O futuro da caridade

 José Pio Martins, Foto: Arnaldo Alves / ANPr.
José Pio Martins, Foto: Arnaldo Alves / ANPr.

Uma sociedade tem dois caminhos para ajudar os pobres e os incapacitados para o trabalho. O primeiro é a caridade individual, pela qual somos levados a fazer doações para pessoas e instituições de assistência. O segundo é a caridade coletiva, cujo instrumento é o pagamento de impostos ao governo para que este, em nome da sociedade, monte programas sociais de ajuda.

O primeiro caminho depende da cultura nacional e dos costumes do povo. Ao contrário do que se apregoa por aí – sobretudo quando multidões acorrem para fazer doações a desabrigados em enchentes –, o povo brasileiro é um dos que menos contribuem com doações individuais no mundo. As instituições filantrópicas vivem à míngua e a frase mais ouvida é “não dou dinheiro para essas instituições porque não confio nelas e em seus dirigentes”.

No Brasil, é raro um empresário ou um ricaço doar parte de sua fortuna – nem mesmo depois de morto – a qualquer instituição social. Em vida é que ninguém doa nada mesmo. Nesse ponto, os Estados Unidos dão um show. Somente Bill Gates e Warren Buffett doaram US$ 70 bilhões para uma fundação social. Quando Bill Gates fez um cheque de US$ 1 bilhão somente para o programa de combate à malária na África, a Madre Teresa de Calcutá deve ter se virado no túmulo e pensado: “Esse homem, em dois minutos, fez mais pelos africanos que milhões de voluntários em um ano”.

O segundo caminho – o da caridade coletiva – depende da arrecadação de tributos pelo governo e da eficiência no gerenciamento dos programas sociais. Pelo imposto, até os de coração duro são levados a fazer o bem, desde que trabalhem, ganhem dinheiro e paguem os tributos. Roberto Campos dizia que “o mundo será salvo pelos eficientes, não pelos caridosos”. Se os eficientes não produzirem – e não pagarem impostos –, os caridosos não terão o que distribuir. Mas isso não basta. O governo tem de fazer a sua parte e ser eficiente, do contrário o dinheiro se perde na burocracia e na corrupção.

Há alguns anos, o Banco Mundial fez severas críticas aos programas sociais – sobretudo nos países do terceiro mundo, nos quais apenas 20% de muitos programas chegavam ao destinatário final. Roberto Campos vivia escrevendo que os programas de ajuda social – a exemplo do Bolsa Família – devem ser instrumentos para mitigar a pobreza enquanto as pessoas se preparam para cuidar de si mesmas. Um homem somente tem condições de deixar a pobreza se ele acumular em si mesmo duas marcas: conhecimento e trabalho.

Foi pensando nisso que, ao assumir o Senado em 1983, Roberto Campos apresentou um conjunto de projetos voltados a dois temas: educação e emprego. Pela educação, o homem eleva seu nível de conhecimento; pelo emprego, ele tem a oportunidade de trabalhar e sustentar a si mesmo. Pois aí está o futuro da caridade coletiva. Os programas sociais deveriam exigir que os beneficiados se vinculem a programas de educação, treinamento e trabalho.

Confúcio, cinco séculos antes de Cristo, já ensinava: “Dê a um homem um peixe e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e você o alimentará por toda a vida”. Mas ensinar o homem a pescar é dar-lhe independência, e isso não é bom para os populistas que gostam de comprar votos com o dinheiro dos outros.

O artigo foi escrito por José Pio Martins, economista e reitor da Universidade Positivo.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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