Uber passa a vender hotéis: o turismo entrou de vez nos superapps?

Parceria com Expedia leva 700 mil hospedagens ao aplicativo e revela a infraestrutura tecnológica por trás das viagens integradas
Pedir um carro, reservar um hotel e solicitar o jantar depois do check-in já podem fazer parte da mesma experiência digital. Ao acrescentar hospedagens ao aplicativo, a Uber mostrou que empresas de outros setores podem incorporar serviços turísticos sem criar toda a operação do zero. Para o usuário, surge uma opção na tela. Nos bastidores, plataformas diferentes precisam trocar dados em tempo real.
Bruno Bazoti, fundador e CEO da Larian AI, empresa de tecnologia no ramo do turismo, explica que esse modelo depende de uma infraestrutura capaz de conectar inventário, preços, pagamentos, confirmações e atendimento. A experiência simplificada exige coordenação entre todos os sistemas envolvidos.
O movimento ganhou escala em abril de 2026, quando a Uber anunciou uma parceria com o Expedia Group para oferecer hospedagens em seu aplicativo nos Estados Unidos. A seleção deve superar 700 mil propriedades, com possibilidade de expansão para outros mercados. A Rapid API da Expedia conecta esse inventário ao ambiente da Uber.
Os dados apresentados pelo Expedia Group na conferência Explore 2026 ajudam a explicar o interesse pelo formato. Entre os viajantes consultados, 77% reservariam mais de um componente da viagem na mesma plataforma e 81% reuniriam os serviços se houvesse economia. O levantamento é relevante por acompanhar o comportamento dos usuários e orientar a estratégia B2B de uma das maiores empresas globais de tecnologia para viagens.
Esse modelo é conhecido como turismo integrado ou embedded travel. Empresas de mobilidade, bancos e programas de fidelidade podem incluir hospedagem, seguro ou transporte em suas próprias jornadas. A marca mantém o contato com o usuário, enquanto parceiros especializados fornecem inventário e processamento operacional.
“O cliente enxerga uma plataforma, mas a operação atravessa diversos fornecedores. A tecnologia precisa manter preço, disponibilidade e confirmação coerentes em todos os ambientes, inclusive após uma alteração”, afirma Bazoti.

A etapa posterior à venda concentra parte do desafio. Cancelamentos, reembolsos, mudanças de data e falhas de pagamento precisam chegar ao aplicativo de origem sem informações desencontradas. Também é necessário definir quem presta atendimento e atualiza a reserva. Uma compra simples pode gerar atrito quando o suporte continua fragmentado.
O compartilhamento de dados acrescenta outra camada. Informações pessoais, preferências e meios de pagamento podem circular entre empresas distintas, exigindo consentimento, controle de acesso e responsabilidades claras. Uma falha do fornecedor também pode afetar a confiança depositada no aplicativo de origem.
“Levar turismo para outro ecossistema exige pensar na jornada completa. A integração precisa funcionar no financeiro, no atendimento e na gestão da reserva, porque a marca também será avaliada pelo que acontece depois da confirmação”, acrescenta o executivo.
A parceria aponta para um mercado no qual serviços turísticos aparecem em ambientes já usados para outras tarefas. A expansão dependerá da capacidade de conectar empresas diferentes sem transferir ao usuário a complexidade dos bastidores.








