Economia brasileira 2023: sequestro em plena luz do dia

Economia brasileira 2023: sequestro em plena luz do dia
Gilmar Mendes Lourenço.

Recente revisão das previsões de performance da economia global para o ano corrente, efetuada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), neste mês de abril, disponibiliza um quadro prospectivo de desaceleração dos fluxos de produção e comércio.

Depois de crescer 3,4%, em 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial deve variar 2,8%, em 2023 – o que representará acréscimo de 2,4 % ao ano, em um quinquênio -, em razão da aplicação continuada da estratégia de restrição monetária pelos bancos centrais do ocidente, notadamente por meio da elevação dos juros básicos.

O complicador é que essa terapia conservadora alcança apenas o pedaço da doença inflacionária provocada pelo vírus da demanda, derivada dos resquícios da apreciável expansão fiscal e monetária, acionada por governos e BCs, por ocasião da pandemia de Covid-19,.

A ideia básica repousava na tentativa de preservação de empresas e empregos durante as renovadas quarentenas impostas para contenção da escalada de infecções e mortes pelo Sars-CoV-2 e retardamento do estouro das retaguardas de saúde, enquanto a ciência se encarregava da descoberta de imunizantes.

Em paralelo, o componente inflacionário brotado do lado da oferta (custos) do sistema econômico permanece altamente resistente aos remédios prescritos e utilizados pela ortodoxia monetária, conforme assevera a lógica dos manuais de macroeconômica.

Dentre os elementos inflacionários ligados à impulsão da curva de custos sobressai os desarranjos na logística de suprimentos das principais cadeias de valor, herdados dos tempos de alastramento do vírus, e a subida dos preços das commodities e estabilização em níveis recordes, ocasionada pelo longevo conflito entre Otan e Rússia, em território ucraniano.

Em outros termos, a tentativa de emprego de choque de juros no combate à inflação de custos serve, na melhor (ou pior) das hipóteses, para aprofundar a incômoda situação de estagflação – fenômeno surgido nos anos 1970, com o primeiro choque do petróleo -, que resume a convivência perversa entre estagnação dos negócios e arranque desgovernado do processo inflacionário.

Segundo o FMI, a inflação mundial no varejo deve descer de 8,8%, em 2022, para 7%, em 2023, o que não constitui refresco relevante por configurar reflexo demasiadamente defasado do pulo dos juros, de praticamente zero para mais de 5% a.a., causando estresse nos mais importantes centros financeiros.

No caso brasileiro, na sequência do incremento de 2,9%, em 2022, catapultado pelo bônus internacional e o despejo de bondades sociais pelo postulante à reeleição, com irrestrito apoio do legislativo e as correspondentes benesses do orçamento secreto, o PIB deve subir apenas 0,9%, em 2023, o que implicará em aumento de 1,3% a.a., entre 2019 e 2023, conformando, na prática, a propalada “caminhada para o lado”.

O desempenho medíocre de 2023 pode ser justificado pelos efeitos da inflexão externa (as exportações nacionais caíram -0,4% no primeiro quadrimestre de 2023) e da intensificação da trajetória descendente da absorção doméstica, delineada no último trimestre de 2022, em consequência do aprofundamento da crise de endividamento de famílias e empresas, atrelada à disparada dos juros no país.

Essa conjuntura inóspita pode ser atestada pela ascensão exponencial da inadimplência de consumidores e organizações privadas de diferentes portes, materializada na multiplicação de pedidos de renegociação de passivos e recuperação judicial, em um estágio de substancial retração da oferta de linhas de crédito pelas instituições financeiras.

Não bastasse a preservação dos juros básicos em 13,75% a.a., desde setembro de 2022, pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), o preço do crédito na ponta assumiu comportamento exponencial, o que traduz a abertura dos canais de proteção dos riscos e maximização da rentabilidade, por parte do oligopólio bancário, independentemente da marcha cadente da atividade econômica.

Isso vem ocorrendo a despeito da perda de embalo da inflação e da melhora das expectativas dos mercados de risco, a partir de reiteradas demonstrações de compromisso com a estabilidade da evolução da relação dívida pública/PIB, em médio prazo, ainda que mais dependente da ascensão da arrecadação, e empenho na simplificação dos impostos indiretos, feitas pelos ministérios da Fazenda e Planejamento.

Não por acaso, a colheita da primeira safra de estatísticas da economia brasileira, do exercício de 2023, denota a preponderância da instabilidade em curto prazo. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu -0,04%, em janeiro de 2023, e -1,28%, entre novembro de 2022 e janeiro de 2023.

Por uma ótica desagregada, pesquisa do IBGE apurou que após contraírem -0,6%, em 2022, as vendas do comércio varejista cresceram apenas 0,2%, em janeiro de 2023, puxadas por hipermercados e supermercados e vestuário, calçados e tecidos, em resposta à recuperação do emprego e renda, acontecida no ano passado, e derrubadas por artigos de uso pessoal, produtos farmacêuticos e veículos e motos, por conta da insuficiência e encarecimento do crédito.

Mais do que isso, o valor das ações das vinte e três maiores companhias atuantes no varejo atuantes no país acusou retração média de -59,3%, em dois anos, com ênfase para Lojas Americanas (-98,3%), Mobly (-91,6%), Westwing (-87,3%), Marisa (-87,2%), Via (-84,4%) e Magazine Luiza (-83,3%), de acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Já o volume de serviços, também calculado pelo IBGE, apesar situar-se 10,3% acima dos níveis verificados em fevereiro de 2020, considerado pré-pandemia, e ter atingido o maior patamar da série histórica de mais de uma década, em dezembro de 2022, experimentou declínio de -3,1%, em janeiro de 2023.

Ao ser determinado pela diminuição de -3,7% do segmento de transportes e armazenagem, portador de maior sensibilidade às oscilações da atividade em geral, o expressivo encolhimento do segmento de maior peso na composição do PIB reproduz a inversão da bonança artificial, fabricada pelo estímulo da gastança pública e privada, em 2022.

Enquanto isso, a produção industrial, igualmente levantada pelo IBGE, amargou recuo de -0,3%, em janeiro de 2023, que pode ser explicado pelos resultados desfavoráveis de bens de consumo duráveis e de capital, derivados, respectivamente, da fragilização da corrente de rendimentos das famílias e da exacerbação das incertezas quanto ao clima político, especialmente depois dos atentados antidemocráticos, protagonizados por radicais anárquicos, inconformados com a feição do desfecho do ciclo eleitoral, em 2022.

Em igual sentido, as variáveis acompanhadas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) também vêm exibindo curso cadente. Tanto é assim que, no mês de fevereiro de 2023, foram contabilizados decréscimos no faturamento (-0,1), utilização da capacidade instalada (-2,2%), massa de salários (-1,3%) e salário médio (-1,2%) do setor, enquanto o número de empregados e as horas trabalhadas observaram estabilidade.

Considerando o enfraquecimento da força propulsora internacional, o escape do cenário negativo, ou ao menos a sua minimização, exigirá ampla mobilização de esforços na direção de sólida restauração da demanda interna, principalmente do consumo e investimento.

Nessa perspectiva, a refundação aprimorada da retaguarda de inclusão social, desmantelada entre 2019 e 2022, especificamente os programas Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, em simultâneo à celebração de compromissos com a responsabilidade fiscal e montagem de proposta de arranjo arrecadatório regressivo, constituem passos decisivos na direção correta, cuja consolidação depende de sinalização positiva do BC.

As condutas ativas da instância monetária viriam em substituição à veemente defesa do mais forte, demonstrada desavergonhadamente por seu chairman ao imputar a culpa do maior juro real do mundo ao crédito direcionado, disponibilizado por agências públicas, comparando-o jocosa e preconceituosamente ao direito de meia entrada em cinemas.

Dentre as providências imprescindíveis à amenização ou eliminação do colapso, em linha com o anúncio dos fundamentos de equilíbrio fiscal, sobressai a deflagração de rodadas de cortes na taxa Selic, o uso do colchão de liquidez constituído pelos depósitos compulsórios e a execução de medidas de incentivo ao acirramento da competição bancária.

Até porque, nas circunstâncias atuais, a perenização de juros elevados atende unicamente aos maquiavélicos interesses de “sequestro a luz do dia” da enorme e regressiva carga tributária, expropriada dos agentes privados por um estado dotado de elevada dívida mobiliária de curto termo, o que compromete a capacidade de dispêndio e inversão pública e sacrifica irremediavelmente a geração de renda e emprego.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, ex-presidente do Ipardes e ex-conselheiro da Copel.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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