Apostas em bets podem reduzir as chances de financiar um imóvel?

Apostas em bets podem reduzir as chances de financiar um imóvel?

Gastos recorrentes podem elevar o endividamento, comprometer a renda e piorar o perfil avaliado pelos bancos na concessão do crédito habitacional

A aprovação de um financiamento imobiliário depende da análise que vai além do salário informado pelo comprador. Os bancos observam o nível de endividamento, o histórico de pagamentos, os compromissos já assumidos e a parcela da renda que permanecerá disponível para pagar o imóvel. Nesse processo, apostas frequentes podem prejudicar o perfil financeiro do cliente, ainda que não exista uma regra pública que determine a reprovação automática de quem utiliza plataformas de bets.

Murilo Arjona, especialista em financiamento imobiliário, explica que o principal risco está nas consequências provocadas pelas apostas. Quando os valores comprometem o orçamento, geram atrasos ou levam ao uso recorrente do cheque especial, do rotativo do cartão e de empréstimos, a capacidade de assumir uma nova dívida pode ser reduzida.

Um estudo conduzido por pesquisadores do Insper e da Stone encontrou indícios de que as apostas esportivas afetam o comportamento financeiro e o acesso ao crédito. O levantamento é relevante porque cruzou dados de transações, pagamentos e crédito de milhões de clientes, comparando pessoas que começaram a apostar com consumidores de perfil semelhante que não fizeram apostas.

Segundo os resultados divulgados pela Folha de S.Paulo, a proporção de apostadores inadimplentes cresceu, em média, 20% a mais do que a registrada entre não apostadores nos 12 meses seguintes à primeira aposta. A parcela do cartão de crédito paga com atraso aumentou 38,7%, enquanto o acesso ao crédito caiu 16%.

A pesquisa ainda não foi publicada em periódico acadêmico e não analisou especificamente contratos de financiamento imobiliário. Os resultados, porém, ajudam a compreender de que maneira o hábito de apostar pode deteriorar indicadores considerados pelas instituições financeiras.

O banco pode reprovar o cliente por causa das apostas?

A realização de uma aposta isolada não significa que o pedido será recusado. Os critérios variam entre bancos, linhas de financiamento e perfis de compradores. A instituição também não precisa classificar formalmente o cliente como apostador para identificar um risco maior, pois os efeitos podem aparecer no aumento das dívidas, na redução do saldo disponível e nos atrasos de outros compromissos.

“Uma transferência isolada para uma bet não representa uma reprovação. O problema começa quando as apostas consomem uma parcela relevante da renda, desorganizam o orçamento ou provocam atrasos. É esse conjunto que piora a situação financeira apresentada ao banco”, afirma Arjona.

A capacidade de pagamento ocupa uma posição central nessa avaliação. Na aquisição de um imóvel usado, por exemplo, a Caixa informa que a prestação não pode superar 30% da renda familiar mensal bruta. Outras instituições adotam políticas próprias, mas também consideram a relação entre renda, obrigações existentes e valor da futura parcela.

Se o consumidor acumula empréstimos, parcelas de cartões ou limites utilizados para sustentar apostas, sobra menos renda para o financiamento. O resultado pode ser a aprovação de um valor menor, a necessidade de aumentar a entrada, a indicação de um imóvel mais barato ou a recusa da proposta.

Histórico financeiro pode pesar na análise

Os modelos de risco utilizados pelos bancos consideram diferentes informações. Cadastro, renda comprovada, dívidas ativas, atrasos, relacionamento com a instituição e histórico de crédito podem influenciar a decisão. Movimentações bancárias também podem ganhar relevância quando são utilizadas para demonstrar a renda ou avaliar a estabilidade financeira do comprador.

“O financiamento imobiliário é um compromisso de longo prazo. O banco precisa verificar se a família consegue pagar a prestação sem comprometer o restante do orçamento. Quando as apostas passam a disputar espaço com despesas básicas e dívidas já contratadas, a operação se torna mais arriscada”, explica o especialista.

Outro possível impacto está na formação da entrada. Gastos recorrentes com bets podem dificultar a criação da reserva necessária para comprar o imóvel e pagar despesas como documentação, impostos, avaliação e registro. O cliente também fica mais vulnerável a imprevistos depois da contratação, principalmente quando não mantém uma reserva de emergência.

Quem pretende solicitar financiamento deve organizar as contas, quitar obrigações em atraso, evitar novas dívidas e reunir corretamente os comprovantes de renda. Não existe um prazo único para recuperar a capacidade de crédito, porque os bancos adotam critérios diferentes e analisam o histórico de cada proponente.

O estudo não permite afirmar que uma aposta, sozinha, impede a compra financiada de um imóvel. Ele mostra que a frequência e o valor destinado às bets podem deixar efeitos mensuráveis na vida financeira. Na análise do banco, o ponto decisivo será a existência de renda disponível, dívidas controladas e um histórico compatível com a prestação que o comprador pretende assumir.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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