Entenda como a China superou o estigma de fabricar produtos de segunda linha

Foi ofertando produtos mais baratos que a média que a China “invadiu” o Brasil, e se estabeleceu na economia mundial, como um todo. Se para disponibilizar algo mais em conta os asiáticos deixaram a qualidade de lado em um primeiro momento, o cenário atual vem eliminando qualquer tipo de pré-conceito negativo que o brasileiro possa ter com as mercadorias “Made in China” (feito na China).
E como os chineses melhoraram a qualidade do que produzem mantendo os preços lá embaixo? Há uma série de fatores para justificar esta guinada, todos apoiados na persistência em se tornar a principal potência do mundo. Para atrair empresas mundialmente conhecidas, donas dos produtos mais desejados pela população geral, a China apostou, entre outros meios, em um método de negociação específico, que prima pela personalização. Lá, então, os produtos são facilmente adaptáveis às demandas de cada cliente, o que se torna um diferencial – não à toa, há no país fábricas e centros de pesquisa da Apple, GM e Volkswagen, por exemplo.
A grande maioria das empresas ocidentais não está disposta a personalizar e entregar produtos conforme cada necessidade, ainda mais se tratar-se de pedidos pequenos. As fábricas do país oriental, de uma maneira geral, especializaram-se em produzir o que o cliente precisa.
“Na China, é inverso. Se você busca algum catálogo, o que a empresa produz, provavelmente será questionado de volta: ‘O que você precisa? Quantos você precisa? O design é seu?’ Eles estão acostumados a fabricar produtos personalizados, à sua maneira”, afirmou Lincoln Fracari, diretor comercial da China Link Trading.
Outro fator para esta mudança foi o estimulo às exportações. A fim de impulsioná-las, Pequim precisou lidar com as dificuldades que o território, de proporções continentais, traz. E, para isso, e até para vencer a concorrência de países vizinhos de tecnologia e recursos parecidos, mas que muitas vezes ofertam mão de obra mais barata – caso da Índia –, investiu em infraestrutura, principalmente.
As malhas portuária, rodoviária e ferroviária, além do maquinário de última geração, fazem com que os chineses sejam referência nas produções. Diferentemente do que acontece aqui no Brasil, em que nem todos os portos conseguem dar vasão às mercadorias e as estradas nem sempre estão em condições para grandes entregas, as fábricas do país oriental têm a logística garantida pelo governo.
“A China tem uma estrutura invejável. Os portos são acessíveis, você consegue exportar em quatro, cinco dias tranquilamente. A cadeia de produção também ajuda. Ela geralmente é bem próxima dos polos industriais. Então, dentro de cada polo, você encontra fornecedores de todo tipo. É muito fácil você abrir uma indústria, o que facilidade o livre mercado, a concorrência”, disse o brasileiro, há quase dez anos residindo no país, que ainda destacou a política oferecida a quem exporta.
“Um grande benefício que se tem na China inteira, desde o começo da abertura do Plano Econômico, é o retorno de impostos quando se exporta mercadorias. Então, você paga os impostos na produção do produto, mas, se exportar, tem uma boa parte devolvida, ou quase tudo, dependendo do produto”, acrescentou.
Estes fatores, aliados ao desenvolvimento econômico interno, política de governo de Xi Jinping, presidente desde 2013, fizeram que a mão de obra local se tornasse mais cara que a brasileira, inclusive – o que, portanto, não serve mais de justificativa para o valor mais baixo das mercadorias repassado para o consumidor -, além de estruturar o país para objetivos maiores.
Expressão “Made in China” vira ambição de plano econômico
Se a expressão era vista, de certa forma, com tom pejorativo, ela assumiu papel protagonista no primeiro semestre deste ano – e deu nome a um plano ambicioso, o “Made in China” 2025.
O governo local abriu os cofres para movimentar bilhões de dólares com objetivo de transformar o país, até a data de 2025, em uma potência industrial e tecnológica – abertamente, chegou a dizer que quer deixar para trás a reputação de fornecedora de sapatos, roupas e produtos mais simples baratos.
Somado às fábricas e centros de pesquisa da Apple, GM, Volkswagen e Toyota, a China passou a investir na produção interna de aviões, trem-balas, robôs e estradas capazes de recarregar veículos elétricos em andamento.
“Eles têm capacidade de atrair gente, porque tem muito dinheiro sobrando para colocar nisso. E eles se preocupam muito em como o mundo vai vê-los. Se eles colocaram como meta, tenho certeza que irão atingir. Senão por inteiro, uma boa parte do objetivo”, concluiu Fracari.








