Ter uma holding não basta para proteger o patrimônio na reforma tributária

Gestão dos bens exige conectar renda familiar, investimentos e sucessão a decisões que vão além da simples economia de impostos
Uma família pode ter imóveis, participações em empresas e investimentos reunidos em uma holding e ainda não ter definido quem administrará esses bens, como os rendimentos serão distribuídos ou quais recursos estarão disponíveis em uma emergência. Muitas vezes nem as regras de sucessão em caso de falecimento dos pais está muito clara para os participantes. A constituição da empresa é uma etapa do planejamento patrimonial, mas sua utilidade depende das decisões que orientam seu funcionamento.
Para Vinicius Carneiro, advogado e estrategista tributário da Etecon, a avaliação precisa considerar a composição do patrimônio, as fontes de renda, os custos e os objetivos dos proprietários. A mesma estrutura pode atender a uma família que pretende reinvestir os rendimentos e ser inadequada para outra que depende deles para pagar as despesas mensais. “Em última instância, holding não é modismo: é estratégia de planejamento patrimonial que demanda cuidados com o futuro”, conclui.
Uma holding patrimonial é uma sociedade utilizada para reunir e administrar bens. Ela pode facilitar a centralização da gestão e integrar o planejamento sucessório, mas esses resultados exigem regras, documentação e acompanhamento profissional. Transferir a propriedade dos ativos não resolve automaticamente as necessidades de quem depende deles. “Costumo dizer que ter uma holding cria um novo estilo de vida na família”, alerta o advogado.
A conta precisa chegar à família
As mudanças tributárias reforçam a necessidade de avaliar o caminho do dinheiro até os sócios. Segundo orientação publicada pela Receita Federal em agosto de 2026, a regra geral prevê retenção de 10% quando uma mesma empresa distribui mais de R$50 mil em lucros e dividendos no mês à mesma pessoa física residente no Brasil. A incidência alcança o valor total distribuído, observadas as exceções legais.
Já as regras para aluguel, mais restritivas, impactam diretamente no resultado disponível da holding, que deve ser avaliada sob aspectos estritamente contábeis, justamente para assegurar que os números não pareçam mágicos ou um verdadeiro pesadelo.
Por isso, comparar apenas o imposto sobre o aluguel recebido pela pessoa física com a tributação da receita de uma empresa é insuficiente para concluir se a holding é vantajosa. A análise também precisa incluir a distribuição dos resultados, os gastos de contabilidade, os registros e os custos de eventuais transferências ou vendas. Mas também deve considerar a economia tributária inegável na gestão dos bens imobiliários da família, com impostos de transferência e com o futuro da sucessão familiar aos filhos.
A finalidade de cada bem também pesa nessa decisão. Um imóvel destinado à moradia, outro que gera aluguel e uma participação na empresa familiar cumprem funções diferentes. Definir se a holding será controladora de outras empresas operacionais do grupo familiar igualmente é uma questão estratégica e poucas vezes analisada com o devido cuidado. O planejamento precisa identificar quais ativos sustentam o orçamento, quais podem ser vendidos e quais a família pretende preservar para as próximas gerações.
Ter bens não significa ter dinheiro disponível
Uma família pode possuir patrimônio elevado e enfrentar dificuldades para pagar despesas imediatas, chamamos isso de baixa liquidez corrente. Isso acontece, por exemplo, quando a maior parte da riqueza está concentrada em imóveis ou na empresa, enquanto os compromissos mensais dependem de receitas variáveis. Organizar o patrimônio exige considerar também a liquidez, ou seja, a possibilidade de transformar ativos em dinheiro no prazo necessário.
Essa visão integrada está no trabalho de um Family Office, estrutura que coordena a gestão patrimonial de uma família e conecta frentes como investimentos, planejamento jurídico e tributário e sucessão. A holding pode fazer parte dessa organização, mas não substitui o acompanhamento conjunto das decisões.
Na sucessão, a discussão precisa avançar sobre quem poderá administrar, como serão aprovadas vendas, quais critérios orientam a distribuição de resultados e o que acontecerá se um dos sócios quiser sair. Um acordo de sócios bem estruturado evita desgastes empresariais e familiares, muitas vezes no pior momento das decisões. Regras claras ajudam a reduzir incertezas entre familiares que podem ter necessidades e expectativas diferentes.
O planejamento continua depois da abertura
Para Carneiro, a composição dos bens, renda e objetivos precisam ser analisados em conjunto também na revisão das estruturas existentes. Nascimento de herdeiros, aposentadoria dos proprietários, venda de empresas ou aquisição de novos ativos podem alterar as condições que justificaram a criação da sociedade. A própria dinâmica da reforma tributária nos próximos anos pede acompanhamento criterioso da estrutura criada e eventuais ajustes que preservem benefícios ou reduzam prejuízos com novas regras.
A revisão patrimonial também depende de acompanhar mudanças que chegam por leis, regulamentos e orientações oficiais. Na rotina de empresários e profissionais que assessoram famílias, ouvir as atualizações da Rádio Radar Tributário, fundada por Vinicius Carneiro, é uma forma de acompanhar esses assuntos ao longo do dia. A programação de 24 horas reúne notícias tributárias em linguagem acessível, conectadas a decisões sobre empresas, renda e patrimônio.
Esse acompanhamento ajuda a identificar quando uma mudança merece ser levada ao contador ou ao advogado responsável pelo planejamento. Para quem possui uma holding, o passo seguinte é verificar como a novidade afeta a distribuição de resultados, os custos e os planos de sucessão. A informação trazida pela rádio funciona como ponto de partida para uma avaliação individualizada da estrutura familiar.








