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A revolução do varejo

Flavio Rocha
Flavio Rocha

Os últimos dez anos podem ser considerados a década de ouro do varejo, pois vivemos um momento especialmente importante, em que o consumo se consolidou como o principal motor da economia, e o varejo demonstrou o vigor necessário para atender a uma população disposta a comprar de tudo. De alimentos a eletrodomésticos. De roupas a artigos eletrônicos. De materiais de construção a móveis.

Neste momento de transformação econômica e, sobretudo, social, pelo qual o Brasil vem passando, o varejo assumiu o papel de protagonista e ofereceu as respostas necessárias para atender a um aumento espetacular da demanda. Na visão de muitos analistas, nosso segmento comercial apenas foi beneficiado por um momento favorável, em que o poder de compra da população aumentou, e o governo decidiu estimular o consumo.

Pois nós enxergamos o cenário de uma forma diferente. Em nossa opinião, sem a capacidade que demonstramos em dar uma resposta positiva a esse fenômeno e sem os investimentos que todos nós realizamos nos últimos anos, nada disso teria acontecido. O passado já nos mostrou que uma população disposta a consumir avidamente pode até ser um problema se, na outra ponta, não existir um comércio em condição de atendê-la.

A verdade é que nenhum outro segmento da economia teve, nesse período que estamos vivendo, clareza de visão e capacidade de transformar desafios em respostas, como o varejo. É preciso que nós tenhamos a consciência dessa verdade para que possamos, diante do conjunto da sociedade, ter orgulho do varejo e ser os defensores da importância econômica, social e política de nossa atividade empresarial.

Nosso protagonismo não é consequência apenas do desejo de ver reconhecido o valor de nossa atividade. Ele é um fato real, apontado por um novo estudo elaborado pela McKinsey Global Institute. O trabalho compara números e apresenta uma série de dados relativos aos últimos dez anos. Tais dados atestam, de forma irrefutável, o desenvolvimento de um fenômeno que considero bem maior do que um simples momento de expansão determinado pelo aquecimento da demanda. Defino o que estamos vivendo não apenas como um bom momento, mas como uma revolução definitiva e irreversível. A Revolução do Varejo.

Trata-se da verdadeira revolução do século 21. Ela se desenvolve globalmente, de forma tão pacífica quanto irreversível. E traz consigo os indicadores da melhoria da qualidade de vida da população de uma maneira geral. O aumento da capacidade de consumo faz com que as classes emergentes se fortaleçam como sujeitos nesse momento de mudanças. Senhoras e senhores, estamos diante de uma revolução econômica que, ouso dizer, é tão ou mais impactante na vida das pessoas quanto foi a Revolução Industrial da virada para o século passado.

A Revolução do Varejo se sustenta sobre dois pilares principais: aumento da eficiência e combate à informalidade.
O cenário que se percebe hoje é distinto e bem mais positivo do que o anterior, traçado pela mesma McKinsey nos idos de 2004. O estudo de dez anos atrás avaliava os fatores que impediam o crescimento econômico e a expansão da economia formal do Brasil. Ele mostrava que mais da metade dos trabalhadores em nosso país sobrevivia de atividades consideradas informais. O estudo atual revela que, de lá para cá, a taxa de informalidade no emprego caiu quase 15 pontos percentuais. Ela passou de 55% para 40% dos trabalhadores.

Como se vê, ainda há um longo caminho a ser percorrido no caminho da formalização total do mercado brasileiro. Mas o que se percebe é uma redução considerável desse problema que, no final das contas, funcionava como um freio ao crescimento das empresas dispostas a trabalhar dentro da formalidade. Era, como ainda é, um empecilho à concorrência sadia, travada dentro dos critérios de igualdade e transparência defendidos por todos nós.

Essa revolução pacífica e democrática de que estamos falando não surgiu da noite para o dia, como um fenômeno que pega a todos de surpresa. Ela foi gerada por avanços tecnológicos, pela mudança nos hábitos de consumo e pela atuação incisiva de trabalhadores que se organizaram para coibir a informalidade. Também houve um extraordinário esforço por parte de companhias interessadas em aumentar a sua eficiência, sobretudo no chamado varejo de alta performance. Novas tecnologias foram incorporadas, e são elas que têm nos permitido acompanhar a evolução da própria inteligência humana, numa corrida iniciada nos anos 70 do século passado.

Por mais antigo que isso possa parecer, as primeiras etiquetas perfuradas que surgiram no passado foram o passo inicial da revolução que assistimos nos dias de hoje. Houve, a partir dali, uma evolução constante, que passou pelo código de barras e nos leva ao inevitável R.F.I.D. (a sigla em inglês para Identificação por Radiofrequência). Num mundo em que a informação se transformou no mais valorizado dos patrimônios, o varejo deixou de ser um simples canal de suprimento da sociedade. Ele passou a ser o detentor dos dados que nos permitem entender e decifrar o comportamento daquela que se consolida a cada dia como a principal figura de toda a cadeia produtiva. Sua excelência, o consumidor.

Por sua capacidade de recolher e processar um número maior de informações sobre hábitos, desejos e capacidade financeira do cliente, o varejo assumiu o papel de protagonista de todo o sistema capitalista. Na prática isso inverteu aquela situação na qual a indústria decidia o que produzir, e o comércio era um mero intermediário entre as fábricas e o consumidor final.

Naquele momento, o comércio era o último vagão do comboio. Hoje não é bem assim, e as empresas varejistas que souberam entender e utilizar as novas ferramentas tornaram-se as novas estrelas da constelação chamada mercado. Toda a cadeia de suprimentos passou a ser gerida pelo varejo. As empresas do nosso setor não pararam de melhorar o desempenho e de estimular o desenvolvimento de novas tecnologias.

Posso afirmar que estamos apenas no começo desse processo que, como já disse, é uma revolução. Ela definirá o ritmo e a intensidade do crescimento de nossa economia. Nosso país será tão forte e tão próspero quanto for a expansão de seu varejo. Tem sido assim no mundo inteiro desde que houve a inversão de posições à qual me referi. O varejo, é bom bater sempre nessa tecla, deixou de ser o agente econômico responsável pelo suprimento e passou a se encarregar pelo estabelecimento da demanda.

Acredito que a Revolução do Varejo se fundamenta no fortalecimento de uma atividade predominantemente formal, ética, tecnologicamente equipada, estruturada e empresarial. No papel da locomotiva capaz de puxar a nova fase de desenvolvimento no Brasil. Um desenvolvimento marcado pela justiça social.

A Revolução do Varejo está permitindo  o encontro do nosso povo com a real economia brasileira. Sem o pedantismo do economês nem a intermediação de representantes do Estado.

O artigo foi escrito por Flávio Rocha, presidente do IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo).

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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