Mulheres investem pouco, mas já são 34% dos apostadores online

69% das mulheres não utilizam ou desconhecem aplicações financeiras
Há um descompasso entre a forma como o mercado financeiro oferece investimento às mulheres e a maneira como parte delas chega às apostas online. De um lado, 31% das brasileiras investem em produtos financeiros. De outro, elas já representam 34% dos apostadores online no país. A diferença não está apenas na disposição para correr riscos. Ela ajuda a expor uma disputa por um público que, muitas vezes, sequer se enxerga como parte do mercado financeiro.
Os números fazem parte de levantamentos da Anbima e ajudam a colocar em perspectiva uma questão que costuma ser tratada de maneira separada. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro mostra que 69% das mulheres não utilizam ou desconhecem aplicações financeiras. Entre as que não investem, a falta de condições financeiras aparece como uma das principais barreiras.
É justamente nesse espaço que as apostas encontram terreno. Pesquisa da Anbima em parceria com a Kyvo identificou quatro perfis de apostadores e mostrou que 20% consideram a aposta uma forma de investimento. Entre os grupos mapeados, dois são formados majoritariamente por mulheres das classes C, D e E. Um deles reúne pessoas que apostam na expectativa de enriquecer rapidamente. O outro recorre às apostas para tentar fazer frente a despesas básicas, como aluguel e contas domésticas.
A diferença entre os dois mercados está também na promessa que cada um apresenta. Investir costuma ser associado a acumulação, planejamento e horizonte de longo prazo. A aposta oferece uma possibilidade imediata de retorno, ainda que altamente incerta. Para quem tem pouca margem no orçamento, a segunda narrativa pode parecer mais próxima da própria realidade do que a ideia de construir patrimônio aos poucos.
Relação com o dinheiro
Essa aproximação não acontece apenas pelo produto, mas pela linguagem, explica diretora de Relacionamento, Marketing e Mercado da ecomm|it, Claudia Mansur. “Termos como ‘estratégia’, ‘retorno’ e ‘rendimento’ aproximam o universo das apostas do vocabulário financeiro e podem embaralhar a fronteira entre investir e jogar. O fato de uma parcela dos apostadores considerar a aposta um investimento mostra que essa fronteira, para parte do público, já não é tão clara”, diz.
O dado mais relevante, portanto, talvez não seja quantas mulheres apostam ou quantas investem. É o que os dois números revelam sobre a relação delas com dinheiro. O mercado financeiro ainda encontra dificuldade para transformar interesse em participação, enquanto as plataformas de apostas conseguiram criar uma experiência de acesso simples, imediata e orientada pela expectativa de ganho.
Isso não significa que apostar seja uma alternativa de investimento ou que as mulheres estejam escolhendo conscientemente uma coisa em lugar da outra. Significa que existe uma parcela do público feminino para a qual a promessa de multiplicar rapidamente um recurso escasso pode ser mais concreta do que a proposta de guardar uma quantia que muitas vezes sequer sobra no fim do mês.
Para o mercado financeiro, a questão vai além de ampliar a oferta de produtos. Se a intenção é alcançar mulheres que ainda estão fora dos investimentos, será preciso entender por que a linguagem, os valores de entrada e a percepção de utilidade dos produtos financeiros ainda parecem distantes de parte desse público. Enquanto isso não mudar, o espaço entre “não tenho dinheiro para investir” e “posso tentar ganhar dinheiro apostando” continuará sendo ocupado por quem soube construir uma narrativa mais imediata sobre o dinheiro.








