Assédio moral: Justiça do Trabalho recebe 601 mil ações em cinco anos

Assédio moral: Justiça do Trabalho recebe 601 mil ações em cinco anos

Levantamento do TST registra 30 mil ações somente nos primeiros quatro meses de 2026

Segundo o levantamento do Tribunal Superior do Trabalho (TST), a Justiça do Trabalho recebeu 601.538 novas ações de indenização por dano moral decorrente de assédio moral entre 2020 e 2025. Só nos primeiros quatro meses de 2026, foram mais de 30 mil processos registrados.

O dado, no entanto, traz uma reflexão para as empresas sobre o que acontece com os alertas internos e como as estruturas de integridade avançam no ambiente corporativo. Na edição de 2025-2026 do Programa Empresa Pró-Ética, da Controladoria-Geral da União (CGU), 128 companhias foram premiadas, apontando o maior número desde a criação da iniciativa. No total, 406 organizações acessaram o Sistema de Avaliação e Monitoramento de Programas de Integridade ( SAMPI), e menos de um terço atingiu os critérios necessários.

No cenário global, o Occupational Fraud 2026, da Associação de Examinadores Certificados de Fraude (ACFE), analisou 2.402 casos reais em 143 países e territórios. Em 43%, a fraude foi descoberta por meio de denúncia. Mais da metade dos relatos partiu de colaboradores, e os canais online (46%) e o e-mail (34%) estão entre os meios mais utilizados.

O retrato muda de figura quando se olha para um outro Brasil corporativo que não responde a pesquisas de compliance porque nem chegou a estruturar um comitê de ética. De acordo com dados da Receita Federal, o país abriu 2,9 milhões de pequenos negócios apenas no primeiro semestre de 2026, um crescimento de quase 12% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Micro e pequenas empresas, somadas aos microempreendedores individuais, responderam por cerca de 97% de todos os CNPJs abertos no país nos primeiros meses do ano e, segundo o Sebrae, esse universo é responsável pela maior parte da geração de empregos formais no Brasil.

Entre a empresa que nunca parou para avaliar se realmente precisa de um Canal de Denúncias profissional e a organização que já tem a ferramenta, mas não sabe se de fato funciona, existe uma diferença clara entre a corporação que gerencia o risco e aquela que apenas reage às imposições do mercado .

Ter um Canal de Denúncia não significa ser ouvido

Mesmo nas companhias que já adotaram o modelo, o desafio mudou. Desde 26 de maio de 2026, as novas regras da NR-1 obrigam as empresas a identificar os fatores de risco psicosociais relacionados ao trabalho, como sobrecarga e assédio. No final de setembro, o STF prorrogou por mais 90 dias a suspensão de sanções nas instituições, visando um consenso sobre os critérios objetivos de fiscalização.    O Brasil avançou na adoção formal dos canais, mas a maturidade operacional por trás deles segue com lacunas relevantes, sobretudo na capacidade de transformar relato em investigação concluída.

Esse descompasso tem nome: falta de confiança. Um canal gerido por áreas próximas à liderança ou que nunca dá retorno ao denunciante produz o mesmo silêncio de uma empresa que nunca teve canal nenhum, e os motivos que levam a isso já foram mapeados. O medo de retaliação, dúvida sobre o real anonimato e, principalmente, a sensação de que nada acontece depois que a denúncia é enviada. É esse último ponto que mais destrói a confiança ao longo do tempo, porque transforma a ferramenta em um item de checklist regulatório em vez de uma ferramenta de gestão de risco.

Heloísa Moraes, Head de Gente e Gestão da Contato Seguro, avalia que o baixo volume de relatos costuma ser mal interpretado pelas próprias organizações. “O dado mais perigoso não é apenas o das empresas sem Canal de Denúncias, mas também o das organizações que têm um canal e nunca comunicaram aos colaboradores para o que serve, quem apura e o que acontece depois que a denúncia é realizada. Uma ferramenta que ninguém sabe usar, ou em que ninguém confia, produz exatamente o mesmo silêncio de uma instituição que nunca teve canal nenhum, e esse silêncio, mais cedo ou mais tarde, vira uma grande crise”, explica a especialista.

O que a subnotificação custa, em números

Ainda de acordo com Occupational Fraud 2026 , da ACEF, as organizações perdem cerca de 5% da receita anual com fraudes ocupacionais. Os mais de dois mil casos analisados somaram mais de US$ 3,4 bilhões em perdas, com mediana de US$ 104 mil por caso. A pesquisa também associa a presença de controles antifraude a perdas menores e à identificação mais rápida.

O canal como ferramenta de gestão

Parte do problema está em como as empresas, sobretudo as maiores, enxergam o Canal de Denúncias. A ferramenta não é apenas um item de conformidade regulatória, mas também parte da cultura organizacional do dia a dia. Isso muda a forma como o canal é comunicado ou não, desde o primeiro contato do colaborador com a empresa. É por isso que apresentar o canal já no processo de novos funcionários faz diferença na taxa de uso ao longo do tempo.

Também muda a forma como grandes organizações, com múltiplas unidades e milhares de funcionários, estruturam plataformas de Canal de Denúncias dimensionadas para sua complexidade, com gestão terceirizada e independente da própria liderança que pode ser o alvo de um relato.

Para Heloísa Moraes, Head de Gente e Gestão da Contato Seguro, os episódios confirmam um padrão frequente ao analisar a atuação de Canais de Denúncias terceirizados em empresas de grande porte. “Toda crise que vemos explodir já tinha, em algum momento, um sinal interno que não foi ouvido, registrado ou levado adiante com seriedade. O valor de um canal estruturado não se mede pelo número de denúncias que ele recebe, mas pelo tamanho da crise que ele evita, e isso só é possível quando existe sigilo garantido, apuração independente e um processo que trata quem denuncia como parte da solução, não como um problema a ser contido”, afirma Moraes.

Essas exigências, aliás, estão cada vez mais amparadas em legislação e em padrões internacionais de governança, como mostra o histórico da Lei Sarbanes-Oxley e sua relação com o Canal de Denúncias adotado por companhias com operação ou capital ligados aos Estados Unidos, e reforçadas no Brasil pela Lei 14.457/22 e pela atualização da NR-1, que passou a tratar riscos psicossociais como parte obrigatória da gestão de segurança do trabalho.

Confiança é o que converte relato em prevenção

Dados da Contato Seguro ajudam a explicar por que o esforço de estruturar bem um canal e não apenas adquirir a ferramenta gera impacto direto na cultura organizacional das empresas que investem nisso. Segundo o Anuário 2025 da companhia, que analisou 206.994 denúncias recebidas por mais de 3 mil empresas, 77,7% das pessoas optaram pelo anonimato ao registrar um relato. Um indício de que o sigilo tecnológico, e não apenas a promessa de confidencialidade, continua sendo o fator decisivo para que o colaborador decida falar.

O levantamento também mostra que 34,4% dos relatos foram feitos fora do horário comercial, representando mais de 71 mil denúncias registradas à noite, em feriados ou fins de semana, o que reforça por que um Canal de Denúncias disponível 24 horas por dia amplia a captação de riscos que, de outra forma, ficariam invisíveis para as lideranças até se tornarem um problema maior.

Esses números convergem com o que a atualização da NR-1 passou a exigir das empresas a partir de 2026. Não basta ter políticas de integridade no papel; é preciso comprovar, com registros e evidências, que existe um processo real de escuta, apuração e resposta.

No fim, o verdadeiro valor de um Canal de Denúncias bem estruturado não está no volume de relatos que acumula, mas na capacidade de transformar esse volume em ação antes que o problema escale degraus preocupantes. Confiança, sigilo e retorno ao denunciante são o que diferencia uma empresa que consegue gerenciar risco internamente de uma que só descobre a dimensão real de seus problemas quando já não cabem mais dentro dos muros da organização.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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