Data centers: o que define onde os megaprojetos serão construídos no Brasil?

Data centers: o que define onde os megaprojetos serão construídos no Brasil?

Energia, transmissão, conectividade e condições de implantação ajudam a explicar por que algumas regiões se tornam pólos e outras ficam fora da rota dos novos empreendimentos

O Estado de São Paulo concentra 38% da capacidade de data centers do país e permanece como o principal hub do Brasil e da América Latina, segundo o relatório Data Center Brasil 2026, da Jones Lang LaSalle (JLL). Mas o que faz uma região entrar no mapa desses megaprojetos? A escolha do local para a instalação de um data center passa por uma combinação de fatores técnicos, econômicos e estruturais, entre eles a disponibilidade e a confiabilidade do fornecimento de energia elétrica, infraestrutura de transmissão, conectividade, condições do terreno e capacidade de implantação. Na prática, não basta haver espaço disponível, é preciso que o território consiga sustentar uma operação que funciona de forma ininterrupta e demanda grandes volumes de energia e infraestrutura.

O debate ganha dimensão diante da velocidade de crescimento do mercado brasileiro. De acordo com a JLL, 106 MW de nova capacidade entraram em operação somente no primeiro semestre de 2026, enquanto outros 134 MW são esperados até dezembro. As entregas previstas para o ano estão associadas a aproximadamente US$ 8 bilhões em investimentos. Desde 2012, o setor cresceu seis vezes no Brasil, mantendo expansão média de 15% ao ano. A taxa de vacância nacional está em apenas 4%, e 56% do novo estoque atualmente em construção já se encontra pré-locado.

Para Marcos Borin, CEO da CTC Infra, empresa brasileira de engenharia e construção especializada em empreendimentos de alta complexidade, a definição do endereço de um data center começa muito antes da construção propriamente dita.

“Não basta encontrar uma grande área disponível. Estamos falando de empreendimentos que exigem uma combinação muito específica de energia, conectividade, infraestrutura de transmissão, condições do terreno, logística e capacidade de execução. Um local pode parecer adequado do ponto de vista imobiliário e deixar de ser competitivo quando se analisa toda a infraestrutura necessária para colocar o data center em operação”, explica Borin.

Por que São Paulo virou o principal polo?

A concentração paulista ajuda a mostrar como essa lógica funciona. Segundo a JLL, São Paulo permanece como o principal hub de data centers do Brasil e da América Latina, sobretudo nos eixos da capital/Barueri e de Campinas. E a tendência ainda é de crescimento: a consultoria projeta expansão de 82,5% e 60,9%, respectivamente, nesses dois mercados até 2028. Na prática, data centers precisam combinar acesso a grandes volumes de energia com conectividade, infraestrutura física e proximidade de um mercado consumidor relevante. Uma vez consolidado, esse ecossistema também tende a facilitar novas implantações, já que fornecedores, infraestrutura e conhecimento técnico passam a se concentrar na região.

“Existe uma diferença importante entre ter energia disponível em uma região e conseguir entregar essa energia ao empreendimento no ponto e no prazo necessários. Para um projeto dessa escala, é preciso analisar capacidade de conexão, transmissão, subestações e as intervenções que serão necessárias. Essa avaliação de infraestrutura pode ser decisiva na escolha entre dois terrenos ou até entre duas cidades”, afirma Borin.

Ao mesmo tempo em que São Paulo mantém sua liderança, os números da JLL mostram que novos polos começam a ganhar espaço. O exemplo mais expressivo é Fortaleza, que possui 227 MW em construção. Segundo a consultoria, a entrada dessa capacidade representará um crescimento de 1.179,7% para o mercado cearense. Grande parte desse novo volume já está pré-locada por uma grande companhia chinesa de tecnologia.

A escala da expansão ajuda a explicar por que outras regiões podem entrar nessa disputa. O Brasil possui atualmente 660 MW em construção, associados a cerca de US$ 17,4 bilhões em investimentos, além de outros 4.621 MW previstos no pipeline. A projeção da JLL é de que o mercado brasileiro dobre de tamanho até 2030. A consultoria cita, entre os fatores de atração do país, a oferta de energia limpa e de menor custo, o grande mercado consumidor, o amadurecimento do ambiente regulatório e o fortalecimento da infraestrutura.

Para Borin, a expansão ajuda a transformar a infraestrutura disponível em cada território em um elemento estratégico na definição do novo mapa do setor. “Um data center não é uma estrutura isolada. Ele precisa se conectar a uma rede muito maior de energia, telecomunicações e infraestrutura. Por isso, quando se discute quais serão os próximos pólos brasileiros, a pergunta não é apenas onde existe terreno para construir, mas quais regiões conseguem oferecer as condições técnicas para sustentar esses empreendimentos durante décadas”, afirma.

O que um terreno precisa ter?

A escolha começa pela escala. Data centers são empreendimentos de alta complexidade e precisam comportar não apenas os edifícios onde ficam os equipamentos, mas também toda a infraestrutura de suporte à operação. Isso envolve instalações elétricas, sistemas de redundância e refrigeração, áreas técnicas, segurança, acessos e estruturas auxiliares. O terreno também precisa ser analisado em conjunto com aquilo que existe ao redor dele. Distância e condições de conexão à infraestrutura elétrica, disponibilidade de telecomunicações, acessibilidade logística e características físicas da área podem interferir no custo, no prazo e até na viabilidade do empreendimento.

“Às vezes, dois terrenos semelhantes em tamanho podem ter condições completamente diferentes para receber um data center. A distância de uma infraestrutura elétrica adequada, as características geotécnicas, os acessos e as intervenções necessárias fora do próprio lote podem alterar significativamente a complexidade do projeto. É por isso que a análise precisa olhar para o território como um sistema, e não apenas para a área onde o prédio será construído”, explica Borin.

A instalação de um empreendimento desse porte pode funcionar como vetor de investimentos em infraestrutura e dinamização econômica. Durante a implantação, são demandadas obras civis, instalações elétricas, sistemas de refrigeração, telecomunicações, segurança e uma cadeia de fornecedores e serviços especializados. Dependendo das necessidades do projeto, a chegada de novos empreendimentos também pode acompanhar investimentos na infraestrutura energética e de conectividade da região.

A formação de um polo pode ainda ampliar a demanda por profissionais especializados e criar condições para o desenvolvimento de uma cadeia de serviços ligada à economia digital. Os impactos, porém, não devem ser medidos apenas pela quantidade de empregos diretos gerados na operação: data centers são empreendimentos intensivos em capital e infraestrutura, e parte de seu efeito econômico está justamente nos investimentos necessários para viabilizá-los. “Quando um novo polo começa a se formar, o impacto não termina no limite do terreno. Há uma cadeia de engenharia, construção, energia, telecomunicações, manutenção e serviços especializados que precisa acompanhar esse crescimento. Para as regiões, a oportunidade está também em estruturar esse entorno e fazer com que o investimento gere capacidade instalada que possa apoiar outros projetos”, avalia Borin.

Energia pode definir quem entra  e quem fica fora do mapa

Entre todas essas variáveis, a disponibilidade de energia em escala é uma das questões centrais. Não basta que um estado seja grande produtor de eletricidade: é necessário avaliar se a rede existente consegue transportar e entregar a potência requerida pelo empreendimento, quais reforços serão necessários e quanto tempo essas intervenções podem levar. À medida que os projetos aumentam de escala, especialmente diante da expansão da IA e da computação de alto desempenho, cresce também a pressão sobre a infraestrutura necessária para sustentá-los. Para uma região que pretende disputar novos investimentos, portanto, possuir terrenos e oferecer incentivos pode não ser suficiente se a infraestrutura não acompanhar a velocidade dos projetos.

“Existe uma corrida por capacidade, mas existe também uma corrida por infraestrutura. Os projetos estão crescendo e isso exige planejamento antecipado. Energia, transmissão, conectividade e engenharia precisam avançar de forma coordenada, porque um gargalo em qualquer uma dessas etapas pode comprometer prazo, custo ou até a implantação”, afirma Borin.

Para o executivo, é justamente essa combinação que deve ajudar a definir as próximas fronteiras do setor no país. “Mais do que atrair o investimento, o desafio é criar as condições para que esses projetos realmente saiam do papel. As regiões que conseguirem antecipar suas necessidades de infraestrutura e preparar o território terão melhores condições de receber novos empreendimentos. O mapa dos data centers brasileiros será, em grande medida, o mapa dos lugares que conseguirem transformar disponibilidade de recursos em infraestrutura efetivamente pronta para operar”, conclui Marcos Borin.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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