Recessão técnica ou apagão de confiança?

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

Os meios especializados e parcela expressa da mídia reconheceram e anunciaram a chegada da recessão técnica na economia brasileira, a partir da divulgação das estatísticas das contas nacionais trimestrais do País, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativas ao segundo trimestre de 2015, com ênfase para a estimativa de declínio da principal grandeza macroeconômica, o produto interno bruto (PIB), por dois trimestres consecutivos, quando comparado com os três meses imediatamente anteriores.

As quedas de -0,7% e -1,9%, entre janeiro e março e abril e junho de 2015, respectivamente, em relação a outubro-dezembro de 2014 e ao primeiro trimestre do corrente ano, serviram como uma espécie de atestado do surgimento da situação de contração da produção e dos negócios, o que significaria uma performance menos sofrível apenas que a contabilizada por Rússia e Ucrânia, nações que travam prolongado conflito, no front global.

O rótulo de ingresso em recessão técnica reproduz um diagnóstico generoso e errado, fruto de um arranjo estatístico parcial, que esconde a efetiva dimensão e duração do estágio de instabilidade registrado pelo aparelho de transações operante no País. A atmosfera presente não se repetia desde 1930-31, quando a “enorme fazenda de café” foi atingida pela Grande Depressão Mundial, a despeito das medidas oficiais de proteção ao eixo dominante da economia e da política nacional.

A correta referência de cotejo, representada por igual trimestre do ano antecedente, permite confirmar a argumentação levantada pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de que a retração generalizada teria invadido a estrutura doméstica em abril de 2014, coincidindo com o princípio da deflagração do episódio eleitoral.

Por essa abordagem, ao recuar -2,6%, entre abril e junho de 2015, o PIB brasileiro desenharia uma marcha cadente por cinco trimestres consecutivos, puxado, pela ótica de demanda, pelas variáveis atreladas ao investimento (-11,9%), resultado do encarecimento dos bens de capital e da deterioração da confiança dos agentes no futuro do País, e ao consumo das famílias (-2,7%), traduzindo a compressão da massa de salários reais, por conta da combinação entre redução do emprego e rendimentos e escalada da inflação, endividamento e inadimplência.

Mais precisamente, o exercício de 2015 marca o primeiro encolhimento das aquisições para consumo da população desde 2002-2003, por ocasião da traumática transição entre os governos Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Lula, expressa em especulações a respeito de mudanças de modelo econômico. Porém, estas não se confirmaram dando lugar a intensificação da gestão ortodoxa.

O volume de investimentos mantem um movimento ladeira abaixo por oito trimestres ininterruptos e a formação bruta de capital fixo, ou taxa de investimento, desceu para 17,8% do PIB, no intervalo abril-junho de 2015, configurando o menor nível apurado desde 2006, tempo de eleição na esteira dos escândalos do Mensalão.

Não menos importante foi o decréscimo do consumo do governo e das importações, entre outubro e junho de 2015, reiterando a condição de absoluta falência das finanças do setor público e o quadro de anemia da demanda interna, determinado pelo enfraquecimento das compras das famílias e da administração estatal e das inversões privadas e em infraestrutura. O panorama só não foi mais desolador graças à recuperação do quantum das exportações, entre janeiro e junho de 2015, devido à reação, ainda que moderada, da economia mundial e aos efeitos da depreciação do real.

Por outro lado, uma observação setorial proporciona identificar desempenho desfavorável dos segmentos industriais de transformação, construção civil e produção e distribuição de energia, gás e água, do comércio e dos serviços (que respondem por 71% do PIB e que acusaram a primeira baixa em duas décadas e meia). Já, os serviços de informação e imóveis, a agropecuária e a indústria de extração mineral ainda resistiram na representação do papel de salvadores da pátria ou do PIB.

Logo, as insistentes tentativas de continuar dourando a pílula, patrocinadas pelo executivo federal e encampada por algumas entidades do mercado, revelam-se cada vez mais ineficazes, nas circunstâncias atuais, que reúne escalada da inflação, do desemprego, do déficit externo e dos rombos na contabilidade pública, esteios da maior recessão desde 1990, quando o presidente Collor paralisou o circuito de produção, vendas e financiamentos, por meio do confisco de mais de 80% do meio circulante.

Por certo, o Brasil atravessa um autêntico apagão econômico, em consequência da deterioração da confiança na política de ajustamento, em face da constatação de sucessivos erros cometidos desde o final de 2008. Naquela época, na contramão da trajetória contracionista da economia mundial, com a eclosão da crise do subprime nos Estados Unidos, as autoridades nacionais tentaram forçar a expansão a qualquer custo, ancorada na impulsão do consumo, público e privado, bancada pelo emprego de instrumentos inadequados e intervencionistas, especialmente renúncias tributárias e crédito oficial subsidiado, sacrificando as finanças públicas e o equilíbrio da conta corrente do balanço de pagamentos.

É interessante notar que foram absolutamente ignoradas as lições da experiência histórica de administração econômica, que demonstram, para tais casos, que plantios de sementes não recomendadas, ou marchas contra a corrente, resultam, invariavelmente, em colheitas frustrantes, como a verificada, por exemplo, no período 1979-1983, caracterizado por choque do petróleo, dos juros e do endividamento externo.

O pior é que o buraco foi aprofundado em 2015, com os efeitos das investigações da operação Lava Jato e da fracassada terceirização do governo, promovida pela presidente Dilma. Essencialmente a mandatária confiou as tarefas de estabilização macroeconômica, ancorada no ajuste fiscal, choque de juros e rearranjo da estrutura de preços relativos, ao Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e de articulação com um Congresso avesso aos anseios sociais e em clima de desidratação da base aliada, ao vice-presidente da República, Michel Temer.

Nesse sentido, a piora recessiva de 2015 advém da mistura entre as inconsistências e insuficiências da programação econômica, das barreiras impostas pelo legislativo à aprovação de ingredientes mais robustos para a concretização de qualquer proposta séria de esforço fiscal, e da multiplicação de iniciativas contraditórias do executivo que, sinaliza, ao mesmo tempo, incapacidade de reconhecer a dimensão dos destroços, discernir as alternativas de consertos e organizar uma estratégia de retomada do crescimento em médio e longo prazo, apoiada em encorpado projeto de reformas institucionais capaz de restringir a continuidade do desproporcional avanço do Estado.

O aceite passivo da oportunista e conservadora Agenda Brasil, um ajuntamento de velhas ideias em tramitação, apresentada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, demonstra a precária capacidade governamental em lidar com o momento crítico. Daí a vertiginosa queda de popularidade e credibilidade, em intensidade jamais vista na história da nação.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da FAE Business School.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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