Selic do BC e a volta dos que não foram

Selic do BC e a volta dos que não foram
Gilmar Mendes Lourenço.

Destituída de surpresa, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, na reunião encerrada em 03 de maio de 2022, corrobora o encaminhamento intransigente da orientação monetária e destrelado dos movimentos da conjuntura.

Em audiência no Senado da República, em 27 de abril de 2023, em prosseguimento às discussões dirigidas à preparação do diagnóstico dos percalços macroeconômicos brasileiros e recomendação de terapias alternativas de correções e ajustes, constatou-se o cotejo entre duas linhas interpretativas do panorama e propositivas de iniciativas de atuação, caracterizadas por perfeita sintonia nas respectivas trincheiras.

De um lado, emergiu a retórica do bastante consistente do reduto econômico do governo Lula 3, comandado pelo ministro da Fazenda, Fernado Haddad, arauto da perseguição da estabilidade fiscal intertemporal – ancorada mais em potenciais acréscimos de arrecadação e menos na racionalização de dispêndios correntes – contando com a irrestrita concordância, adesão e empenho da titular do Planejamento, Simone Tebet.

Ambos expuseram de forma veemente e convincente, ao menos aos ouvintes não portadores das tatuagens liberais comuns aos rentistas, ainda que de forma bastante elegante, a presença de elementos bastante objetivos, particularmente quanto à fragilização da atividade econômica, a justificar a pronta deflagração de rodadas de cortes dos juros primários no país, por parte do Copom.

De outro extremo, o presidente da autoridade monetária autônoma, Roberto Campos Neto, coadjuvado e reforçado por exposições de outros ventríloquos do mercado financeiro e contanto com a concordância de prestigiados “analistas” dos principais veículos de formação de opinião, insistiu na ausência de percepção de horizonte temporal para a queda da taxa Selic, a despeito dos pronunciados indícios de combinação entre declínio da inflação, negócios, produção e emprego.

Na verdade, chama a atenção a desenvoltura do chairman do BC, em resposta às sucessivas afirmações críticas e agressivas do chefe de estado, incomodado com os impactos depressivos da austeridade monetária no aparelho econômico e tecido social nacional, ao defender que a obtenção do cumprimento do centro da meta de inflação de 3,25%, considerado o IPCA do IBGE, para o exercício fechado de 2023, determinado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), exigiria juros básicos superiores a 25% ao ano, para o deleite dos gigolôs da rolagem da dívida pública.

Mais do que isso, apoiado em fervorosa argumentação de condução puramente técnica do BC e partindo da premissa de que o descontrole inflacionário penaliza principalmente a parcela da população mais desprotegida, o que em tese parece correta, Campos Neto, parece não enxergar ou ignorar o desenho da curva cadente do nível de preços, que acontece em paralelo à deterioração dos níveis de atividade.

Um breve exame retrospectivo das linhas assumidas pelas variáveis inflação, juros e atividade, datado do princípio da entrada e propagação avassaladora do surto pandêmico no Brasil, oportuniza atestar a postura ortodoxa exagerada e/ou equivocada do BC.

Apenas para quantificar a reflexão, o IPCA, medido em doze meses, começou a esboçar curso ascendente a partir de junho de 2020, quando registrou variação de 2,13%, vinculado à subida dos preços das commodities globais e aos desarranjos logísticos provocados pela pandemia de Covid-19, e atingiu o pico de incremento de 12,13%, em abril de 2022.

Depois disso, a denominada inflação oficial ensaiou somente discreta desaceleração, em face da apreciável interferência do choque de custos das commodities alimentares e energéticas, com o conflito bélico ensejado pela invasão Russa à Ucrânia.

O menor ímpeto da inflação assumiu contornos mais definidos desde o último quadrimestre do ano passado, em consequência da conjugação entre esfriamento da economia e diminuição artificial dos preços dos combustíveis, motivada por renúncias tributárias federais e estaduais temporárias do PIS/COFINS e ICMS, concebidas a aplicadas pelo projeto populista de reeleição fracassada do incumbente.

Enquanto isso, os juros atingiram o piso histórico de 2% a.a., entre agosto de 2020 e março de 2021, ocasião em que foram majorados para 2,75% a.a., tardiamente, por sinal, em atendimento aos interesses oficiais voltados às eleições municipais de 2020, o que contrastava claramente com a necessidade de providências de bloqueio das tensões de demanda.

As pressões inflacionárias subjacentes ao excesso de demanda foram ocasionadas pelo derrame de recursos fiscais e monetários, impostos pelo imperativo de atenuação dos efeitos recessivos da escalada do vírus, aprovados emergencialmente pelo Congresso Nacional à revelia do Poder Executivo, que se encontrava rigorosamente perdido.

Paradoxalmente, a passividade e morosidade pretérita deram lugar à agressividade desmedida, expressa em doze subidas consecutivas nos encontros realizados a cada 45 dias pelo Copom, até agosto de 2022, quando a Selic foi ao topo de 13,75% a.a.

Como não poderia deixar de ser, depois de apresentar flutuações eminentemente conjunturais entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro semestre de 2022 – por conta dos desdobramentos do aparecimento de variantes do Sars-CoV-2 e da dimensão das restrições sanitárias em fase com a velocidade e amplitude da vacinação, desestimulada e/ou ridicularizada pelo inquilino do Palácio do Planalto -, a atividade econômica, mensurada pelo BC, experimentou o pico, em agosto de 2022 (com o índice de 149,60, sendo a base da média de 2002=100), e despencou a partir de setembro, perfazendo 135,48 em janeiro de 2023.

A recuperação experimentada em fevereiro, aferida em 140,24, resultou da extraordinária performance do setor de serviços, notadamente aqueles relacionados a transportes, em decorrência do avanço do turismo de período de férias e das festividades de Carnaval.

Em resumo, permanece inexplicável a predominância do conservadorismo dirigido à preservação dos juros em patamares elevados, os maiores do planeta em termos reais, em meio ao firme recuo estrutural da inflação e a perpetuação da estagnação econômica, há pelo menos seis meses.

A repentina denotação e apresentação de desculpas de existência de alguns núcleos de reajustes de preços, que estariam em desacordo com a marcha geral, para a não redução da Selic, a contemplação lateral do componente da inflação de oferta e a evocação dos riscos fiscais – que eram maiores na gestão 2019-2022 -, constitui “conversa fiada” do BC, que, na melhor das hipóteses, serve para esclarecer a aquisição de ingressos para as películas cinematográficas “a volta dos que não foram” e “poeira em alto mar”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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