You are here
Home > Artigos > O voo da galinha e as reformas

O voo da galinha e as reformas

Gilmar Mendes Lourenço.
Gilmar Mendes Lourenço.

É fácil perceber o delineamento de um processo de restauração e reforço da confiança dos atores sociais no restabelecimento das condições favoráveis à superação da situação depressiva, que atinge o Brasil desde o segundo trimestre de 2014, e à recuperação do ambiente de negócios.

Trata-se de uma renovação de esperanças, bastante influenciada pela proximidade da confirmação do afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff, a partir do julgamento pelo Senado da República, e, por extensão, da multiplicação das chances de a aplicação de uma política econômica ortodoxa, centrada no ajuste fiscal e na implantação das reformas institucionais, recolocar a nação nos trilhos da expansão econômica e recompor os níveis de emprego e renda.

Isso é particularmente verdadeiro quando se constata o substancial recuo do risco-País, mensurado pelos contratos de Credit Default Swap (CDS) – indicadores de risco de calote da dívida pública –, para menos de 300 pontos, contra mais de 600 pontos há menos de um ano.

Na mesma linha, observa-se que os meios especializados (entidades financeiras e consultorias), acompanhados semanalmente pela Pesquisa Focus, do Banco Central, promoveram revisões, para melhor, nas projeções de variação do produto interno bruto (PIB) brasileiro para 2016 e 2017, durante os pouco mais de cem dias de duração do governo provisório de Michel Temer. Enquanto no começo do mês de maio, previa-se decréscimo de quase -4% da principal grandeza nacional, em 2016, e aumento de apenas 0,5%, em 2017, em agosto as apostas são de queda de -3% e ampliação de 1,2%, respectivamente.

Além desse elemento sensitivo, representado pelo ensaio de resgate da fé, emergem alguns fatores objetivos, configurados especialmente no embrião de reativação da produção fabril, no quadrimestre móvel de março a junho – ainda que quando cotejada com a base deprimida de novembro de 2015 a fevereiro de 2016 -, sinalizador da exaustão do ciclo de redução de estoques, mesmo com a persistência do quadro de retração das vendas.

A par disso, o desenho de uma tendência de intensificação do recuo da inflação e a subsequente irradiação da diminuição dos juros básicos, referenciados na taxa Selic, que deverá ocorrer provavelmente a partir do final do ano, sobre o preço final das demais modalidades de crédito, podem constituir sementes de qualidade para a eliminação dos sinais negativos da atividade econômica.

Diante dessas premissas, surgem indagações acerca da intensidade e duração do reerguimento das transações. Mesmo considerando as apreciáveis margens de ociosidade, acumuladas durante o período recessivo superior a dois anos, que asseguraria a otimização das economias de escala microeconômicas, com acréscimos de produção via ganhos de produtividade da mão de obra empregada, sem a necessidade de realização de novos investimentos, sobressaem barreiras estruturais à formação consistente de um círculo virtuoso.

Se, no plano externo, as perturbações podem ser resumidas na morosa, ainda que generalizada, recuperação da economia global, e na exacerbação do protecionismo, no front doméstico os entraves relevantes seriam o pronunciado endividamento de empresas e famílias, motivado pelo alto preço do crédito, e a persistência da curva cadente da massa de salários reais, determinada pela subida do desemprego e corrosão dos rendimentos dos trabalhadores pela espiral inflacionária, principalmente com o tarifaço (transportes, combustíveis e energia) e a depreciação cambial, verificados em 2015, e o choque de alimentos, de 2016.

Sem contar que, com os vultosos déficits públicos primários nas finanças públicas, estimados em R$ -170,5 bilhões, para 2016, e R$ -139,0 bilhões, para 2017, que devem catapultar a dívida bruta do governo de 73% do PIB, em 2016, para 78% do PIB, em 2017, o poder de interferência do estado nos movimentos da demanda agregada está irremediavelmente comprometido, em médio prazo. Ressalta a natureza imprescindível de compressão estrutural dos dispêndios, a ser materializada através da execução de emenda constitucional, recentemente aprovada, que define rigoroso alinhamento à marcha da inflação do ano antecedente.

Considerando que cerca de R$ 50 bilhões do orçamento de 2017 deverá ser bancado por fontes extraordinárias, como venda de ativos, privatizações e concessões de infraestrutura, em circunstâncias de esgotamento da capacidade de suporte social a novas rodadas de majoração da carga tributária, o esperado retorno do giro da roda econômica poderá constituir o principal vetor de recomposição da arrecadação.

No entanto, é prudente reconhecer que o reequilíbrio estrutural do caixa do governo, nas diferentes esferas (união, estados e municípios), inadiável e essencial para a viabilização do pagamento dos juros e a contenção do crescimento do passivo, deve ser ancorado na redução de gastos, propiciada por medidas voltadas à racionalização e eficiência, complementadas e consolidadas por abrangentes modificações nos arcabouços tributário, fiscal, trabalhista, previdenciário, administrativo e patrimonial, capazes de produzir redução de custos e ganhos de eficiência, nas instâncias públicas e organizações privadas.

Sem isso, o Brasil estará condenado a reprisar episódios expansivos conhecidos como “voo da galinha”, normalmente sustentados por aspectos pontuais e transitórios que podem desaparecer de maneira tão rápida e surpreendente como surgiram.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

Avatar
Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

2 thoughts on “O voo da galinha e as reformas

Deixe uma resposta

Top