US$ 83 trilhões serão transferidos para novas gerações

Herdeiros podem não estar preparados para administrar patrimônio
Cerca de US$ 83 trilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 413 trilhões, devem ser transferidos para novas gerações nas próximas três décadas. A estimativa da empresa de serviços financeiro UBS para a chamada “Grande Transferência de Riqueza” coloca no centro das discussões não apenas o tamanho do patrimônio que mudará de mãos, mas uma questão menos evidente: as próximas gerações estão preparadas para administrar os recursos que levaram décadas para ser construídos?
O desafio ganha relevância também no Brasil. Dados do Colégio Notarial do Brasil mostram que 185.861 escrituras públicas de doação de imóveis foram registradas em 2025, número 59% superior aos 116.225 atos registrados em 2020. O movimento ocorre em meio à busca das famílias por antecipar a transferência de patrimônio e se preparar para as mudanças no Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD).
Para André Bobek, especialista em planejamento financeiro e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, o crescimento da preocupação com a sucessão revela uma mudança importante: preservar patrimônio não significa apenas definir quem ficará com os bens, mas preparar quem irá administrá-los. “Uma família pode levar 30, 40 ou 50 anos para construir um patrimônio e perder parte relevante desse trabalho em poucos anos se a geração seguinte não souber administrar os recursos”, afirma.
Herança não é sinônimo de dinheiro disponível
Um dos principais equívocos no processo sucessório é tratar herança como sinônimo de dinheiro disponível. Na prática, o patrimônio de uma família pode estar distribuído entre imóveis, empresas, participações societárias, fundos, ações, previdência e outros investimentos, cada um com diferentes níveis de liquidez, risco, tributação e potencial de geração de renda.
Um patrimônio de R$ 10 milhões, por exemplo, pode estar concentrado em imóveis ou distribuído entre diferentes classes de ativos. O valor nominal é o mesmo, mas a capacidade de gerar renda, a liquidez e os riscos são completamente diferentes. “Um imóvel pode valer milhões, mas não necessariamente gerar liquidez imediata. Uma participação em uma empresa pode ter um valor elevado, mas exigir conhecimento de gestão. Uma carteira de investimentos precisa estar alinhada aos objetivos de quem vai administrá-la. O herdeiro precisa compreender o que recebeu antes de tomar decisões”, explica Bobek.
O risco, segundo o especialista, aumenta quando a família passa décadas acumulando patrimônio sem envolver as próximas gerações nas decisões financeiras. O sucessor pode conhecer o valor dos bens que irá receber, mas não necessariamente entender como aquele patrimônio foi construído, quais riscos estão envolvidos ou qual estratégia deve ser adotada para preservá-lo.
Reforma tributária torna 2026 um ano estratégico para sucessão
A discussão ganha ainda mais peso com as mudanças trazidas pela regulamentação da reforma tributária. A Lei Complementar 227/2026 tornou possível a adoção de alíquotas progressivas para o ITCMD, imposto que incide sobre heranças e doações, respeitando o teto atual de 8%. A legislação também trouxe novas regras para a determinação da base de cálculo, incluindo referências ao valor de mercado dos bens e direitos.
Embora a aplicação dependa da adaptação das legislações estaduais e das regras de anterioridade, o cenário já coloca o planejamento sucessório no radar das famílias de maior patrimônio. Em estados que ainda precisam alterar sua legislação, parte das novas regras tende a produzir efeitos a partir de 2027.
“A regulamentação do ITCMD introduz novos elementos que precisam ser considerados no planejamento sucessório, especialmente em relação à progressividade das alíquotas e aos critérios de valoração dos bens e direitos. Devido a isso, a antecipação da sucessão deve ser analisada não apenas sob a ótica patrimonial, mas também à luz dos efeitos tributários e jurídicos de cada modalidade de transferência. Um planejamento realizado previamente pode proporcionar maior segurança jurídica à família e evitar que decisões sucessórias sejam tomadas de forma reativa, em um cenário tributário menos favorável”, afirma Victor Hugo Rocha, advogado sócio fundador da Rocha&Rocha Advogados.
“O planejamento sucessório deixou de ser uma discussão exclusivamente para o momento da morte ou para famílias com patrimônios gigantescos. As mudanças tributárias mostram que decisões tomadas com antecedência podem fazer diferença significativa na organização e nos custos da transferência”, afirma Bobek.
O problema começa antes da herança
Em famílias empresárias, por exemplo, a sucessão pode envolver não apenas a transferência de participação societária, mas a definição de quem estará à frente da empresa. Já em famílias cujo patrimônio está concentrado em imóveis, é necessário avaliar liquidez, rentabilidade, custos de manutenção e concentração de risco. A preparação também passa por apresentar aos futuros herdeiros a estrutura patrimonial da família, explicar os objetivos de cada ativo e desenvolver autonomia para que eles possam tomar decisões financeiras.
“Não basta entregar uma carteira de investimentos ou uma participação empresarial e esperar que o herdeiro saiba o que fazer. A sucessão precisa ser construída gradualmente. Quanto antes a próxima geração participar das conversas sobre patrimônio, maior a possibilidade de preservar o que foi construído”, diz o especialista.
Da primeira geração que construiu à segunda que administra
O desafio da próxima década, portanto, pode ser menos sobre quanto patrimônio será transferido e mais sobre quanto dele conseguirá permanecer nas mãos das próximas gerações. A chamada Grande Transferência de Riqueza coloca essa questão em uma escala inédita. Ao mesmo tempo em que bilhões de dólares serão transferidos globalmente, famílias precisarão lidar com mudanças tributárias, novas formas de investimento e uma geração que terá de assumir responsabilidades financeiras cada vez maiores.
No Brasil, o aumento das doações de imóveis já indica que parte das famílias começou a se antecipar. Agora, o desafio é garantir que a preparação não termine no cartório: transferir o patrimônio é apenas uma etapa; ensinar a próxima geração a preservá-lo e fazê-lo crescer é o que pode determinar sua longevidade.








