Cortes da Selic e retomada econômica: não há capitalismo sem crédito

Gilmar Mendes Lourenço.

A nova redução de 0,75 pontos percentuais da taxa Selic, representando recuo de 13,0% ao ano para 12,25% a.a., definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, no encontro de 22 de fevereiro de 2017, confirma a continuidade do afrouxamento do garrote monetário, iniciado, de forma moderada, em fins de 2016, e intensificado neste começo de ano. Trata-se do quarto corte seguido, que serviu para colocar os juros básicos do País no menor patamar desde janeiro de 2015.

Mais uma vez a autoridade monetária demonstrou firme convicção acerca da consistente trajetória de declínio da inflação, propiciada pela profunda e prolongada recessão, que atinge o País desde o princípio de 2014 e que, ao contrário do que avalia parcela expressiva dos meios especializados, defendendo que os negócios já desenhariam um ciclo de retomada, parece aproximar-se de uma situação de “nado no do fundo do poço”.

A esmagadora maioria dos indicadores correntes aponta que, na mais tolerante interpretação, o quadro econômico teria parado de piorar. Ademais, o elevado grau de endividamento e inadimplência dos consumidores, as taxas recordes de desemprego, a multiplicação do passivo das empresas e a enorme capacidade produtiva ociosa do parque industrial representam barreiras nada desprezíveis à recuperação da demanda doméstica (consumo e investimento).

Sem contar que a condição de Estado quebrado, em face da combinação entre deterioração da gestão e malversação dos recursos, agravada pelo fortalecimento das cadeias de corrupção, formadas especialmente por representantes dos poderes constituídos e grandes empreiteiras, inibe e, em certos casos anula, a capacidade de inversão do setor público, em clima ainda inóspito às privatizações, conduzidas institucionalmente por um quase ministro citado em delações premiadas da Lava Jato.

Nessas circunstâncias, a conduta do BC constitui exceção, não regra, de uma orientação econômica expansiva. Por certo, a superação da depressão exige expressiva ampliação e barateamento da oferta de crédito. Até porque, a ciência econômica ainda não conseguiu inventar capitalismo sem crédito. Por isso, a dimensão do decréscimo da Selic precisa contaminar os demais elos e modalidades de financiamento.

É importante reconhecer que a inadimplência é alta, por conta da queda da massa de salários (diminuição dos rendimentos e subida da desocupação). Mas é impossível ignorar o poder de mercado do oligopólio bancário no Brasil, amparado em um modus operandi propenso às operações de tesouraria, atreladas à rolagem da dívida mobiliária federal, desprovida de riscos, que rendem lucros estratosféricos, inibem a competição e encurtam e encarecem o volume de recursos destinados ao giro da roda da economia real.

Apenas como ilustração, quatro entidades (Banco do Brasil, Itaú, Bradesco e Caixa Econômica Federal) atuantes por aqui detêm 72,4% dos ativos do sistema no Brasil, contra 43%, no ano de 2000, o que permite o levantamento da hipótese, pouco confortável, de que, sem amplas alterações no arcabouço financeiro vigente, o desencadeamento de ondas descendentes da Selic pode não beneficiar o tomador final, notadamente em clima de arrefecimento das pressões inflacionárias que, produz, inclusive, a subida dos juros reais.

A reativação sustentada dos níveis de atividade também requer a colaboração da perna fiscal, ainda presa a promessas de ajuste, ancoradas na aplicação do teto dos gastos e na reforma da previdência, em tramitação no Congresso Nacional, instância de credibilidade, na melhor das hipóteses, duvidosa.

Na verdade, sem uma abrangente agenda de modificações estruturais (tributária, administrativa, financeira, patrimonial e do judiciário), dirigida à compressão do tamanho e à impulsão da gestão do estado brasileiro, qualquer indicação de reerguimento das transações pode ser confundida, pelos agentes, como simples faíscas, comprometendo a confiança no futuro.

Nessa perspectiva, outra fonte de perturbação corresponde à taxa de câmbio. Se, de um lado, o retorno da marcha de valorização da moeda nacional constitui apreciável auxílio no combate à inflação, de outro, prejudica a competitividade das exportações, particularmente aquelas realizadas pela indústria, setor mais afetado pela conjuntura de contração econômica.

Mais que isso. De acordo com as inferências internacionais, o Brasil figura no elenco das nações de renda média. O preocupante é que nenhum País conseguiu a proeza de passar para o andar de cima, e integrar o seleto bloco de renda alta no panorama global, sem dispor de um vigoroso e diversificado segmento exportador.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-Presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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