Copa de 2026 e febre das bets desafiam finanças dos brasileiros

Em cenário de juros reais elevados, especialista destaca que o “consumo emocional” em grandes eventos é o vilão silencioso da rentabilidade no longo prazo
O Brasil entra no clima da Copa do Mundo de 2026 sob um novo paradigma de consumo que desafia até os planejamentos financeiros mais sólidos. Pela primeira vez em um mundial de seleções com o setor de apostas totalmente regulamentado no país, a estimativa é que o volume global de “bets” supere US$ 35 bilhões, com o mercado brasileiro respondendo por cerca de US$ 3,5 bilhões, segundo projeções do setor. Ao mesmo tempo, cerca de 77% da população brasileira declara intenção de acompanhar ativamente o torneio, de acordo com estudo da Kantar, o que amplia a pressão sobre o orçamento das famílias em um ambiente ainda marcado por juros elevados e ajustes recentes na tabela do Imposto de Renda.
Para André Bobek, fundador da Mhydas Planejamento Financeiro, consultoria com mais de R$ 1 bilhão sob gestão, o momento exige tratar o lazer como uma variável estratégica dentro do planejamento financeiro. “Não existe uma porcentagem mágica, mas existe bom senso. Eu gosto de trabalhar com até 5% da renda mensal para entretenimento pontual, como a Copa. Passou disso, já começa a deixar de ser lazer e vira descontrole”, afirma.
Segundo o especialista, o principal risco está na forma como esses gastos são incorporados à rotina financeira. “Entretenimento não pode competir com construção de patrimônio. Se a pessoa precisa mexer em investimento, comprometer contas fixas ou recorrer a parcelamento, já ultrapassou o limite”, diz.
Consumo emocional e efeito acumulado
Diferente de despesas previsíveis, como IPVA ou material escolar, os gastos da Copa são impulsionados por gatilhos emocionais. Nesse contexto, o erro mais comum não está no valor isolado, mas no fato de esse consumo começar a disputar espaço com prioridades estruturais, como investimentos e organização financeira de longo prazo.
“O principal erro é emocional. Copa gera euforia, euforia gera excesso. A pessoa gasta mais do que deveria com bebida, apostas, viagens e parcelamentos”, afirma Bobek. Segundo ele, há ainda uma percepção equivocada de que se trata de um desvio pontual. “Muita gente pensa ‘é só esse mês’, mas pequenos excessos recorrentes são exatamente o que deteriora a saúde financeira no longo prazo”, completa.
O uso de crédito para financiar esse consumo também entra no radar. De acordo com o especialista, parcelamentos e cartões, quando utilizados em um ambiente de euforia, configuram uma “armadilha de liquidez”. Com juros ainda elevados, o custo financeiro desse tipo de decisão tende a ser desproporcional ao benefício momentâneo.
Outro ponto crítico é o custo de oportunidade. “Com a Selic em patamares elevados, cada real gasto por impulso deixa de render. O investidor precisa ter clareza: o dinheiro da ‘festa’ está saindo da reserva de oportunidade ou do capital que seria aportado?”, questiona.
Planejamento prévio e teto de gastos
A metodologia defendida pela Mhydas, aplicada a uma base de mais de 8 mil clientes, parte da gestão rigorosa do fluxo de caixa e da definição de limites claros antes do início do evento. A recomendação é estabelecer um orçamento fechado, um valor fixo destinado exclusivamente à Copa, e tratá-lo como teto inegociável.
“A regra é simples: você só pode gastar o que já está previsto. O ideal é separar antes da Copa um valor específico e gastar apenas aquilo, sem exceção”, orienta Bobek. “Acabou o budget, acabou o jogo financeiro. Pode continuar assistindo, mas sem aumentar o gasto”, complementa.
Além disso, a preservação de ativos é tratada como princípio central. A recomendação é evitar o resgate de investimentos, especialmente aqueles com menor liquidez, para custear despesas de lazer. O consumo deve estar restrito à parcela do orçamento destinada ao entretenimento, sem comprometer o patrimônio acumulado.
Apostas, viagens e o custo real da experiência
A complexidade financeira da Copa de 2026 também passa pelo custo real da experiência. Enquanto parte dos brasileiros deve ampliar os gastos com alimentação e consumo doméstico, aqueles que optarem por acompanhar os jogos presencialmente nas cidades-sede da América do Norte enfrentam orçamentos que podem variar entre R$ 15 mil e R$ 40 mil por pessoa.
Bobek alerta que decisões impulsivas, especialmente em relação a viagens e apostas digitais, podem ter impacto significativo. “As apostas têm baixo valor unitário e, por isso, muitas vezes passam despercebidas, mas no acumulado podem comprometer uma parcela relevante do orçamento”, afirma.
Para quem já enfrenta um cenário financeiro mais pressionado, a recomendação é ainda mais conservadora. “Se o orçamento está no limite, a decisão mais estratégica é não gastar. Em muitos casos, preservar o patrimônio é o melhor investimento que se pode fazer”, diz.
Na avaliação do especialista, embora mudanças recentes, como ajustes na faixa de isenção do Imposto de Renda, possam gerar algum alívio no curto prazo, esse ganho não deve ser canalizado para consumo impulsivo. “Copa é entretenimento. Não pode virar um problema financeiro no segundo semestre”, conclui.








