Recuperação da popularidade de Bolsonaro: carona no auxílio emergencial
Os trabalhos efetuados pelos institutos encarregados da captura e medição do sentimento da sociedade brasileira, em relação a diferentes e múltiplos assuntos, têm incorporado vários componentes técnicos de adaptação ao comportamento mais arredio dos entrevistados, motivado pelas mudanças determinadas pela entrada e escalada exponencial da Covid-19 no território nacional.
Na maioria dos casos, os contatos diretos foram substituídos por abordagens pela internet telefônicas, o que passou a exigir redobrada cautela na organização das perguntas, sistematização dos dados básicos expressos nas respostas e, sobretudo, mensuração e análise dos indicadores tendenciais.
Por essa ordem de advertências, sondagem de opinião mensal realizada pela XP/Ipespe constatou, no mês de julho de 2020, discreta continuidade da trajetória de recuperação da aprovação popular do governo de Jair Bolsonaro, iniciada em maio do corrente exercício, medida pela agregação dos conceitos ótimo e bom, manifestados por um painel amostral de mil pessoas, consultadas em todo o país, entre os dias 13 e 15 de julho.
Depois de ser atingido por um choque impopularidade, em meados de 2019, ao negar com veemência e/ou esconder a flagrante devastação da floresta amazônica, o chefe de estado alcançou o pico de 35% de popularidade, no final daquele ano. Em seguida, começou a amargar consistente declínio de credibilidade junto à sociedade, que desceu a 27% e 25%, em 30 de abril e 18 de maio de 2020, respectivamente.
Decerto que a retração de cacife popular do presidente da república esteve intimamente associada à ausência de produção de resultados favoráveis no terreno da economia, depois de um ano de ocupação do posto máximo da nação, capaz de reverter os estratosféricos patamares de desemprego, herdados de períodos antecedentes, multiplicada pelo abandono do planejamento e coordenação da contenção da evolução do volume de infecções e mortes, provocado pelo Novo Coronavírus.
No entanto, a despeito da não alteração do panorama caótico de tratamento da crise sanitária, agravada pela pronunciada contração da produção e negócios e outros eventos políticos negativos, que abarcaram e afetaram o núcleo duro do clã bolsonarista, os inquéritos opinativos captaram modesta reversão da avaliação negativa do governante pela coletividade.
Tanto que o endosso subiu para 26%, em 27 de maio, para 28%, em 20 de junho, e para 30%, em 20 de julho, e a reprovação (nota ruim e péssima) caiu de 50%, em 18 de maio, para 49%, em 27 de maio, 48%, em 20 de junho, e 45%, em 20 de julho.
Ressalte-se aqui que a eclosão do novo ciclo recessivo é fruto essencialmente das medidas de isolamento e distanciamento social, especificamente a restrição à circulação de pessoas e ao funcionamento de parcela expressiva de atividades econômicas, adotadas por autoridades subnacionais.
É prudente observar que, embora na direção correta, as ações de governadores e prefeitos foram aplicadas, abrandadas e suspensas, de maneira atabalhoada e pouco criteriosa e, em não poucas situações, em flagrante descompasso com as recomendações técnicas e científicas, emitidas por sanitaristas, infectologistas e virologistas.
Ainda em sentido de continuidade da melhoria da imagem dos entes oficiais, levantamento do Datafolha, feito nos dias 11 e 12 de agosto, junto a 2.065 adultos, denotou a maior aprovação ao governo desde a posse, em janeiro de 2019, registrando 37%, contra 32%, em 23 e 24 de junho.
O mais saliente foi a despencada da rejeição, que passou de 44%, em junho, para 34%, em agosto, sendo que na região Nordeste, curral eleitoral do das políticas públicas de cunho assistencialista, a apreciação negativa recuou de 52% para 35%, em igual período.
O aparente paradoxo sintetizado no resgate de apoio popular ao mandatário, em meio à fragorosa derrota no controle da subida da síndrome viral e à anemia econômica, reflete as apreciáveis modificações verificadas na base de observação e apreciação da atuação dos agentes públicos maiores, pelos distintos estratos componentes da pirâmide social.
Parece conveniente lembrar que a vitória eleitoral do deputado Jair Messias, em 2018, reproduziu a repulsa a corrupção impregnada nas administrações anteriores, simbolizada em uma espécie de fora PT, que, por sinal, teve os passos de sua campanha definidos dentro de uma cela, na Polícia Federal, em Curitiba, o que, à primeira vista, soa pouco promissor.
A par disso, emergiu o encaixe da retórica liberal, ancorada na agenda de reformas estruturais, capitaneadas na previdenciária, tributária, administrativa, patrimonial e novo arranjo federativo, que seduziu as classes média e alta, que haviam perdido protagonismo, sobretudo durante o período marcado pela ampliação da abrangência dos programas oficiais de transferência de renda. Estes foram plantados na Carta Magna de 1988, organizados e acionados por Fernando Henrique Cardoso (FHC) e maximizados nos tempos de Lula.
Dentre aquelas incursões relevantes sobressai o Bolsa Família, a aposentadoria rural, o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) e a política de valorização do salário mínimo, que propugnava a correção anual das cifras nominais em intensidade que viesse a superar a inflação e os ganhos de produtividade agregada do sistema, o que é bastante nocivo, por sinal, ao alinhamento da estrutura de preços relativos.
A lerdeza e desconexão do time de Bolsonaro precipitou acentuada erosão do capital político angariado e contratado nas urnas, em 2018 e, em consequência, rápida revisão de atitude, por parte dos componentes das categorias mais privilegiadas que apostara nele as suas fichas. Tal posição se materializou na retirada de apoio, percebida nas investigações qualitativas, efetuadas desde o começo de 2020 até os dois primeiros meses da pandemia. Embora tenha decrescido entre junho e agosto, a rejeição a Bolsonaro, entre ricos e escolarizados, ainda é bastante alta, descendo de 53% para 47%, segundo o Datafolha.
Mas sobraram os conduzidos por autênticas milícias digitais, erguidas pela família real e municiadas por um guru, residente nos Estados Unidos (EUA), contrárias ao desenvolvimento de desejos coletivos e de cidadania e defensoras do retorno da ditadura militar, do atropelo às instituições e à ordem democrática e do estabelecimento de laços externos mais amplos com nações localizadas à extrema direita do espectro ideológico.
As fortalezas sociais do presidente, também reveladoras de absoluta falta de sensibilidade às questões ambientais, sociais e sanitárias, conformam uma massa nada desprezível, englobando cerca de, no mínimo, um quarto da população, barulhento e mobilizado.
Trata-se de contingente suficiente para amainar os anseios sociais de instauração de um processo de impeachment contra Bolsonaro, por prática de vários crimes de responsabilidade, em especial o flagrante descaso com a evolução exponencial da tragédia da Sars-CoV-2, que já matou mais de cem mil brasileiros em menos de cinco meses.
A troca de afagos com o Centrão, proteção legislativa de todos os governos depois da redemocratização, em 1985, e a construção e consolidação de algumas ligações vitais com frações do poder judiciário, reforçam o rechace das posições pró-impedimento.
O reconhecimento, mesmo que velado, desse elemento de perturbação do projeto de reeleição, aguçou o tino do inquilino do palácio do planalto a viabilizar a execução de estratégias populistas, em lugar do liberalismo tacanho de Paulo Guedes, que viessem a beneficiar a invasão e ocupação de espaços preenchidos precariamente pelas desarticuladas frentes de oposição.
Rigorosamente, o enfraquecimento da vertente liberal de Bolsonaro, se é que ela existe, e o robustecimento da inclinação intervencionista, destituída do interesse de montagem do quebra cabeças do reequilíbrio das finanças públicas, resgatado durante a gestão de Michel Temer, constitui a causa primária da debandada de membros do staff da Economia.
A tônica do capitão vem sendo a busca de capitalização política das providências mitigadoras dos efeitos econômicos e sociais da pandemia – ainda que apoiasse apenas parcialmente algumas e fosse frontalmente contra outras -, concebidas, tramitadas, discutidas e aprovadas, em sua maioria, no âmbito da Câmara dos Deputados e do Senado da República.
Mais que isso, Bolsonaro percebeu o poder de fogo do auxílio emergencial de R$ 600 mensais, destinado, em um intervalo de cinco meses (maio-agosto de 2020), a cerca de 66 milhões de pessoas, número que suplanta em mais de 15% o total de votos recebidos pelo candidato vitorioso, em 2018, em um estágio de emprego e rendimentos da mão de obra em curso cadente.
Com dispêndios de R$ 254,2 bilhões, ou 3,5% do produto interno bruto (PIB), o benefício provocou decréscimo de 1,9 milhões de pessoas que localizadas na extrema pobreza (renda familiar per capita inferior a US$ 1,90 por dia), no país, entre maio e junho de 2020, recuando de 8,8 milhões (4,2% do total da população), para 6,9 milhões (3,3%), conforme a PNAD Covid-19, do IBGE. De seu turno, a pobreza (os que vivem com menos de US$ 5,50 por dia), diminuiu de 23,8% para 21,7% do total de habitantes.
Sem contar que a ajuda aos vulneráveis pode constituir um embrião do programa de renda básica, em preparação no ministério da Economia, que deverá substituir o Bolsa Família e, de acordo com as posições de Brasília, derrubar algumas hegemonias partidárias regionais das correntes de esquerda e ensejar um rearranjo das preferências daquele eleitorado amparado no assistencialismo federal desde 2003.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.


