Crônica da derrota planejada do cachorro morto

A expressão “chutar cachorro morto” é costumeiramente empregada para especificar agressões intencionais, feitas por entes destituídos de coragem e escrúpulos contra aqueles incapacitados de esboçar ou exercer qualquer tipo de defesa.

Decerto que a frase não se aplica à apreciação do fracasso da empreitada à reeleição do atual presidente da República, apresentada à sociedade brasileira como uma espécie alternativa para o escape da irreversível entrada na antessala do fim do mundo.

Uma observação atenta dos princípios elementares oferecidos pela análise politica determina a não consideração da derrota de Jair Bolsonaro, em dois e trinta de outubro de 2022, como um acidente de percurso da democracia brasileira, decorrente de fatores circunstanciais subjacentes ao processo de alternância de poder.

Em vez disso, o malogro do incumbente representa o desfecho fúnebre de uma espécie de empreendimento de mediocridade, cuidadosamente erguido, tijolo por tijolo, ou de árdua caminhada, passo a passo, na direção do abismo, desde o começo da gestão, em janeiro de 2019.

Inúmeras e sucessivas atitudes tresloucadas resultaram em fracassos retumbantes em múltiplas áreas da administração pública e, em consequência, no agravamento das não poucas mazelas econômicas, sociais e ambientais, despertadas com a recessão de 2014 a 2016.

Brotado do baixo clero da atividade legislativa durante quase três décadas, alçado ao cargo máximo da nação por um pronunciado movimento de repúdio à velha política, o mandatário capacitou-se a aglutinar, pelo voto, o descontentamento coletivo com a atuação pregressa da aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), principalmente depois do episódio do Mensalão, em 2005.

Na verdade, o postulante de 2018 pegou o vácuo do espetáculo protagonizado por juízes e procuradores da Operação Lava Jato, que, em nome da apuração de escândalos de malversação de recursos públicos, atropelaram os requisitos mínimos exigidos à condução dos casos com imparcialidade.

Se autoproclamando um “Messias”, um salvador da pátria – tanto que fez questão de ser acompanhado por um pastor, nas exéquias da rainha da Inglaterra, e por um declarado padre ortodoxo, candidato laranja do PTB, em substituição a Roberto Jefferson, cassado pelo TSE, no debate da Rede Globo, em 29 de setembro de 2022 -, habilitado a enterrar a corrupção e recolocar o país nos trilhos da expansão sustentada, orientado pela lógica liberal do titular da Economia, Paulo Guedes.

A surpresa repousou na paradoxal renúncia da tarefa de governar, expressa no desprezo à realização de tratativas dirigidas à edificação de base sólida no Congresso Nacional, em ininterruptos ataques às oposições derrotadas nas urnas e às forças institucionais da democracia e em manifestações gratuitas de ofensas a autoridades de estados parceiros do Brasil.

Porém, a lacuna ou omissão mais notável compreendeu a administração negligente dos efeitos da pandemia de Covid-19, com destaque para a minimização do tamanho da encrenca sanitária, a prática predatória dos esforços da ciência, o estímulo escancarado ao boicote das medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos, o retardo temporal na adesão à vacinação da população e a ausência de empatia com os integrantes do piso da pirâmide social.

Mais do que isso, o chefe de estado careceu de definições e empurrões do parlamento para “pegar no tranco” e disponibilizar instrumentos anticíclicos capazes de abrandar os estragos nos patamares de renda e emprego e finanças públicas pela exponencial evolução do vírus, continuamente negada pelo staff do executivo federal.

Para coroar, em sendo alvo de inúmeras solicitações de impeachment, restou ao mandatário celebrar um pacto promíscuo com a banda podre do Congresso, comandada por deputados e senadores do chamado centrão, campeão de demandas orçamentárias fisiologistas e clientelistas, como forma de assegurar a não descontinuidade legal do tempo de gestão.

Em tais condições, Bolsonaro declinou de qualquer lampejo de ação de governo e terceirizou o comando da articulação política e das escolhas econômicas relevantes à cúpula do centrão, especificamente ao senador Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, e ao deputado Arthur Lyra, presidente da Câmara, o que impôs danos irreparáveis ao aparato de expedientes de responsabilidade fiscal, em particular o estouro do teto de gastos públicos.

Em paralelo, o desencadeamento da aplicação improvisada de instrumentos meramente eleitoreiros, notadamente o alargamento do valor do Auxílio Brasil às pessoas vulneráveis, acéfalo de regras consistentes e destituído de critérios aderentes aos objetivos de equilíbrio intertemporal das contas governamentais, e a aprovação de renúncias tributárias fiscais federais e estaduais sobre o consumo de combustíveis e serviços de energia elétrica e de telecomunicações, incitaram o aparecimento da combinação entre retomada econômica e decréscimo da inflação.

Considerando o delineamento desse ambiente virtuoso na contramão da trajetória global, ainda afetada por eventos remanescentes do Sars-CoV-2 e castigada pelos impactos da guerra da Ucrânia, a comunicação oficial esmerou-se na tentativa de contabilizar dividendos durante o ciclo das eleições.

No entanto, a resistência de elevados níveis de desemprego e informalidade da mão de obra, endividamento e inadimplência de empresas e famílias e queda da renda real dos trabalhadores, por conta da inércia inflacionária, constituíram barreiras instransponíveis à recomposição da popularidade de Bolsonaro, preponderantemente entre os mais pobres.

Aliás, o segmento mais humilde exibiu extraordinária conscientização política, ao perceber que, depois de quase quatro anos de assento na cadeira máxima, o presidente demonstrou enorme insensibilidade à formulação e negociação de um programa de longo prazo focado na diminuição da pobreza e miséria.

Ademais, a alteração da preferência majoritária da fração moderada da população votante, descolada do núcleo duro do lulopetismo, de Bolsonaro, em 2018, para Lula, em 2022, significa menos demonstração de perdão ao ex-presidente e mais o desejo de livramento do desgaste proporcionado pelos incontáveis perigos vinculados à continuidade do atual.

Em outras palavras, parcela relevante da sociedade, mais alinhada ao centro do espectro ideológico, que escolheu Bolsonaro, em 2018, para evitar o retorno das inclinações corruptas do PT à condução do país, recobrou as simpatias à exumação de Lula, em 2022, para efetuar o despacho à sarjeta da história, os desmandos, autocracia, autoritarismo e truculência, impregnados na extrema direita, catapultados pelo Bolsonarismo, que, isoladamente, ainda responde por mais de 37% dos eleitores.

Até porque, a grandiosidade do funcionamento e da lubrificação das engrenagens dos regimes democráticos maduros carrega a marca de reservar aos derrotados substancial volume de oxigênio no espaço político ocupado pelas oposições, essencial para o funcionamento em modo ativo à espera do pleito subsequente.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

(*) A opinião dos articulistas não necessariamente representa a linha editorial deste portal de notícias.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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