Empresas abandonam o modelo de negócio funil e apostam na ampulheta para escalar relacionamento

Empresas abandonam o modelo de negócio funil e apostam na ampulheta para escalar relacionamento

Sem tecnologia, a ampulheta não funciona. Com o CRM conversacional, dados são integrados, jornadas são automatizadas e o relacionamento ganha escala

Durante muito tempo, o objetivo das empresas foi simples: fechar a venda. Mas o que acontece depois disso passou a ser ainda mais estratégico.

É nesse contexto que ganha força a ampulheta de vendas, uma estratégia comercial e de marketing que parte do princípio de que a conversão não encerra a jornada, mas inaugura uma nova fase. Diferentemente do modelo tradicional, em que o cliente “cai” no fim do funil e sai da operação, a ampulheta reabre o fluxo após a conversão.

Esse modelo combina dois movimentos: na parte superior, etapa de entrada de novos clientes, segue a lógica do funil — atração, interesse, consideração e compra — e, na sequência, se expande para retenção, recompra, lealdade e indicação como etapas estruturadas, e não como efeitos secundários.

Desse modo, o relacionamento passa a ser tratado como um ativo central do negócio. Em vez de concentrar esforços apenas na aquisição, a empresa gerencia o cliente ao longo de toda a sua jornada na base.

Para entender essa mudança, é inevitável revisitar o modelo de funil.  O funil de vendas foi desenhado para eficiência na conversão. Um volume amplo de leads entra no topo, passa por filtros e chega à base em forma de clientes. O modelo responde bem à pergunta “como vender”, mas não resolve o que acontece depois. O cliente compra e, muitas vezes, desaparece da estratégia. Nesse formato, a operação se concentra na conversão, com pouca visibilidade sobre o pós-venda.

“A ampulheta corrige esse ponto cego. Ela incorpora o pós-venda como parte formal da operação e, assim, o cliente permanece ativo, é acompanhado, reengajado e incentivado a voltar e a indicar novos clientes. O escopo da estratégia se amplia para incluir recorrência e construção de base”, explica Gustavo Fragoso, CMO da HelenaCRM.

Essa lógica ganha força quando o relacionamento acontece em canais diretos e contínuos. No Brasil, o WhatsApp já é considerado infraestrutura, com presença massiva no cotidiano e alta taxa de abertura. Segundo Stadita, o país é o 2º maior mercado do WhatsApp no mundo, ocupando hoje uma posição central na gestão de relacionamento.

O especialista explica que hoje já é possível, por meio da integração de CRMs (que são sistemas de gestão do relacionamento com o cliente) ao WhatsApp, transformar cada conversa em um registro estratégico, desde que haja estrutura para organizá-la.

“A ampulheta só funciona quando a empresa consegue organizar o relacionamento em escala. A diferença está na forma como a comunicação é estruturada, quando ela acontece, para quem é direcionada e em qual contexto. Sem isso, o pós-venda continua invisível dentro da operação”, afirma o CMO da HelenaCRM, que é uma plataforma white label voltada à estruturação de operações comerciais via WhatsApp.

A empresa desenvolve uma camada de CRM conversacional integrada ao WhatsApp, que permite registrar todas as interações, estruturar jornadas e automatizar comunicações ao longo do ciclo do cliente. O objetivo não é apenas centralizar contatos, mas transformar histórico em ação.

“Quando você registra o que o cliente comprou, quando comprou e como interagiu, você passa a operar com dados e deixa de depender da memória. Isso permite reativar, nutrir e manter o cliente dentro da base de forma contínua, tornando-os até mesmo fãs da sua marca”, explica Fragoso.

O desafio, no entanto, está na execução. “Em bases maiores, o relacionamento não se sustenta de forma manual. Identificar padrões de comportamento, registrar interações e acionar clientes no momento adequado exige estrutura. A organização desses dados ao longo da jornada passa a depender de CRMs conversacionais”, destaca.

Integrados ao WhatsApp, esses sistemas criam uma camada contínua de relacionamento. Cada interação alimenta um histórico único, utilizado para automatizar processos, segmentar comunicações e manter o cliente ativo ao longo do tempo.

“Na prática, isso resulta em operações mais previsíveis. Empresas programam reativações, estruturam campanhas baseadas em comportamento e mantêm comunicação frequente sem depender de ações pontuais. Assim, o relacionamento ganha consistência ao longo do tempo”, conta o especialista da HelenaCRM.

Outro efeito direto é a transformação da indicação em estratégia estruturada. Em vez de depender exclusivamente de mídia paga ou aquisição ativa, empresas trabalham a base existente como vetor de crescimento. Dessa forma, o cliente também assume um papel ativo na geração de novos negócios.

“O cliente satisfeito sempre indicou. A diferença é que, com dados e automação, a empresa consegue estimular isso de forma organizada, e a indicação passa a ser parte do crescimento”, diz o executivo.

Gustavo Fragoso.

Essa capacidade de escalar relacionamento resolve um dos principais gargalos das operações em crescimento: a perda de controle sobre a base. À medida que o volume de clientes aumenta, acompanhar preferências, histórico e timing de contato se torna inviável sem tecnologia.

“Empresas menores conseguem fazer isso de forma manual. Mas, quando a base cresce, ou você estrutura esse relacionamento com tecnologia ou ele simplesmente se perde. E é nesse ponto que muitas empresas deixam receita na mesa”, afirma Fragoso.

A consolidação do WhatsApp como canal de negócios acelera esse processo. Diferente de outros meios, o aplicativo opera dentro do fluxo cotidiano do usuário, o que aumenta a probabilidade de leitura e resposta. Para as empresas, isso reduz atrito e amplia a eficiência da comunicação.

“O WhatsApp hoje é onde o cliente está. Integrar isso a um CRM permite transformar conversa em processo, e processo em resultado”, resume.

E, assim, o conceito da ampulheta não elimina o funil, ela amplia sua lógica. A conversão continua relevante, mas não sustenta o crescimento isoladamente.

Sob a ótica de negócios, dois indicadores ajudam a medir a eficiência dessa estratégia: o LTV (Lifetime Value) e o CAC (Custo de Aquisição de Cliente). O LTV representa o valor total que um cliente gera ao longo do tempo, ou seja, quanto ele deixa, em média, durante todo o relacionamento. Um cliente que paga R$ 500 por mês durante 12 meses, por exemplo, gera um LTV de R$ 6.000.

Já o CAC mede quanto custa conquistar esse cliente, incluindo investimentos em marketing, vendas, mídia e equipe comercial. Se uma empresa investe R$ 10 mil e conquista 10 clientes, o CAC é de R$ 1.000 por cliente. O equilíbrio entre esses dois indicadores é o que define a sustentabilidade do modelo: quando o LTV supera o CAC, a operação se mostra saudável; quando ocorre o contrário, há perda de eficiência.

No mercado, a referência é que o LTV seja pelo menos três vezes maior que o CAC. Dentro da lógica da ampulheta, esse equilíbrio ganha força: ao estimular recompra, o modelo amplia o valor gerado por cliente e, ao incentivar indicação, reduz o custo de aquisição. Em síntese, o LTV indica quanto um cliente vale para o negócio, enquanto o CAC revela quanto custa conquistá-lo.

Estudos compilados pela Harvard Business Review indicam que adquirir um novo cliente pode custar de 5 a 25 vezes mais do que manter um existente. Em paralelo, dados da BIA Advisory Services mostram que clientes recorrentes tendem a gastar até 67% a mais do que compradores de primeira viagem.

Essa relação se sustenta nos dados de mercado. Levantamentos compilados pela Harvard Business Review indicam que adquirir um novo cliente pode custar de 5 a 25 vezes mais do que manter um existente, enquanto estudos da BIA Advisory Services mostram que clientes recorrentes tendem a gastar até 67% a mais do que compradores de primeira viagem. Na prática, isso reforça a lógica da ampulheta: é na base — retenção, recompra e indicação — que o LTV se expande e o CAC se dilui ao longo do tempo.

“O crescimento vem da capacidade de manter o cliente ativo e comprando mais vezes. Quando a empresa organiza esse relacionamento no WhatsApp, com automação e histórico, consegue se comunicar melhor, estimular recompra e aumentar o tempo de relação com o cliente, o que eleva o LTV. Ao mesmo tempo, clientes satisfeitos voltam e indicam novos, reduzindo o CAC. É essa combinação que sustenta o resultado no longo prazo e fortalece o modelo de ampulheta”, conclui o executivo da HelenaCRM.

Crédito da foto: Freepik

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *