Câmara deixa Regime Especial da Indústria Química sob risco de extinção

Câmara deixa Regime Especial da Indústria Química sob risco de extinção

A Câmara dos Deputados aprovou na última terça-feira (17) a Medida Provisória 1095/21, que altera incentivos tributários para a indústria química e petroquímica no âmbito do Regime Especial da Indústria Química (REIQ). A MP segue para análise do Senado.

Segundo explicou o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM), Ciro Marino, a MP aprovada pela Câmara fala em preservação e retorno do REIQ em janeiro de 2023. Mas na prática, no entanto, os dispositivos incluídos no texto do relator acabam com o Regime. “O texto aprovado dá ao Poder Executivo, que pleiteia a extinção, a responsabilidade de regulamentar as contrapartidas elencadas, sem estabelecer um prazo para tal providência. Em outras palavras, permite a extensão indefinida da ausência de regulamentação”.

A Associação alerta para os vários efeitos que o país irá sofrer caso esta MP vire lei, após a apreciação do Congresso Nacional. O REIQ não é um benefício, o que o regime especial faz nada mais é do que reduzir a gigantesca disparidade de custos entre a indústria local e a internacional. “Isso porque o imposto sobre o faturamento no Brasil é de 40% a 45%, enquanto os concorrentes nos Estados Unidos e na Europa pagam apenas 20% a 25%. Somado a matéria-prima brasileira, como o gás por exemplo, que custa 3 vezes mais do que em outros países”, afirma Marino.

Ainda de acordo com o presidente-executivo da ABIQUIM, o momento era para rever a carga tributária de PIS/COFINS sobre todos os derivados de óleo e gás para baixo, o que poderia ser feito sem redução de arrecadação. “Aumento que agora se produz vai em sentido contrário a todas as reações que estão sendo produzidas no mundo no mercado de óleo, gás e derivados em função da guerra na Ucrânia e da pandemia”, complementa o executivo.

Consequências da medida

A instabilidade econômica também é uma das consequências dessa medida do governo federal. Somente em 2021 as importações de produtos químicos chegaram a US$ 60 bilhões, e o déficit chegou a US$ 46 bilhões. Atualmente a indústria química já opera com apenas 72% da capacidade instalada no país, enquanto a participação dos produtos importados no mercado interno já é de 46%. Todo esse cenário desestimula investimento no Brasil. “Quanto mais importação, menos arrecadação para o país. O REIQ alivia o problema, traz um fôlego à indústria, mas não resolve o problema”, alerta Ciro.

A alta dos preços internacionais das commodities agrícolas, minerais e energéticas resultante do conflito na Ucrânia produz pressão adicional sobre a inflação mundial e a brasileira, ambas já afetadas pela pandemia. Isso poderá acarretar altas nas taxas de juros internacionais e no País, com efeitos negativos para a economia brasileira.

Os preços no mercado futuro, em dólares, aumentaram para uma série de commodities desde o dia de início da guerra. Alguns exemplos de altas entre 23 de fevereiro e 8 de março são: trigo (+45,3%); petróleo (+34,3%); paládio (+21,7%); milho (10,3%); açúcar (+4,9%); e alumínio (+4,2%).

O preço do barril de petróleo no mercado internacional tem sido pressionado, já que a Rússia é um importante produtor da commodity. A alta do insumo impacta diretamente a indústria química, responsável por fornecer produtos para montadoras, fábricas de calçados e construção civil, por exemplo.

Do petróleo se retira a nafta petroquímica, matéria-prima fundamental para a indústria. A tonelada do produto custa, em média, nove vezes o valor do barril do petróleo e chegou a US$ 772, alta de 56% em um ano. Elevar a carga tributária do setor agora é agravar ainda mais esse cenário.

Além disso, essa crise tornou mais clara ainda a importância de colocar em primeiro lugar a segurança de que não existirão interrupções nas cadeias de suprimentos de produtos essenciais para o funcionamento da economia e o atendimento da população brasileira.

O setor monitora com preocupação a oferta de fertilizantes e intermediários no mercado internacional, uma vez que o Brasil é fortemente dependente das importações. Embora o país tenha diferentes fornecedores, a Rússia é o principal parceiro comercial nesse grupo. “O país importa 85% dos fertilizantes que utiliza e vem da Rússia 23% dessas importações. A eventual falta de potássio é a que mais preocupa o setor. Quanto mais dependente do produto internacional, mais vulnerável estará a indústria nacional”, explica o presidente-executivo da ABIQUIM

Dados do estudo realizado pela FGV Projetos sobre o fim do REIQ, considerando os efeitos sobre a renda e emprego, a perda será de R$ 5,5 bilhões anuais no Produto Interno Bruto (PIB), além de uma redução de R$ 3,2 bilhões na arrecadação.

A queda de produção vai levar a um menor faturamento. O efeito de um possível aumento de arrecadação de PIS/COFINS (estimado em R$ 1 bilhão em 2022) será negativo, uma vez que o fim do Regime produzirá uma retração de arrecadação de aproximadamente R$ 1,7 bilhão.

No Brasil, a indústria química gera mais de dois milhões de empregos diretos e indiretos; é a 6ª maior indústria química do mundo; é a indústria que mais arrecadação gera em tributos federais — 13,1% do total da indústria, o que corresponde a R$ 30 bilhões. Também é a mais sustentável do mundo, líder em química de renováveis.

Insegurança Jurídica

Outro ponto a se considerar é que a indústria química brasileira se vê mais uma vez em uma situação de insegurança jurídica, e prejudica oportunidades de investimentos para o país. “Afinal, com tanta incerteza, quem vai acreditar no Brasil? Esta situação é um dos maiores obstáculos para a atração de investimentos para o país”, questiona Marino.

Esta é a segunda tentativa do governo de retirar os incentivos ao setor de uma só vez. A primeira tentativa foi por meio da MP 1034/21, de março do ano passado, cujos efeitos começariam em julho daquele ano.

Pedido conjunto aos senadores

Na última quarta-feira (18) a ABIQUIM e as 75 entidades apoiadoras da manutenção do REIQ enviaram aos senadores documento com exposição de motivos para que a casa, como revisora, pleiteando a não apreciação (caducidade) ou rejeição do texto original e do aprovado pela Câmara.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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