Tokenização do crédito pode mudar a forma como o brasileiro financia imóveis

Tokenização do crédito pode mudar a forma como o brasileiro financia imóveis

Com bancos e registros preparando testes para 2027, especialista aposta que próxima transformação do setor não estará apenas no imóvel digital, mas na integração de financiamento, garantia e registro

Durante anos, falar em tokenização no mercado imobiliário brasileiro significou discutir principalmente novas formas de representar ativos e transações por meio de tecnologia. Agora, a discussão começa a chegar a uma área muito maior e mais presente na vida do consumidor: o financiamento imobiliário.

Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Ailos, Sicoob, Sicredi e Unicred firmaram com o Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR) um acordo para desenvolver soluções voltadas à digitalização da jornada do crédito imobiliário.

A iniciativa prevê integração entre instituições financeiras e registros de imóveis por meio de blockchain. Segundo o Banco do Brasil, os primeiros testes estão previstos para março de 2027 e devem avaliar formas de reduzir prazos de registro e pagamento e conectar etapas que atualmente percorrem diferentes sistemas.

O movimento chama a atenção de profissionais que acompanham o financiamento imobiliário há anos.

Correspondente bancário desde 2008 e com participação em mais de R$ 2,5 bilhões em financiamentos, Murilo Arjona vê nessa integração uma mudança potencialmente mais relevante do que simplesmente transferir documentos físicos para uma tela.

“Durante muito tempo, digitalizar significou pegar uma etapa que já existia e colocá-la dentro de um sistema. A transformação começa a ficar mais profunda quando financiamento, garantia e registro conseguem conversar desde o início da operação”, afirma Arjona.

O imóvel pode ser digital. A burocracia também precisa ser

Murilo Arjona.

Hoje, mesmo uma operação iniciada pela internet pode depender de diferentes etapas para análise de crédito, avaliação do imóvel, contratação, assinatura, constituição da garantia e registro.

O desafio discutido pelo setor é fazer com que essas etapas funcionem de maneira integrada.

É nesse contexto que surge o conceito de tokenização da jornada do crédito imobiliário. A diferença é importante. Não significa simplesmente transformar a escritura de uma casa em um token ou substituir o cartório por blockchain. O próprio ONR tem sustentado que tokens emitidos fora do sistema registral não criam, por si só, direitos reais sobre imóveis e que eventuais novas tecnologias precisam estar integradas à estrutura oficial de registro.

A discussão é outra: utilizar novas infraestruturas digitais para conectar informações, garantias e etapas de uma operação de crédito que atualmente estão distribuídas entre diferentes participantes.

“Para quem está comprando um imóvel, pouco importa se por trás existe blockchain, token ou qualquer outra tecnologia. O que importa é quanto tempo demora, quantas vezes ele precisa enviar o mesmo documento e quando o dinheiro efetivamente chega. A tecnologia só ganha relevância quando muda essa experiência”, diz Arjona.

O crédito começa a entrar no centro da discussão

A movimentação não acontece isoladamente. Em julho, a Comissão de Valores Mobiliários criou um Grupo de Trabalho de Tokenização para estudar aplicações de tecnologias de registro distribuído. Em setembro, técnicos da CVM apresentaram uma proposta para criação de um ambiente experimental destinado a testar operações com ativos tokenizados no mercado de capitais.

No setor imobiliário, a aproximação entre bancos e registros adiciona um componente diferente à discussão. O financiamento passa a fazer parte dessa infraestrutura. Para Arjona, isso pode abrir uma nova etapa na modernização do mercado.

“Passei praticamente toda a minha trajetória profissional acompanhando como bancos, correspondentes, corretores e compradores lidam com o financiamento. Se conseguirmos reduzir as fricções entre esses agentes, não estamos apenas mudando a tecnologia usada pelo mercado. Estamos mudando a própria experiência de financiar um imóvel”, afirma.

Da educação financeira para a infraestrutura

A movimentação também marca a entrada de Arjona como sócio-fundador da netspaces, por meio de uma operação de M&A. Na empresa, dedicada à infraestrutura digital do mercado imobiliário, ele passa a atuar na vertical de Crédito Imobiliário Inteligente.

Aqui, porém, a participação empresarial é consequência de uma tese maior. A netspaces trabalha na integração de etapas relacionadas à transação, registro e financiamento de imóveis. A plataforma da empresa é utilizada por mais de 450 construtoras e incorporadoras e reúne aproximadamente R$ 25 bilhões em imóveis.

A experiência de Arjona vem do outro lado dessa equação.  Por meio da Jornada do Financiamento Imobiliário, ele já treinou 180 mil corretores e formou 7 mil alunos no Financiamento PRO. Sua comunidade nas redes sociais ultrapassa 500 mil pessoas.

A aposta agora é aproximar quem concede, intermedeia e utiliza crédito de uma infraestrutura que começa a nascer digital.

O financiamento imobiliário de 2030 pode parecer muito diferente

Ainda existem questões regulatórias, técnicas e jurídicas a serem resolvidas antes que modelos baseados em tokenização se tornem parte cotidiana do financiamento imobiliário.

Os próprios projetos anunciados pelo mercado estão entrando primeiro em fase de desenvolvimento e testes.

Isso significa que a transformação não acontecerá da noite para o dia.

Mas a presença simultânea de bancos, registros de imóveis, reguladores e empresas de tecnologia coloca o tema em outro estágio.

Para Arjona, é justamente essa transição que merece ser acompanhada.

“Não acredito que o consumidor vá acordar pensando que quer contratar um financiamento tokenizado. Ele vai querer comprar uma casa com menos burocracia, mais velocidade e segurança. Se a tokenização conseguir tornar isso possível, ela deixa de ser uma discussão de tecnologia e passa a ser uma discussão de mercado.”

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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