O PIB e o amadurecimento da recessão

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Os dados de Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, relativos ao primeiro trimestre de 2015, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atestam o aprofundamento do processo recessivo instalado na economia nacional a partir de abril de 2014.

O agregado decresceu -1,6% nos primeiros três meses do ano, em comparação com idêntico período de 2014, caracterizando a quarta retração seguida nesta base de confronto. Em cotejo com outubro-dezembro de 2014, o tombo foi de -0,2%. De fato, considerando que o estado de recessão é identificado, tecnicamente, quando o PIB encolhe por dois trimestres consecutivos, o prolongado intervalo de tempo de contração dos níveis de produção e transações favorece o diagnóstico de acentuada anemia do aparelho econômico nacional.

É interessante assinalar que essa colheita ruim não constitui mero acidente de percurso da conjuntura, fruto da crise global – como tentam transmitir as autoridades de Brasília – que, por sinal, vem emitindo indiscutíveis sinais de moderada, porém generalizada, reversão, puxada pelos Estados Unidos (EUA), desde o segundo semestre de 2013.

Ao contrário, a rota cadente é resultado de árduo esforço de destruição da política econômica vigente entre 1999 e 2008 – ancorada em adequado manejo das contas públicas, superávits fiscais primários, metas de inflação, câmbio flutuante e lei de responsabilidade fiscal (LRF) – e substituição por um intervencionismo populista e improvisado, que beneficiou o consumo público e privado em detrimento das inversões em infraestrutura e ampliação e modernização da capacidade produtiva do sistema.

A marcha ladeira abaixo assumiu contornos ainda mais agudos com o lançamento do arsenal de medidas de austeridade fiscal e monetária, pela pasta da Fazenda e o Banco Central (BC), neste começo de 2015, rotulado com o slogan “ajustar para vencer”, empregado pelo governo federal, e aprovado com louvor pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), empenhado em avalizar o ministro Levy na empreitada para a preservação do investment grade da dívida brasileira pelas agências internacionais de rating.

Pela ótica da demanda agregada, enquanto as exportações subiram 3,2%, no primeiro trimestre, consumo das famílias, gastos da administração pública e formação bruta de capital fixo retrocederam -0,9%, -1,5% e -7,8%, respectivamente. A taxa de investimento baixou para 19,7% do PIB, também explicada pelo decréscimo de -4,7% nas importações.

Pelo ângulo setorial, o desempenho seria ainda pior não fosse a eterna “salvação da lavoura”, brotada do agronegócio, a despeito da queda das cotações internacionais dos alimentos, dos insuficientes estímulos governamentais a um segmento de elevados riscos (climáticos e de mercado) e dos crescentes estrangulamentos logísticos e infraestruturais. Enquanto o PIB da agropecuária cresceu 4%, o industrial encolheu -3% e o de serviços caiu -1,2%, puxado por comércio (-6%).

No setor de industrial, a única classe poupada foi extração de minerais (+12,8%), apoiada em petróleo, gás e minério de ferro. Constatou-se retração em transformação (-7%), construção civil (-2,9%) e produção e distribuição de eletricidade, gás, água, esgoto e limpeza urbana (-12%). A produção do segmento de transformação acusou decréscimo de -5,9%, afetada por bens de capital (-18%) e de consumo duráveis (-15,8%), em razão da contração dos investimentos, emprego, rendimentos, crédito (com explosão dos juros) e, sobretudo, da confiança. Enquanto isso, a fabricação de bens de consumo não duráveis e semiduráveis e intermediários caiu -5,9% e -2,8%, em resposta ao encurtamento do crédito e da demanda de insumos por parte das organizações estatais, em crise financeira e de gestão e impregnadas por corrupção.

A performance de serviços, comércio e consumo refletiu o círculo vicioso, formado por encarecimento e diminuição da oferta de crédito, recuo da massa salarial (retomada da marcha de desemprego e de menores reajustes reais de rendimentos) e elevado endividamento e inadimplência dos consumidores. Essa última restrição provocou a precipitação de posturas defensivas das famílias, afastando-se das aquisições a prazo e de itens supérfluos e priorizando ações de compra de produtos essenciais e quitação (e não contratação) de débitos, notadamente aqueles que carregam maiores encargos financeiros (cartão, cheque especial e operações pessoais em financeiras).

Para piorar, as expectativas para o restante do ano são absolutamente desanimadoras. O panorama de exacerbação da deterioração dos indicadores mais sensíveis e/ou explicativos do comportamento da economia real, ao lado das certezas quanto aos desdobramentos depressivos da atual orientação macroeconômica e das dúvidas em relação à sua eficácia na obtenção do ajuste fiscal, vem potencializando o delineamento de cenários mais sombrios, por parte dos agentes sociais.

No fundo, a ocupação de posições de empresários, trabalhadores e consumidores tem sido influenciada decisivamente pela avaliação de que um governo politicamente frágil – em permanente atrito com o legislativo, pouco comprometido com as reformas institucionais e sem nenhum coelho na cartola – não é dotado de cacife para sustentar cortes abrangentes e encorpados nos dispêndios públicos, suficientes para eliminar tensões inflacionárias e ensejar redução estrutural dos juros, desvalorização competitiva do real, majoração dos gastos do setor privado e, por consequência, a tão esperada retomada do crescimento.

Essa linha interpretativa é ilustrada pelas projeções dominantes na praça, apontando recuo de -1,2% do PIB e avanço de 8,4% da inflação, em 2015, corroborando a desconfortável condição de estagflação, em meio a uma atmosfera mundial marcada por reativação econômica, desprovida de pressões inflacionárias. Infelizmente, em menos cinco anos, o Brasil foi transformado de queridinho dos mercados em monstrinho da globalização.

Só a título de ilustração, em 2015, o País ocupou a sua pior posição na classificação mundial de competitividade das nações, realizada pelo International Institute for Management Development (IMD), em parceria com a Fundação Dom Cabral, desde 1989, figurando em 56° lugar, em um painel composto por 61 estados nacionais, em função primordialmente da diminuta eficiência do governo nos campos político, institucional e regulatório. No ranking do IMD, o Brasil suplanta apenas a Mongólia, Croácia, Argentina, Ucrânia e Venezuela.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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