PIB do segundo trimestre: mistura de alegria e desconforto

Gilmar Mendes Lourenço.
A expansão de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, no segundo trimestre de 2024, em relação aos três meses imediatamente anteriores, calculada pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do IBGE, representa um selo comprobatório da firme trajetória de recuperação econômica nacional.
O extraordinário desempenho quantitativo da grandeza trimestral, o maior desde o final de 2020, serviu também para desmontar os modelos de previsão, preparados e aplicados pelos especialistas da entidade conhecida como mercado – que previam alta entre 0,7% e 0,9% – colocando-os em indiscutível posição de desconforto, e sufocar as ardentes e eloquentes manifestações dos costumeiros profetas do caos.
O PIB registrou elevação de 3,3%, em confronto com o mesmo trimestre de 2023, de 2,9%, no primeiro semestre de 2024, e de 2,5%, em dozes meses encerrados em junho deste ano. O empuxe setorial trimestral veio da indústria (com destaque para o pulo de 3,5% da construção civil) e serviços, com acréscimos de 1,8% e 1,0%, respectivamente, compensando a acentuada contração de -2,3%, amargada pela agropecuária.
Na medição pela demanda agregada, o consumo das famílias e do governo subiram ambos 1,3% e as exportações e formação bruta de capital fixo (FBCF) aumentaram 1,4% e 2,1%, respectivamente.
A FBCF cresceu pelo terceiro trimestre consecutivo, fazendo a taxa de investimento ascender de 16,4% para 16,8% do PIB, em um ano, enquanto as importações experimentaram ampliação de 7,6%. Chamou a atenção a variação de quase 25%, observada nas compras externas de motores e máquinas não elétricos e partes (exceto motores de pistão e geradores) que também colaborou para o avanço do investimento.
No entanto, parece conveniente advertir que se trata de continuidade do revigoramento dos níveis de atividade, esboçado desde o final de 2022, amparada em bases frágeis, sintetizadas, de um lado, no dinamismo exportador dos segmentos de mineração e agronegócio e, de outro, na consistente, embora discreta e gradual, restauração do consumo das famílias.
No front internacional, a precificação quase plena das tensões geopolíticas, simbolizadas na escalada do espaço de protagonismo ocupado por China e Rússia, e da continuidade dos conflitos bélicos entre o ocidente e o Kremlin e no Oriente Médio, ensejou a combinação virtuosa entre declínio da inflação e dos juros, propiciando a recobrada de fôlego da produção e do comércio global.
Com isso, demanda e preços das matérias primas voltaram a subir. Tanto que, o Índice de Commodities – Brasil (IC-Br), estimado pelo Banco Central (BC), subiu 20,83%, em reais, entre janeiro e julho de 2024, carregado por metais (31,07%), agropecuária (19,05%) e energia (18,03%). Na aferição em dólares o salto foi de 6,75%, 15,83%, 5,18% e 4,26%, respectivamente.
Esse comportamento positivo, reproduzido nas mais importantes praças, deve interferir na deliberação pelo recomeço de rodadas de cortes, mesmo moderados, na taxa básica de juros, a ser tomada pelo Federal Reserve (FED), banco central dos Estados Unidos (EUA), na reunião de setembro de 2024, e repercutir na revalorização das moedas dos emergentes.
Acrescente-se a influência exercida pela alteração do quadro da sucessão presidencial norte-americana, com a substituição democrata da candidatura de Joe Biden pela vice, Kamala Harris, que incitou a multiplicação de apostas de desfecho não traumático do pleito de 05 de novembro de 2024.
Pesquisa da agência de notícias Reuters e do Instituto Ipsos, realizada junto a 4.253, incluindo 3.562 eleitores registrados (cadastrados para o voto, que não é obrigatório), nos estados, disponibilizada em 29 de agosto de 2024, aponta a democrata com 45% das intenções de voto contra 41% do adversário, Donald Trump.
Em direção semelhante, inquérito nacional da ABC News e Ipsos – feito online entre os dias 23 a 27 de agosto de 2024, em inglês e espanhol, em uma amostra aleatória de 2.496 adultos – mostra que Kamala suplanta Trump com 50% contra 46% das preferências.
Quanto ao consumo privado, há flagrante preservação do panorama de reerguimento, em consequência da manutenção da marcha favorável do emprego e da renda, em resposta aos efeitos da reforma trabalhista de 2016 e, especialmente, à intensificação das políticas de proteção social sob Lula 3.
O acréscimo de haveres públicos desde 2023 está voltado prioritariamente a programas como Bolsa Família, Auxílio Gás e Farmácia Popular, reimplantação do piso de dispêndios com saúde e educação, em 23% e 15% da receita corrente líquida, respectivamente – retirados pelo Teto de Gastos de 2016 -, e reintrodução da indexação do salário mínimo real ao incremento do PIB de dois anos antes.
A taxa de desocupação, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, alcançou 6,8%, da força de trabalho, no trimestre encerrado em julho de 2024, a menor desde outubro-dezembro de 2014, quando chegou a 6,6%. Na mesma linha, o rendimento médio aumentou 4,8%, em relação ao período compreendido entre maio e julho de 2023.
Só que os especialistas ainda consideram uma reação frágil, ilustrativa da resistência das condições de precarização do mercado laboral, atestada pela informalidade de 38,7% da população ocupada, o que equivale a 39,4 milhões de trabalhadores, versus 39,2%, no mesmo trimestre de 2023.
Ademais, a generalizada renegociação de dívidas dos consumidores, patrocinada em 2023 e 2024, o tamanho do endividamento e inadimplência das famílias brasileiras continua extremamente elevado, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), notadamente no cartão de crédito (86% dos tomadores), que, na modalidade rotativo, ainda cobra juros anuais superiores a 400%, segundo acompanhamento do BC.
Se o PIB nacional crescer 2,7% em 2024, como preveem os economistas chefes das principais instituições financeiras e de grandes empresas, integrantes do painel de consulta semanal da Pesquisa Focus, do BC, e o próprio governo, a renda per capita da população brasileira deverá apenas empatar com a contabilizada em 2013, último ano antes da reeleição e posterior colapso do governo Dilma 1¼, ocasionado pelo descalabro fiscal impregnado na Nova Matriz Econômica.
Portanto, o desmanche das chances de a celebrada atual fase de reativação econômica desembocar e/ou se transformar em mais um voo de galinha, famoso por aqui, depende do desencalhe da agenda de longo prazo, voltada à elevação sustentada dos investimentos públicos e privados.
Paradoxalmente, a receita não é tão complicada, exigindo, dos atores políticos, desapego dos equívocos do passado e empenho coordenado no convencimento coletivo e perseguição do regresso da responsabilidade fiscal, estruturante e não paliativa, e da formulação, debate e implantação de blocos contemporâneos de reformas institucionais, Em tempo. Acertei sozinho um bolão entre amigos economistas. Antecipei crescimento do PIB entre 1,2% e 1,4%. Pura sorte.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








