Barreiras macroeconômicas ao empreendedorismo no Brasil

Algumas informações oriundas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), especificamente no que diz respeito ao mercado de trabalho, levaram alguns analistas mais afoitos, ou menos atentos ao curso da conjuntura, a cometerem pelo menos dois equívocos primários.

De um lado, os especialistas negligenciarem a situação de prolongada e profunda recessão, vivida pelo país entre abril de 2014 e dezembro de 2016, quando o produto interno bruto (PIB) encolheu 8,6%, que foi seguida de não menos longa estagnação econômica, entre março de 2017 e setembro de 2019, marcada por expansão acumulada de 2,9% do PIB. De outro, os experts reforçaram a defesa da tese de ocorrência de uma espécie de surto de empreendedorismo por aqui.

De fato, a PNAD vem apurando seguidos recordes no volume de trabalhadores por conta própria no país, que chegou a 24,4 milhões de pessoas, no terceiro trimestre de 2019, equivalendo a 26,0% da população ocupada (PO) e acréscimo de 1,2% (mais 293 mil pessoas) em comparação com o segundo trimestre do ano e 4,3% (mais 1,0 milhão de pessoas) em confronto com igual período de 2018.

Porém, interpretações mais entusiasmadas podem ser facilmente derrubadas por meio da constatação de que 79,8% do universo declarado por conta própria, ou 20,8% da PO, correspondem àqueles agentes que não possuem CNPJ e amargam rendimento médio real habitual equivalente a 56,9% e 59,9% da remuneração média de todos os trabalhos e dos empregados, respectivamente.

Já os que dispõem de CNPJ respondem por 20,2% dos por conta própria e 5,3% da PO (8,7% e 2,3%, respectivamente seriam os trabalhadores familiares auxiliares) e obtiveram renda média 36,2% e 43,3% superior à registrada pelo total dos trabalhos e empregados, respectivamente.

O retrato da dinâmica de ocupações torna-se ainda mais dramático quando se verifica que 11,8 milhões de trabalhadores, ou 12,6% da PO, exercem atividades sem carteira assinada na iniciativa privada e auferem remuneração média correspondente a 71,1% da média do segmento e 64,5% daqueles com vínculos formais.

Se forem acrescentadas as relações de trabalho desprovidas de carteira com empregadas domésticas e funcionários do setor público, além do contingente empenhado em tarefas familiares auxiliares, que representam 4,8%, 2,7% e 2,3% da PO, respectivamente, têm-se 48,4% da força de trabalho ocupada na informalidade. Diga-se de passagem, que o esforço informal foi o maior responsável pela queda, ainda que tênue, das taxas de desemprego no país, entre o 1º trimestre de 2017 e o 3º de 2019, o que caracteriza precarização na absorção deste fator de produção.

Por essa ordem de observações, parece razoável supor a existência de um imbróglio macroeconômico que, ao mesmo tempo, fragiliza a operação do mercado laboral e inibe desejos e obstaculiza incursões empreendedoras, aspecto corroborado pela apresentação de um cardápio bastante indigesto de estatísticas relativas ao comportamento da oferta e da demanda.

Começando pelo nível de atividade, apesar da discreta melhora exibida no mês de setembro, os indicadores de produção, faturamento real, massa de salários reais e salário médio real da indústria, acompanhados pelo IBGE e Confederação Nacional da Indústria, decresceram -1,7%, -1,7%, -1,5% e -1,3%, respectivamente, entre janeiro e setembro de 2019, em relação ao mesmo intervalo de 2018, que, aliás, foi fortemente afetado pela paralisação do transporte rodoviário de cargas, acontecida em maio, e as incertezas associadas ao ciclo eleitoral.

Com tal desempenho, a produção fabril encontra-se 16,7% e 15,6% abaixo dos níveis registrados em 2011 e 2014, respectivamente, e faturamento real, montante total de remunerações e rendimentos médios situam-se 18,5%, 18,5% e 3,5%, aquém dos resultados alcançados em 2014.

Passando à fronteira externa, nota-se que as exportações em dólares decresceram -7,7%, entre janeiro e outubro de 2019, praticamente retornando à posição de 2018, em razão da combinação entre diminuição da demanda e dos preços das commodities, crise argentina e ausência de ações oficiais consistentes na direção da intensificação da inserção externa das corporações atuantes em território nacional. Já as importações diminuíram -1,5%, em compasso com a fadiga da economia doméstica.

De seu turno, a marcha das variáveis determinantes da potência do consumo também esbarra em enormes barreiras, expressas em desemprego pouco inferior a 12% da população economicamente ativa (PEA), o dobro da época pré-crise, em 2013 e 2014, e elevado endividamento privado.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a despeito do recuo do endividamento, apurado entre setembro e outubro de 2019, de 65,1% para 64,7% do total de famílias, houve subida em relação a outubro de 2018 (60,7%), fortemente concentrada no cartão de crédito (78,9% do total), que, no rotativo, cobra juros médios de 307,2% ao ano, conforme pesquisa do Banco Central (BC).

Para piorar, houve ascensão das contas em atraso (de 24,6% para 24,9% do total), em média de 64 dias, e das menções de não disponibilidade de condições para a realização da quitação dos débitos (de 9,6% para 10,1%).

Especificamente quanto a um eventual empuxe empreendedor, os dados estruturais do IBGE, oriundos do trabalho “Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2017”, não trazem mensagens animadoras. Apenas 40% das 597,2 mil empresas abertas em 2012 permaneciam ativas em 2017, contra 47,8% nos tempos de que antecederam a depressão, entre 2008 e 2013. Das que fecharam somente 7,6% empregava pessoal de nível superior e a maioria era constituída apenas por donos e sócios.

A radical modificação desse cenário inóspito requer essencialmente a formulação e implantação de um arranjo institucional que proporcione expressiva melhoria do ambiente de negócios, ancorado em ações que favoreçam a organização de um círculo sustentado de recuperação econômica.

Para tanto, afigura-se crucial a adoção de providências que, dentre outras coisas, oportunizem contração da cunha tributária, amparada na flexibilização do sistema cobrança de impostos, e acentuado declínio do custo e democratização do acesso ao crédito, especialmente por meio do transbordamento dos sucessivos cortes da Selic sobre das demais taxas cobradas dos tomadores finais, em linha com o derretimento da inflação e a curva de juros globais, o que exige o desmanche da exagerada enorme concentração prevalecente no Brasil. O restante vem depois.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *