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Lula versus Bolsonaro: apostas e estratégias

Uma observação atenta da conjuntura política brasileira permite apreender dois movimentos das candidaturas favoritas ao cargo de presidente da república, que vem escapando dos holofotes da discussão democrática como o “diabo foge da cruz” e denotando os traços singulares da lógica da polarização atenta ao imperativo de demolição de reputações frágeis.

De um lado emerge a busca de encerramento da disputa, ainda no primeiro turno, por parte do ex-presidente Lula, rejeitado por 36% dos eleitores, e, de outro, ressalta a tentativa de transferência da contenda ao segundo turno, pelo atual mandatário, Jair Bolsonaro, repudiado por mais da metade dos entrevistados em várias sondagens qualitativas.

O delineamento desse cenário, quase irreversível, deriva da concreta inviabilização da emergência do centro democrático expandido, a chamada terceira via, especificamente com a desistência de certas candidaturas, a estagnação de Ciro Gomes e o não arranque da postulação de Simone Tebet.

Até porque, desprezada por importantes vertentes de sua própria agremiação, que, sem o menor pudor, vêm esboçando condutas de aproximação com os dois extremos com chances de vitória, Tebet empenha-se na orquestração de um movimento de oposição programática, menos panfletário e/ou ocupado com selfies e outros exibicionismos.

O conteúdo da bandeira explicitada pelo favoritismo de Lula deverá traduzir menos o histórico de parlamentar medíocre e mais as ações e inações recentes de Bolsonaro, sobretudo as incontáveis sinalizações de desrespeito às regras democráticas formais e informais, incursões autoritárias, erros grosseiros na política macroeconômica e destruição da retaguarda de proteção social e ambiental.

Ademais, portador dos bilhetes premiados com a instabilidade macroeconômica e a deterioração dos indicadores sociais, notadamente nos últimos três anos do atual governo, Lula deverá fugir da feitura do mea-culpa e perseguir a magnificação das qualificações de perseguido e preso político e de eterno detentor do troféu ou monopólio da ética.

Por essa perspectiva, embalado pelo ambiente propício ao regresso triunfal de uma espécie de salvador da pátria ou “pai dos pobres”, ao estilo getulista da década de 1950, ou do slogan “nós contra eles”, o ex-comandante da nação estaria habilitado a anular as privatizações acontecidas desde a deposição da ex-presidente Dilma e extinguir a lei do “teto de gastos”, dentre outras inclinações corretivas despropositadas.

Se bem que essa última tarefa já foi realizada com sucesso pela articulação espúria entre Bolsonaro, Ciro Nogueira e Arthur Lira, como variante do contrato de terceirização da elaboração e execução do orçamento pelo bloco parlamentar denominado centrão, que transformou o ministro da Economia, Paulo Guedes, em verdadeira figura decorativa na esplanada dos ministérios.

Em contraposição, partindo da premissa, sublinhada pela ciência política, que a contenda em segundo turno representa uma nova eleição, o atual incumbente deverá partir para o aprofundamento do jogo do “tudo ou nada” ou do “bem contra o mal”, baseado na restauração e utilização contundente do contencioso do ex-mandatário, formado pelas bombas do Mensalão e do Petrolão, ainda não desativadas e pouco esclarecidas.

A despeito da operação de livramento, empreendida pelo judiciário, aqueles eventos não constituíram peças de ficção e permanecem intactos. Aliás, mesmo com as expressivas devoluções de dinheiro, depois de várias condenações e reconhecimento de delitos, é notório que os desvios custaram caro ao contribuinte nacional, no esforço de cobertura de vultosas somas orçamentárias e assaltos ao caixa das empresas estatais, organizados por membros dos poderes executivo e legislativo com participação privilegiada da corte de grandes empreiteiras.

Parece provável que, por sua magnitude, aqueles acontecimentos sejam ressuscitados logo na deflagração oficial do episódio eleitoral. Porém, as possibilidades de exploração mais eficiente surgirão na etapa de necessidade de inevitável limpeza do meio de campo, caracterizada pelo debate de ideias e programas, até aqui inexistentes ou pouco consistentes, e o confronto de opiniões.

Bolsonaro também deverá apostar fração substancial de fichas na discreta reação da economia no terceiro trimestre, por conta dos efeitos do pacote fiscal de bondades – lançado ao arrepio da Constituição, com aval do congresso nacional, devoto do presidencialismo de cooptação – e em alguma trégua da inflação, decorrente da diminuição temporária dos preços dos combustíveis.

Com o aumento de 50% no valor mensal do Auxílio Brasil até o final de 2022, chegando a R$ 600, o chefe de estado tenciona recuperar o apoio de parte considerável do eleitorado, localizado no piso da pirâmide social e propenso à escolha de Lula, vendido como patrão das iniciativas de transferência de renda e mobilidade social, executadas ao longo dos anos 2000.

Frise-se que com a ampliação, o valor nominal do beneficio será o mesmo do repasse emergencial de abril de 2020, só que com poder de compra 20% menos encorpado, em função da empuxe da inflação, medida pelo INPC, do IBGE, e considerado insuficiente por 56% do público alvo, de acordo com pesquisa do Datafolha, realizada presencialmente, em 27 e 28 de julho de 2022, junto a 2.556 pessoas, em 183 cidades.

Esses incentivos, bancados pela arrecadação do imposto inflacionário, a não atualização da tabela do IR e a antecipação do recebimento de dividendos das companhias estatais, plagio do comportamento do ex-ministro da fazenda, Guido Mantega, servem para enterrar as orientações básicas das políticas públicas de diminuição da desigualdade social e da pobreza e representam a preparação do furo da bolha de endividamento público para 2023.

Outro complicador corresponde à condescendente autorização de empréstimos consignados para beneficiários das ações assistenciais, com piso de juros de 80% ao ano, que deve introduzir perturbações adicionais ao equilíbrio orçamentário das famílias em situação de penúria.

Bolsonaro também contará com o poder de propagação dos ecos da legião de aproximadamente 1/3 da população, puxada por militantes predominantemente hospedados nas mídias eletrônicas, assentadas nas redes sociais, no sentido da reaproximação e resgate de porções da classe média.

A categoria média do retrato social puxou o agressivo coro “Lula ladrão, o teu lugar é na prisão”, em 2018, aderiu à campanha de Bolsonaro, e, envergonhada, debandou em 2020, depois da saída do ex-juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça, e em razão da condução e tratamento oficial irresponsáveis da crise sanitária, em seus complexos estágios.

A propósito da densidade nas redes, cumpre reconhecer o mérito de Bolsonaro na plena compreensão da natureza e das mensagens dos movimentos de descontentamento das elites, plantados em 2013, apoiados por arsenais convocatórios eletrônicos, absolutamente fora do arranjo partidário tradicional.

Mais do que isso, o defensor de teses de ultradireita revelou maestria na capitalização do desastre verificado no princípio do segundo mandado da presidente Dilma Rousseff, com o malogro definitivo da nova matriz econômica e o impeachment, em 2016, e dos apreciáveis embaraços à gestão de Michel Temer.

Nessas circunstâncias, afigura-se razoável prospectar, como nunca antes visto por aqui, um pleito amparado em propostas voltadas mais à desconstrução do adversário do que a apresentação de diretrizes e propósitos focados no enfrentamento dos desafios e a descoberta de soluções para os problemas que afligem a sociedade brasileira, principalmente a população mais pobre, penalizada pela inflação, desemprego, informalidade e queda de renda.

Enquanto Lula, blindado por um telhado de vidro de corrupção, deseja um desfecho rápido, compatível com o imperativo de minimização de exposições que venham facilitar o aparecimento e disseminação de recordações de um passado associado a acontecimentos menos confortáveis, Bolsonaro, apoia-se no prolongamento da peleja.

Por isso, o atual incumbente deve reforçar a tática de maximização da ajuda às pessoas mais atingidas pela apatia econômica e de propagação das teses de retrocesso, que, defendidas com fervor por cerca de um terço do eleitorado fiel, podem produzir retornos dos segmentos simpatizantes, supostamente mais esclarecidos, que abandonaram o barco de louvação governista em 2020.

Com isso, a corajosa negociação e definição da agenda de tarefas sociais prioritárias, acompanhada da fixação de metas e prazos, continuarão em plano secundário. Afinal de contas, o prosseguimento do obscurantismo oligárquico e a desconstrução da consciência cívica, da ética e do respeito, soam mais importantes aos interessados no poder.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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