituições financeiras a ampliar parcerias com novos fabricantes e colocou preço, condições de financiamento e valor residual dos veículos no centro das estratégias de crédito automotivo. O movimento foi apontado por executivos de bancos comerciais e de instituições ligadas a montadoras durante a 6ª edição do Panorama de Veículos, promovido pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) em São Paulo.
As falas dos executivos mostram que a transformação já alcança diferentes pontos da cadeia de financiamento. Mayara Rezek, do Itaú Unibanco, afirmou que o mercado de veículos zero-quilômetro já é bastante diferente daquele observado há alguns anos, inclusive na concentração das operações entre fabricantes. Para ela, a chegada das montadoras chinesas “subverte um pouco a lógica aqui de margem desse mercado”, ao mesmo tempo em que amplia a competição.
Na GM Financial, Márcio Frazão avalia que a mudança é permanente: “Eu acho que a competição com relação a produto e preço veio para ficar”. Segundo ele, esse cenário exige maior capacidade de administrar dados, precificar operações, avaliar risco e tomar decisões com rapidez.
A aproximação dos bancos com as novas fabricantes também avançou. André Novaes, do Banco Safra, apontou que há sete ou oito anos os veículos chineses ainda apresentavam uma diferença significativa de qualidade e tecnologia em relação aos modelos europeus, americanos e japoneses. Esse cenário mudou, na avaliação do executivo, com a evolução dos produtos e, principalmente, dos modelos elétricos. O banco passou a ampliar sua aproximação com fabricantes chineses e hoje mantém diferentes parcerias no segmento.
Estágio inicial
Novaes afirmou que o movimento ainda está em estágio inicial. “Cada vez que eu vou para a China, de fato, a gente percebe que o que está acontecendo agora é só o começo, porque tem muita coisa para acontecer ainda, porque de fato eles não vão parar”, disse. Ao falar sobre o portfólio de crédito do Safra para veículos chineses, foi categórico: “É o melhor portfólio”.
Os efeitos sobre preços e valor residual, porém, não são uniformes. Alexandre Teixeira, do Banco Daycoval, pontuou que a chegada das marcas chinesas representa uma transformação do mercado, marcada pelo apelo de preço e pela tecnologia embarcada. Para o executivo, os estudos da instituição mostram comportamentos distintos entre as marcas e, na média, um cenário de equilíbrio. A estratégia do banco para lidar com eventuais oscilações no valor dos veículos está apoiada principalmente na originação do crédito, com entrada média superior a 30%.
Os dados mais recentes do AutoAcrefi também mostram comportamentos distintos entre veículos novos e seminovos das marcas chinesas. Em julho, os modelos zero-quilômetro da BYD registraram valorização média de 1,77%, enquanto os seminovos da marca recuaram 0,60%. Na GWM, os preços dos veículos novos ficaram praticamente estáveis, com alta de 0,03%, enquanto os seminovos caíram 0,51%. Os números reforçam que o comportamento dos preços não é uniforme e varia conforme marca e condição do veículo.
Preços dos novos e usados
A relação entre os preços dos veículos novos e usados já começa, por outro lado, a produzir efeitos sobre algumas estratégias de financiamento. Pedro Dabur, do Banco Toyota, afirmou que a instituição observa “um movimento importante do usado migrar para o novo” diante das ações comerciais das montadoras chinesas, citando preço, bônus e taxas entre os fatores envolvidos. De acordo com o executivo, esse cenário levou a discussões dentro da rede sobre ajustes no percentual de recompra e no valor residual utilizado nos produtos de financiamento da montadora, buscando tornar os veículos usados mais competitivos.
Essa discussão alcança também produtos que dependem diretamente do valor futuro do automóvel. Tiago Meister, do Santander Financiamentos, afirmou que, diante da redução dos preços associada à entrada das marcas chinesas, produtos como assinatura enfrentam uma equação mais complexa, já que dependem também da capacidade de revender o automóvel depois de dois ou três anos.
Na avaliação da Acrefi, as diferentes experiências apresentadas durante o Panorama mostram que a transformação do mercado automotivo também altera variáveis consideradas pelas instituições na concessão de crédito.
Quando muda a dinâmica do mercado automotivo, muda também a equação do crédito. A entrada das montadoras chinesas amplia a concorrência, mexe com preços e coloca novas variáveis na análise das instituições financeiras, especialmente em relação ao valor residual e ao comportamento desses veículos no mercado de usados. Para quem financia, entender essa transformação é fundamental para continuar oferecendo crédito de forma sustentável”, afirma Cintia Falcão, diretora-executiva da entidade.








