Miséria e desigualdade de renda no Brasil

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

No transcorrer do segundo turno das eleições para a Presidência da República, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) ocupou o palco principal da cena política do País, ao adiar a divulgação de estudos contendo estatísticas sociais, sob a alegação de restrições impostas pela legislação eleitoral, mesmo com a manifestação de argumentos contrários, levantados por especialistas da área jurídica.

O episódio produziu inclusive pedidos de exoneração de cargos de alguns técnicos envolvidos nas pesquisas, as quais, na visão da instituição, não teriam sido suficientemente convincentes para provocar a revisão de postura do comando do IPEA, no sentido da disponibilização imediata do trabalho à sociedade e da inevitável repercussão junto aos formadores de opinião.

De fato, houve visível interferência do Planalto e, consequentemente, ausência de preocupação com a reputação de uma verdadeira usina de trabalhos científicos, de reputação internacional, realizados para subsidiar a preparação, execução e avaliação de políticas públicas. Ao mesmo tempo, prevaleceu a atitude subserviente da direção da entidade, comum a alguns gestores públicos de funções estratégicas, antecipando-se aos desejos e interesses dos comandantes de plantão, ao ocultar informações de caráter inoportuno, naquele momento.

Com a atualização da base de dados da entidade (Ipeadata), em 30 de outubro de 2014, depois do desfecho do ciclo eleitoral, pode-se constatar, a partir de cálculos estatísticos apoiados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o aumento da extrema pobreza no Brasil, entre 2012 e 2013, revertendo a marcha cadente observada desde 2003.

Mais especificamente, o grupo de miseráveis ou indigentes, que abrange pessoas com renda média mensal inferior a R$ 77, insuficientes para a aquisição de uma cesta mínima de alimentos, conforme critério empregado pelos programas Bolsa Família e Brasil Sem Miséria, passou de 10,081 milhões, em 2012, para 10,452 milhões, em 2013, o equivalente à população de Portugal, por exemplo, e representando acréscimo de 3,68%, o que significa uma fragorosa derrota da administração Dilma, diante do compromisso, assumido em 2010, de eliminação deste flagelo até o final de 2014.

Considerando que a candidata a presidente fez enorme uso da diminuição da pobreza e da miséria como assunto de campanha, enfatizando que haveria o rompimento do cenário social róseo, em caso de vitória da oposição, parece lícito admitir que a administração federal teria sonegado, da sociedade, um dado bastante desfavorável, que poderia ter influenciado a decisão de voto da população.

Na mesma linha, um exame atento da trajetória do coeficiente de Gini no Brasil, apurado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), permite constatar uma evidente parada na diminuição da desigualdade de renda no transcorrer do atual mandato governamental.
Lembre-se que o índice de Gini, criado pelo estatístico italiano Corrado Gini, representa um parâmetro para aferição da desigualdade na distribuição de renda entre a população de um País. O indicador varia entre zero e a unidade, indicando melhoria na repartição do produto social à medida que se afasta de um e se aproxima de zero.

Com o movimento de queda do índice médio mensal de todas as fontes de rendimento de 0,580 em 2002, para 0,526 em 2008, 0,506 em 2011, e 0,501 em 2013, o Brasil continuou à frente dos estados africanos da África do Sul (0,630), Namíbia (0,60) e Zâmbia (0,59), por exemplo.

Porém, o País ainda ocupa posição bastante distante de nações escandinavas, como Suécia (0,230), Noruega (0,250) e Dinamarca (0,250); europeias, como França (0,310), Reino Unido e Itália (0,320); ou mesmo de alguns emergentes, como México e Turquia, que exibem indicadores de 0,402 e 0,412, respectivamente, conforme cálculos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos.

A PNAD também aponta o contraste configurado na maior disponibilidade de bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, computadores, celulares, entre outros), facilitada pelo alargamento da oferta de crédito caro, que provocou o salto do endividamento primário das famílias e o insuficiente acesso à água potável e à rede de esgoto pela população.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, diretor-Presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) e Professor da FAE Centro Universitário.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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