A desidratação do comércio de varejo no Brasil

O comércio varejista brasileiro vem intensificando a emissão de sinais de fadiga do paradigma de crescimento econômico, aplicado no País desde o surgimento da crise internacional, no quarto trimestre de 2008, até o final de 2014, e amparado na impulsão do consumo privado, no enfraquecimento dos investimentos em ampliação da capacidade produtiva da microeconomia e no abandono das iniciativas de desobstrução dos gargalos infraestruturais.
Na verdade, a fatura completa dos descalabros cometidos pela gestão macroeconômica finalmente chegou, trazendo consigo a conta dos erros pretéritos, ladeada pelos efeitos recessivos do regime de austeridade fiscal e monetária, praticado pelo Ministério da Fazenda e Banco Central (BC), neste começo de 2015. É um verdadeiro furacão que atingiu, em cheio, as vendas do varejo, derradeiro segmento a acusar as agruras da crise que fragilizou os níveis de atividade e de negócios do País, a partir do segundo trimestre de 2014.
A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), efetuada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o faturamento real (vendas nominais com desconto da inflação) do comércio varejista brasileiro declinou -3,4% em 12 meses até março de 2015. O comportamento negativo foi determinado por veículos, motos e peças (-11,9%), livros, jornais e revistas (-9,0%), móveis (-3,8%), materiais de construção (-2,7%), eletrodomésticos (-1,8%), tecidos, vestuário e calçados (-1,7%) e combustíveis e lubrificantes (-0,3%).
As performances positivas resumiram-se aos ramos de outros artigos de uso pessoal e doméstico (8,1%), produtos farmacêuticos e de perfumaria (7,4%), equipamentos e materiais para escritório e de informática (2,3%) e hipermercados e supermercados (0,4%), caracterizados por demanda menos elástica em relação à variação da renda dos consumidores.
O firme delineamento da curva descendente da dinâmica setorial repousa na perversa combinação entre enfraquecimento do mercado de trabalho, marcado pela queda da massa de salários (emprego e remunerações reais), menor disponibilidade e encarecimento do crédito, escalada da inflação e multiplicação das incertezas em relação ao futuro.
Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, igualmente do IBGE, cobrindo 3.500 municípios brasileiros, a taxa de desemprego subiu de 6,5% da população economicamente ativa (PEA), no quarto trimestre de 2014, para 7,9% da PEA, nos primeiros três meses de 2015 (contra 7,2% da PEA, entre janeiro e março de 2014). Já a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), também do IBGE, revela queda do rendimento médio real do trabalhador metropolitano de -2,8% e -3,0%, em março de 2015, em comparação com fevereiro de 2015 e março de 2014, respectivamente.
Ao mesmo tempo, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, identificou o fechamento (contratações menos demissões) de 50,4 mil postos de trabalho com carteira assinada no País, no primeiro trimestre de 2014, com destaque para os desligamentos líquidos verificados no comércio (123,4 mil) e na construção civil (51 mil).
Aliás, a fase cadente do segmento imobiliário pode ser considerada a principal raiz da compressão dos patamares de vendas de móveis, eletrodomésticos e materiais de construção. O enfraquecimento da construção civil reproduz a escassez e a carestia do crédito, o encolhimento dos rendimentos das famílias e a contração dos investimentos públicos, particularmente no Programa Minha Casa Minha Vida. O BC registrou fuga recorde de haveres das cadernetas de poupança, principal fonte dos financiamentos habitacionais, no primeiro quadrimestre de 2015, e os juros imobiliários subiram de 7% ao ano para 9% a.a.
Logo, ao se deparar com a necessidade de despender cada vez maiores somas de recursos para o pagamento de serviços públicos (água, luz e transporte), combustíveis e dívidas, o consumidor constata forte retração das cifras disponíveis para poupança ou compra de bens (essenciais e não essenciais), especialmente a prazo.
De acordo com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil e a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), o volume de consultas para compras a prazo decresceu 4,7% em abril de 2015, frente ao mesmo mês de 2014, representando a terceira diminuição mensal consecutiva e a mais acentuada em treze meses, traduzindo a fuga dos consumidores dos juros elevados, em um ambiente de consistente subida da inflação e retração da renda real.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 8,17% em doze meses até abril de 2015, representando a maior alta desde janeiro de 2004 (8,46%). No quadrimestre janeiro-abril de 2015, a elevação foi de 4,56%, a maior desde os primeiros quatro meses de 2003, quanto alcançou 6,15%.
Na mesma linha, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a taxa média de juros cobrada nos empréstimos a pessoas físicas situou-se, em abril de 2015, em 119,48% a.a., o maior nível desde julho de 2011, sendo 295,48% a.a., no cartão de crédito, 205,06% a.a., no cheque especial, e 139,24% a.a., nos empréstimos contraídos junto às financeiras.
Como a superação desse embaraço conjuntural requer a eliminação dos focos inflacionários e a restauração da capacidade aquisitiva dos salários, factível apenas com o declínio estrutural dos juros, ensejado pela compressão permanente dos gastos públicos e elevação dos dispêndios do setor privado, parece razoável supor duração mais prolongada da deterioração da comercialização do varejo nacional. Enquanto a piora do cenário é bastante provável, a esperada recuperação será mais demorada.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, Professor e Editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.




