Câmbio deve seguir pressionado e perto dos R$ 5,50 em 2022

Selic deve chegar a 12% no próximo ano, enquanto inflação só ficará dentro da meta em 2023
A taxa de câmbio no Brasil deve seguir pressionada em 2022, permanecendo perto dos R$ 5,50. A avaliação é de Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest, durante entrevista coletiva realizada nesta terça-feira (09), que também contou com a participação dos economistas Welber Barral e Cristiane Quartaroli.
“Olhando o que há de informação hoje, não conseguimos perceber um ambiente muito propício para a taxa de câmbio. Claro que a volatilidade é ainda o nome do jogo; se hoje ela está em R$ 5,50, nada impede beliscar uns R$ 5,30 daqui um mês em um dia positivo, mas a chance de isso se sustentar é baixa”, afirmou a economista.
Na avaliação de Fernanda, a tendência é de depreciação cambial diante das incertezas geradas com as eleições presidenciais no ano que vem. “Quando olhamos para o ano que vem, algo perto ou abaixo de R$ 5 parece muito pouco factível. Nós devemos depender do cenário eleitoral no ano que vem e ter uma manutenção dessa taxa de câmbio ao redor de R$ 5,50”, disse.
A economista lembrou ainda que o fluxo de capital do país vem diminuindo há muito tempo. Para o ano que vem, a projeção do banco para o investimento direto no Brasil é algo perto de US$ 55 bilhões, mas muito abaixo da série histórica que rondava os US$ 70 bilhões. “A história mostra que a gente não está com um retrato positivo de Brasil. Além disso, em ano de eleição, as incertezas aumentam e, portanto, temos uma chance maior de depreciação cambial.”
Riscos no cenário global
Além das eleições presidenciais aqui, para Fernanda, há riscos no cenário global como o agravamento da relação entre EUA e China e o noticiário sobre uma possível quarta onda da pandemia de Covid-19. “A principal questão é a manutenção da pressão global sobre os custos. Há um desconforto com questões inflacionárias no mundo inteiro. Também tivemos uma pequena diminuição da expectativa de crescimento global”, afirmou.
Fernanda alertou ainda sobre a possibilidade de aumento de juros pelo Federal Reserve, banco central americano. Embora o Fed não vislumbre um aumento de juros pontual, ela avaliou que isso “não está descartado nos próximos meses.
“Olhando a situação dos Estados Unidos, não achamos que é totalmente impossível aumentar os juros nos próximos meses. Isso criaria uma piora, ou ao menos uma resistência, para a queda da taxa de câmbio de qualquer país emergente”, afirmou.
Ainda em relação ao cenário internacional, Welber Barral, estrategista de Comércio Exterior do Banco Ourinvest, disse que a grande tendência é continuidade da recuperação da economia global. “A China não deve crescer tanto como no pré pandemia, mas vai continuar crescendo. Os EUA também têm expectativa de crescimento positivo, embora correndo um risco de uma mudança na política de juros do Fed, o que implicaria em consequências para o mundo inteiro, inclusive para o Brasil. Por outro lado, o crescimento da China tem um efeito positivo nas exportações de commodities brasileiras”, afirmou.
Barral acrescentou que os riscos também estão na possibilidade de uma nova crise sanitária, “o que é imprevisível”, e questões referentes à reestruturação das cadeias logísticas com aumento de custos. “Outra questão é a inflação não só por estímulos monetários dos países, mas devido principalmente à elevação de custos de petróleo e energia. Vários compromissos assumidos na COP 26 vão encarecer a energia, é uma tendência para os próximos anos até se fazer a transição energética. Esse fenômeno de inflação no mundo tende a elevar juros nos países desenvolvidos, o que afeta o Brasil, provocando uma desvalorização da nossa moeda”, completou.
PIB e inflação
Para o PIB, a expectativa do banco é de um crescimento de 1% em 2022, configurando que 2021 foi um “vôo de galinha”. Entre as preocupações, segundo Fernanda, está adoção de medidas populistas pelo presidente Jair Bolsonaro visando as eleições presidenciais, o que elevaria os gastos públicos. “Essa combinação de medidas populista e um ambiente fragilizado jogam as expectativas de crescimento ainda mais para baixo”, explicou.
Já a projeção para a inflação, medida pelo IPCA, no ano que vem é de 5%, com a Selic com dois dígitos no início de 2022, chegando a 12% no final do ciclo de aperto monetário. Para Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest, a tendência é que o IPCA fique mais próximo da meta de inflação só em 2023. Além da expansão fiscal forçada pela pandemia e da pressão no câmbio, ela avalia que o histórico do Brasil de inércia inflacionária, que é o reajuste preços com base na inflação passada, deve pesar na taxa de 2022.
“Quando começarmos a olhar aumentos de preços de serviços, por exemplo, matrícula escolar e planos de saúde, é bem provável vermos um reajuste acima da inflação. Temos dois agravantes para o ano que vem, que é a questão de energia, que vai impactar a inflação no mundo todo e a inércia no Brasil. É provável que gente veja o nosso quadro de inflação piorar para depois melhorar, dentro de um cenário de baixo crescimento, em torno de 1% para o ano que vem, Talvez, uma inflação próxima da meta a gente só consiga enxergar em 2023”, disse.
Confira as projeções para 2022
PIB: 1,0%
Inflação: 5,0%
Câmbio: R$ 5,50
Selic: 12%







