Negação da recuperação econômica: o caso da indústria em 2019
A variação negativa da produção industrial brasileira, no mês de novembro de 2019, constituiu uma verdadeira rasteira passada em membros do governo, comunidade empresarial e meios especializados, portadores de avaliações triunfalistas assentadas na ideia de firme recuperação da economia do país, no último trimestre do ano passado.
Os experts vinham defendendo, de forma cada vez mais veemente, a tese de que a fase depressiva (recessão seguida de estagnação), vivida desde os primórdios de 2014, teria ficado para trás e a nação já estaria surfando em apreciáveis ondas da reativação sustentada.
Porém, as estatísticas de evolução da indústria, calculadas por meio da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), serviram para o despejo de água gelada sobre as interpretações eufóricas.
O volume de produção fabril encolheu -1,2% em novembro de 2019, em comparação com outubro, com declínio nas quatro categorias de uso investigadas, com destaque para bens de consumo duráveis (-2,4%), por conta da acentuada retração das exportações de automóveis para o mercado argentino, que atravessa intensa e prolongada crise. Já, em relação ao mesmo mês de 2018, o recuo foi de -1,7%, interrompendo dois meses seguidos de expansão.
Entre janeiro e novembro de 2019, em confronto com igual intervalo de 2018, a diminuição foi de -1,1%, com decréscimo em 16 dos 26 ramos, 41 dos 79 grupos e 54,9% dos 805 produtos acompanhados. Com isso, a atividade industrial situava-se, no final de 2019, em patamar 17,1% inferior ao recorde observado em maio de 2011.
É claro que o desempenho do setor foi fortemente afetado pelos desdobramentos, em toda a cadeia de negócios atrelada à extração mineral, do acidente com a barragem de rejeitos da companhia Vale, na região de Brumadinho (MG), ocorrido em janeiro de 2019.
Não obstante, parece prudente associar a performance da classe de transformação às influências da desaceleração do dinamismo da economia global, em face, primordialmente, da batalha de tarifas travada entre as duas maiores economias do planeta (Estados Unidos e China), e a fraqueza da economia da argentina, tradicionalmente o 3º e, presentemente, o 4º, maior parceiro comercial do Brasil.
É igualmente relevante sublinhar o peso exercido no comportamento da indústria pela comprimida dimensão da demanda doméstica, determinada pelos ainda elevados níveis de desocupação, subutilização e informalidade da mão de obra e endividamento e inadimplência primária da população.
Isso justifica, em grande medida, a postura cautelosa dos consumidores, a despeito da inclinação heterodoxa da política econômica, expressa na liberação de parte dos saldos das contas ativas e inativas do FGTS e do PIS/PASEP e redução dos juros básicos, em linha com a inflação cadente, que, por sinal, resiste em contaminar as taxas cobradas dos tomadores finais de crédito.
A despeito da interferência daqueles fatores adversos objetivos, há que considerar a presença, na matriz orientadora do malogro do complexo manufatureiro nacional em 2019, de aspectos ligados à frustração de expectativas dos agentes que, ao longo do ciclo eleitoral de 2018 e começo da atual gestão governamental, sucumbiram ao “canto de sereia”, entoado pelo titular da pasta da Economia, Paulo Guedes.
A retórica do ministro priorizava abertura comercial, privatizações e incentivos à restauração da sintonia fina entre os componentes de competitividade sistêmica (câmbio, juros, infraestrutura, burocracia, tributos e ciência tecnologia), destinada a catapultar o organismo fabril na direção da 4ª revolução industrial, em avançado estágio nos estados capitalistas avançados e emergentes.
No entanto, a aposta cega na agenda fiscal, apoiada exclusivamente na reforma da previdência, que perdeu mais de 1/3 da potência fiscal projetada, por ocasião da lenta e complicada tramitação legislativa, levou o executivo a negligenciar as ameaças e oportunidades esboçadas pelo lado real do ambiente de transações e, por consequência, aniquilar as chances de viabilização da retomada virtuosa pela via da indústria, dotada de efeitos irradiadores dinâmicos, para frente e para trás, maiores vis a vis os outros segmentos da base produtiva, e de variáveis incorporadoras de progresso técnico.
A mistura entre falta de visão estratégica oficial e acentuação da prevalência dos interesses corporativos, dominantes na postura de entidades representativas dos empresários, consubstancia a raiz da indiscutível negação da indústria em capitanear um novo ciclo de revigoramento da economia nacional. Em outros termos, trata-se do eterno compromisso com o atraso. Há quem isso interessa?
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é Economista, Consultor e Ex- Diretor Presidente do IPARDES.


