A interrupção do isolamento do presidente brasileiro
Depois de um ostracismo de mais de um mês, em cumprimento de rigoroso isolamento e distanciamento social, que tanto abominou durante o período mais crítico da crise sanitária, o chefe de estado brasileiro reapareceu a seus apoiadores, em Brasília, em 09.12.2022, ao lado do ex-candidato à vice da chapa à reeleição, general Walter Braga Netto, e alguns assessores, com mensagens pouco usuais para agentes derrotados em pleitos democráticos.
Por ocasião do retorno da reclusão voluntária, em vez de reconhecer o fracasso na empreitada de reeleição e a vitória do arco de alianças e da frente ampla de oposições à sua forma e conteúdo de governo, Bolsonaro preferiu, propositalmente, emitir frases destituídas de adequada conexão, o que serviu para aprofundar a confusão mental dos devotos.
Com isso, os resistentes seguidores do presidente continuam acéfalos de orientações firmes e claras a respeito do aceite do revés nas urnas e, em consequência, a espera ativa, por quatro anos, no terreno adversário, ou a retomada das operações de bloqueio de rodovias, o alargamento dos acampamentos e mobilizações em frente aos quartéis do exército e os incêndios de veículos particulares.
Afinal, como “ninguém é de ferro”, urge a organização das celebrações das festas de fim de ano, de modestas a pomposas, e dos rituais de passagem da faixa e do cargo presidencial, em 01 de janeiro de 2023, consequência da oitava eleição com voto direto, desde a redemocratização do país, em 1985.
O desaparecimento público do comandante do executivo deveria ter servido a vários mergulhos reflexivos na busca de levantamento, tratamento, sistematização e avaliação dos inúmeros equívocos cometidos em múltiplas áreas, que, ao minarem a sua credibilidade junto à maioria da população, o transformaram, de um postulante quase imbatível e proprietário da máquina financeira do Estado, com participação ativa do fisiologismo parlamentar, em presa relativamente fácil das turbulências do ciclo político.
Convém recordar que Bolsonaro sucumbiu no pleito ante a um oponente condenado, julgado e preso por crime de corrupção passiva, e libertado em razão da identificação à posteriori de não poucos desvios dos ritos processuais e das condutas de procuradores e magistrados.
Ao se esquivar de maneira veemente da tarefa de governar e optar pela permanência em modo “deitado eternamente em berço esplendido”, o incumbente perdeu a mão em praticamente todas as áreas na condução da coisa pública, ao longo do tempo de mandato.
Escolheu assumir a condição de portador de autoritário desejo de sufocar o presente, ao abdicar da manutenção da casa arrumada, deixada pela equipe de Michel Temer, e comprometer o futuro, ao destruir o arsenal de instrumentos de manejo gerencial da educação, saúde, infraestrutura, ciência e tecnologia, meio ambiente, dentre outros.
Essa intencional falta de interesse, ou mesmo de cacoete, em exercer o atributo de estadista ocasionou incontáveis fraturas expostas, especialmente nos campos da economia, saúde, educação e ambiental, expressas na precarização do mercado de ocupações, com recordes de informalidade e de queda da renda real do trabalho, no sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e no virtual apartamento do ensino do orçamento público.
Sem contar a permanente recusa de descida dos palanques eleitorais, marcada por incessantes ataques aos derrotados, em frangalhos, diga-se de passagem, o que pode ser considerado o elemento explicativo da correspondente ressurreição dos mesmos, amparados em teses semelhantes a “moinhos de ventos” de ameaças à família, à propriedade privada e até à sobrevivência do regime capitalista.
Houve também a provocação de atritos com as instâncias legislativas, equacionados depois da terceirização da montagem e execução do orçamento ao bloco clientelista conhecido como centrão, e judiciárias, em especial as pendengas da disseminação de notícias falsas, brotada do interior do Palácio do Planalto, e a exposição de fortes questionamentos, carentes de provas e com prontos desmentidos, quando à segurança das votações por meio das urnas eletrônicas, por suposto, de auditagem questionável.
É vergonhoso constatar ainda que o Brasil estaria próximo de perder assentos e, sobretudo, votos em organizações internacionais em decorrência de atrasos superiores á dois anos nos pagamentos das contribuições anuais, estimados em R$ 5,5 bilhões, o que comprova a opção preferencial pelo isolamento, justificada por absurdos temores de ingerências em assuntos internos.
O resultado patético e prático da maneira de governar às avessas do presidente repousa na expansão econômica equivalente apenas à metade da média global (1,1% ao ano versus 2,3% a.a., entre 2019 e 2022) e a obtenção do rótulo de pária na comunidade internacional, com Bolsonaro representando o papel em “desmancha roda” de autoridades, nos raros encontros de porte em que participou.
Ao preservar o comportamento bizarro de autocrata derrotado e envergonhado, o incumbente em fim de linha não consegue emitir sinalizações precisas aos simpatizantes, ansiosos pelo recebimento da ordem de retorno às residências e dedicação plena a eventos de Natal e Ano Novo, de contemplação da posse do novo comandante da nação e da honrosa hospedagem no terreno do antagonismo político, nos próximos quatro anos.
No entanto, ao enaltecer o poder da fração populacional reivindicante de golpe militar em decidir os rumos do executivo, Congresso Nacional e Forças Armadas para, “em respeito à Constituição”, “fazer a coisa certa” e retirar o país da encruzilhada, o presidente estimula, ainda que tacitamente, a preservação do descontentamento raivoso.
No fundo, os adeptos ainda acalentam o sonho do terceiro turno, mesmo que retratado na reprodução local do episódio de invasão do Capitólio, protagonizada por grupos radicais de extrema direita dos Estados Unidos (EUA), em 06 de janeiro de 2021, induzidos pelo postulante derrotado à reeleição, Donald Trump.
Enquanto nos EUA a Democracia venceu, em 2020, e ratificou a vitória, em 2022, no Brasil, a despeito da condição de perdedor, abandonado por parcela de sua base política aliada e acuado em seu próprio reduto, Bolsonaro ainda profere a aversão às regras democráticas formais e informais, enquanto agentes políticos da transição e do legislativo ocupam-se com o desarme da bomba fiscal, associada às bondades eleitorais adotadas ao arrepio da lei, por ele preparada em 2022.
Só que a descendência daqueles que lutaram pelo restabelecimento da Democracia, por vias pacíficas, ancorado no voto popular, repudia as incursões obscurantistas no afã da materialização de aspirações fora da legalidade, centrada no desejo de calar a voz das urnas.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, ex-presidente do Ipardes e ex-conselheiro da Copel.
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Realmente foi lamentável, novamente, a postura do atual presidente