Crédito concedido por fintechs cresce 51% e consignado privado ganha espaço

Pesquisa aponta avanço da oferta para trabalhadores do setor privado
As fintechs participantes da Pesquisa de Crédito Digital da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) concederam R$ 53,8 bilhões em crédito em 2025, crescimento de 51% em relação ao ano anterior. Divulgado em julho de 2026, o levantamento também mostra uma mudança na composição da oferta: o consignado para trabalhadores do setor privado passou a ser oferecido por 47% das empresas pesquisadas, ante 40% em 2024.
Para o economista Gabriel Nasser, CEO do Conta Cheia, o avanço dessa modalidade evidencia como a competição entre instituições financeiras envolve, além de taxas e disponibilidade de recursos, o conhecimento sobre públicos específicos, a qualidade da análise e os canais utilizados para chegar ao cliente.
“O consignado privado reúne três elementos importantes para essa transformação: um público com renda vinculada ao emprego, pagamento por desconto em folha e a possibilidade de usar tecnologia para organizar a contratação e avaliar o risco. A oportunidade está em combinar esses fatores para oferecer condições competitivas, sem abrir mão de uma análise criteriosa”, afirma Nasser.
Parcerias com empresas aproximam a oferta do trabalhador
O Conta Cheia atua no crédito para trabalhadores com carteira assinada, com parcelas descontadas mensalmente do salário. Uma das frentes de atuação envolve convênios pelos quais empresas disponibilizam o acesso ao serviço aos colaboradores. A adesão ao convênio não tem custo para o empregador, e a decisão de solicitar e contratar o crédito é do trabalhador.
Nesse modelo, o Conta Cheia organiza a implantação da parceria, apoia a comunicação e atende os interessados. O RH não realiza a análise de crédito. Após a aprovação e a contratação, os descontos e recolhimentos seguem os processos oficiais do Crédito do Trabalhador. Para a emissão das Cédulas de Crédito Bancário, o Conta Cheia atua como correspondente bancário de instituições parceiras.
Para Nasser, essa forma de distribuição cria um ponto de contato com o público dentro de uma relação já existente: a do trabalhador com a empresa empregadora.
“A parceria com a empresa permite apresentar o serviço e esclarecer seu funcionamento em um ambiente próximo do trabalhador. Mas a contratação continua sendo uma decisão individual. Nosso papel é organizar essa jornada, explicar as condições e dar suporte para que o interessado consiga avaliar a proposta”, explica.
Dados precisam melhorar a decisão de crédito
Na avaliação do executivo, a especialização no público CLT exige compreender tanto a renda atual quanto os fatores que podem afetar o pagamento ao longo do contrato. O desconto em folha é uma característica relevante da modalidade, mas não substitui a avaliação de risco.
Um exemplo hipotético ajuda a explicar essa diferença: dois trabalhadores com o mesmo salário podem ter capacidades de pagamento distintas se um deles já compromete parte maior da renda com outras parcelas. Uma análise que considere apenas o valor do salário pode deixar de captar essa diferença.
“Ter renda identificável é um ponto de partida. É preciso avaliar quanto dessa renda já está comprometido e se a nova parcela cabe no orçamento. A tecnologia deve ajudar a enxergar essas diferenças e a construir uma proposta compatível com a situação do trabalhador”, afirma Nasser.
O desafio, segundo ele, envolve conectar a análise à operação. Informações consistentes, prevenção a fraudes, contratação compreensível e acompanhamento dos pagamentos precisam funcionar de forma integrada.
“Uma contratação rápida perde valor se o cliente não entende quanto vai pagar ou encontra dificuldade para resolver um problema depois. A eficiência precisa aparecer em todo o percurso: da avaliação da proposta ao atendimento durante o contrato”, ressalta Nasser.
Expansão exige controle de risco
A procura pelo consignado privado também evidencia a importância dos critérios de concessão. Segundo a pesquisa da PwC e da ABCD, as fintechs participantes receberam 79,8 milhões de solicitações dessa modalidade em 2025, das quais apenas 11% foram aprovadas.
Para Nasser, ampliar o acesso e manter a seletividade são desafios que precisam caminhar juntos. A sustentabilidade da operação depende tanto da capacidade de conquistar clientes quanto da qualidade da carteira formada.
“O futuro do crédito digital depende de transformar informação em decisões melhores. Há espaço para ampliar o atendimento ao trabalhador CLT, mas isso exige critérios consistentes, controle de risco e clareza na relação com o cliente. É esse equilíbrio que permite crescer e sustentar a operação”, conclui.








