Pix vira referência para pagamentos internacionais para a China

Infraestrutura conecta sistemas locais de pagamento a operações B2B transfronteiriças que podem ser liquidadas em menos de uma hora ou no mesmo dia
A eficiência alcançada pelo Pix no mercado doméstico começa a servir de referência para outro desafio das empresas brasileiras: pagar fornecedores do outro lado do mundo. Para as pequenas empresas, essa discussão é especialmente relevante. Em 2025, a China respondeu por 66,7% do valor importado por microempresas e MEIs brasileiros e por 64% das importações das empresas de pequeno porte, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
As empresas de pequeno porte importaram US$ 2,12 bilhões em produtos chineses no ano, enquanto microempresas e MEIs compraram US$ 1,03 bilhão do país. Os números mostram que a China tem peso ainda maior nas importações dos pequenos negócios do que no comércio brasileiro como um todo.
Em 2026, o fluxo continua crescendo. Entre janeiro e agosto, o Brasil importou US$ 51,56 bilhões da China, alta de 9,5% em relação ao mesmo período de 2025. O país respondeu por 26,4% de todas as importações brasileiras e permaneceu como a principal origem dos produtos comprados pelo Brasil no exterior.
No mesmo intervalo, o corredor de comércio entre Brasil e China alcançou US$ 128,6 bilhões, alta de 12,7%. As exportações brasileiras para o mercado chinês somaram US$ 77,1 bilhões, crescimento de 15%.
Depois que uma PME brasileira encontra um fornecedor chinês, negocia preço e fecha a compra, porém, começa outra parte da operação: fazer o dinheiro chegar ao destino. Dependendo da estrutura utilizada, uma transferência pode passar por diferentes instituições financeiras antes de chegar ao fornecedor, acrescentando etapas e reduzindo a previsibilidade sobre prazo e custo final da operação.
Pix como uma das pontas da operação
No Brasil, uma infraestrutura conectada ao Pix é utilizada pela XTransfer, fintech chinesa especializada em pagamentos internacionais B2B, para viabilizar operações que, dependendo de suas características, podem ser liquidadas em menos de uma hora ou no mesmo dia (T+0). A companhia estima que esse modelo pode proporcionar às PMEs economia de aproximadamente 90% em comparação com soluções tradicionais de liquidação transfronteiriça.
Isso não significa transformar o Pix em um sistema internacional. O pagamento continua sendo uma operação transfronteiriça, sujeita às regras cambiais, controles de compliance e liquidação entre mercados distintos. O Pix funciona como uma das pontas locais da infraestrutura, permitindo que a eficiência desenvolvida para movimentar reais no Brasil seja integrada a uma rede financeira internacional.
A diferença é relevante em um país no qual as empresas já incorporaram pagamentos instantâneos ao cotidiano. De janeiro a agosto de 2026, o Pix registrou aproximadamente 54,5 bilhões de transações, que movimentaram cerca de R$ 23,6 trilhões. Só em agosto foram 7,37 bilhões de transações, recorde mensal da série, com R$ 3,17 trilhões movimentados. Os dados são da base oficial do Banco Central, atualizada mensalmente.
O desafio agora é aproximar parte dessa experiência das operações internacionais, que podem envolver bancos correspondentes, diferentes intermediários, conversões de moeda e menor previsibilidade em relação ao momento em que os recursos chegarão ao fornecedor.
Uma das formas utilizadas para encurtar esse caminho é conectar infraestruturas financeiras locais nos diferentes mercados. Na XTransfer, pagamentos e recebimentos processados por meio de contas locais representavam 16% das transações em 2023. Em 2025, essa participação já havia superado 50%. A companhia mantém atualmente infraestrutura de contas locais em aproximadamente 60 países e regiões.
Na prática, em vez de depender exclusivamente de uma cadeia internacional formada por diferentes bancos correspondentes, a rede combina instituições e sistemas de pagamento locais nas pontas da operação, além das etapas necessárias de câmbio, liquidação e controle de risco.
Pagamento rápido não elimina compliance
A redução do tempo de processamento precisa ocorrer paralelamente às verificações exigidas em uma transação internacional. Na XTransfer, mais de 72 agentes de inteligência artificial são utilizados em processos como onboarding, KYC e monitoramento de transações. Atualmente, 98,5% das análises de transações são automatizadas, enquanto casos que demandam avaliação adicional podem ser encaminhados para uma equipe de cerca de 300 especialistas em risco e compliance.
Para empresas que compram da China, a tecnologia também é utilizada na verificação de fornecedores e na análise da legitimidade das transações. Essa etapa ganha relevância especialmente para uma PME que negocia pela primeira vez com uma contraparte localizada em outro país e não dispõe das mesmas estruturas de compliance e gestão de risco das grandes corporações.
Regras para pagamentos internacionais mudam em outubro
A discussão sobre a infraestrutura das operações internacionais ganha um novo componente regulatório no Brasil. Em 1º de outubro de 2026, entra em vigor a Resolução BCB nº 561, que atualiza as regras do serviço de pagamento ou transferência internacional, o chamado eFX.
A norma restringe a prestação do serviço a instituições autorizadas pelo Banco Central, estabelece novas obrigações de informação e determina o uso de contas segregadas para os recursos dos clientes. Segundo o BC, as mudanças buscam ampliar a segurança e a transparência e aproximar o mercado brasileiro dos padrões internacionais de prevenção a ilícitos financeiros.
O movimento coloca em discussão como combinar dois avanços que ocorreram em velocidades diferentes: de um lado, uma infraestrutura doméstica capaz de realizar pagamentos instantaneamente; de outro, operações empresariais internacionais que ainda precisam atravessar sistemas financeiros, moedas e estruturas regulatórias distintas.








