Pouso da aeronave da desaceleração econômica no Brasil
Gilmar Mendes Lourenço.
Os principais indicadores da trajetória dos níveis de oferta e demanda no Brasil sinalizam a conformação de uma virada de chave, ainda que moderada, da economia, neste terceiro trimestre de 2025, caracterizada pela clássica perda de velocidade de crescimento.
Essa compressão de fôlego pode ser imputada sobretudo à persistente conjuntura de juros elevados, liderada pela autoridade monetária nacional, claramente inclinada a superestimar a influência do ativismo fiscal no delineamento da espiral de preços.
Esse posicionamento figura na contramão do ambiente de frouxidão das amarras monetárias, observada nas mais importantes praças internacionais, que, por sinal, ainda não se abateram com as tensões geopolíticas e econômicas, engrossadas por novo embate entre Estados Unidos (EUA) e China, e de indiscutível alcance do pico da curva inflacionária doméstica, pouco acima de 5% ao ano.
O confronto comercial global da vez teria sido precipitado pela imposição de restrições, pelo gigante asiático, às exportações e à utilização de insumos industriais estratégicos, também conhecidos como terras raras, e aos serviços tecnológicos a eles associadas.
Nessas circunstâncias, soa exagerado o papel de protagonista assumido pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, no espetáculo de perseguição cega do ajuste fiscal, em aderência plena ao rígido regime de metas de inflação, estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Lembre-se que o regime preconiza o trânsito da subida de preços entre 1,5% a.a. e 4,5% a.a., buscando a convergência ao centro de 3% a.a., bastante superior ao padrão histórico nacional de 7% a.a., desde o extermínio da superinflação, a partir de julho de 1994, por meio da implantação do conjunto de medidas de neutralização da inércia, no contexto do Plano Real.
Em sendo guardião da estabilidade da moeda, o BC tem potenciado os perigos derivados de um panorama de aparente descompromisso com a responsabilidade fiscal, acoplado a sustentação de interesses voltados à antecipação da contenda e moldagem do calendário eleitoral de 2026, em face da permanência nos palanques dos adversários ou inimigos com possibilidades concretas de vitória.
Essas fraturas no corpo fiscal têm sido agravadas com o avanço do parlamento no orçamento, mediante a apropriação das escandalosas emendas (paroquiais, oportunistas, desprovidas de transparência e, não poucas vezes, surrupiadas dos propósitos declarados e protocolados quando da concepção, investigadas pela Polícia Federal) e das vergonhosas fortunas expressas nos fundos públicos eleitorais, repartidos entre os cabeças das coalizões suprapartidárias.
Não obstante a pertinência de condutas de precaução contra as estripulias na execução da peça orçamentária, cometidas pelos poderes executivo e legislativo, o BC vem deliberadamente multiplicando o peso das pressões inflacionárias oriundas das chances de descumprimento da meta fiscal.
Em contraposição, tem depreciado a influência exercidas pelos choques de oferta na formação de preços, para os quais a terapia de cavalares doses de austeridade monetária é absolutamente inócua e, o que é mais gritante, pode, em vez de curar, provocar a piora do quadro do paciente.
Cumpre resgatar que a propulsão fiscal, direcionada prioritariamente às iniciativas de proteção à população vulnerável, vem assegurando, desde o segundo semestre de 2022, ainda que por motivações eminentemente políticas, vitalidade à demanda doméstica.
Tanto que, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, a insegurança alimentar grave caiu de 4,1% do total de lares, em 2023, para 3,2%, em 2024. Ainda assim, trata-se de 2,5 milhões de famílias que sofreram carência quantitativa de comida, ou melhor, que passaram fome, o que demonstra a existência de apreciável espaço para a continuidade e aprofundamento das ações inclusivas.
Para reforçar, um exame da recente linha inflacionária brasileira, altista ou cadente, permite apreender a pronunciada interferência dos elementos de oferta ou custos, associada às flutuações cíclicas da disponibilidade e preços dos alimentos e de energia e da taxa de câmbio, sendo esta afetada por severas turbulências exógenas.
Logo, ao mesmo tempo em que os arautos do conservadorismo do BC advogam que a propensão de descaso com os propósitos de equilíbrio das contas públicas e respectivos desdobramentos inflacionários prejudicam o desencadeamento de rodadas de corte dos juros, os heterodoxos argumentam que o incremento de dispêndios governamentais serve à preservação do oxigênio ao organismo privado e público, este último asfixiado pela impulsão dos encargos com a rolagem da dívida, que equivalem a 7,6% do produto interno bruto (PIB).
Por essa perspectiva, no terreno da produção, inquérito efetuado pelo IBGE mostra que, apesar de ter registrado discreta recuperação em agosto, quando cresceu 0,8%, em comparação com julho, a indústria brasileira variou apenas 0,3%, na média móvel trimestral, e 0,9%, no acumulado de oito meses, com retração de -0,1%, na base, dominada por bens de capital ou de investimento, e -1,8%, na ponta, acusando o encurtamento da renda líquida disponível erodida por repiques inflacionários, e o encarecimento das compras à prazo e das dívidas.
Ressalte-se que entre janeiro e agosto, a contração da base foi amortecida pela expansão de 2,2% em bens intermediários, impulsionada pela performance da classe extrativa, principalmente petróleo, e a diminuição da ponta foi compensada pela ampliação de veículos, reboques e carrocerias, atrelada notadamente ao dinamismo do agronegócio, movido pela combinação de safra recorde de grãos e recuperação das cotações globais.
Em linha semelhante, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), revela apreciável declínio do grupo de variáveis de desempenho do parque de transformação nacional, no mês de agosto, puxadas pelo faturamento real, com desconto da inflação, que recuou -5,3%, em relação a julho.
Também foram mensurados recuos no rendimento médio real dos trabalhadores (-0,6%), na massa total de salários pagos (-0,5%) e nas horas trabalhadas na produção (-0,3), sendo que o único parâmetro que permaneceu estável foi o contingente empregado. Já o grau de utilização da capacidade instalada decresceu -0.5% frente ao mesmo mês de 2024.
No front dos sinalizadores de potencial de demanda, especificamente do consumo das famílias, sondagem da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), captou a continuidade da marcha ascendente do endividamento e inadimplência dos consumidores, em setembro de 2025.
Naquele mês, o inquérito constatou 79,2% de famílias endividadas (cartão, cheque especial, crédito pessoal e/ou consignado, carnês, financiamento de veículos e habitação, dentre outros), 30,5% com contas atrasadas (em média de 64,7 dias) e 13% sem condições de quitação, contra 77,2%, 29% e 12,4%, respectivamente, no mesmo mês de 2024.
O ruim é que 84,2% das pessoas possuem dívidas na modalidade mais custosa, representada pelo cartão de crédito, que no rotativo, cobrava juros anuais próximos de 450% ao ano, em agosto de 2025, segundo levantamento realizado pelo Banco Central do Brasil (BC).
Em direção análoga, volume de vendas do comércio varejista cresceu 0,2% em agosto em relação a julho, zero, na média móvel trimestral e 1,6% no acumulado do ano. Já os serviços subiram somente 0,1%, em agosto, em comparação com julho, 0,3%, no trimestre, e 2,6%, no acumulado entre janeiro e agosto.
Por conta disso, ao agrupar essas e algumas outras informações, o BC estimou que o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), prévia do PIB, cresceu 0,1%, em agosto, em confronto com julho, 0,9%, no trimestre, e 2,6%, no indicador acumulado em 2025.
A reversão do caminho de desaquecimento da economia e o deslocamento de nova estagnação cíclica depende indiscutivelmente da melhora do cenário global, por meio do gerenciamento dos focos de tropeços de ordem geopolítica, minimizados com o acordo de paz entre Israel e Hamas, sem abraçar a causa palestina, costurado e mediado pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
A equilíbrio mundial ainda requer a perseguição de rearrumação plena dos fluxos comerciais das cadeias de fornecedores de produtos primários e acabados, afetados pela ressureição das iniciativas protecionistas adotadas pelos americanos, no afã de obtenção de condições mais adequadas de negociação com os principais, inclusive aliados históricos.
Nesse particular, o encaminhamento de diálogo soberano entre os chefes de estado brasileiro e americano mostra-se fundamental ao “clima” – surgido em encontro relâmpago na Assembleia da ONU, em 23 de setembro, e coroado com conversa telefônica, em 06 de outubro – para acerto de cobrança de tarifas que não venham a representar verdadeiros embargos comerciais (caso da fixação dos 50%) e empecilhos aos fluxos de capitais públicos e privados em ambos os sentidos.
No plano interno, o escape da inflexão está sujeito à absorção e maturação das providências voltadas à preservação do movimento de ampliação do consumo, preponderantemente a isenção do imposto de renda e o adensamento das faixas alvo do crédito imobiliário subsidiado, que devem alcançar as categorias pobres e médias do espectro social.
Ainda mais crucial será a preparação, explicitação e negociação de ações direcionadas ao médio e longo prazo, imprescindíveis à recolocação da nação nos trilhos do crescimento sustentado, movido à alavancagem da commodity da inovação tecnológica, inteligência artificial e transações associadas, inclusão social e saúde financeira do governo, em suas três esferas: união, estados e municípios. Mas essa é uma outra conversa.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.



Parabéns Prof. Gilmar, por tocar na “ferida” ignorada pelos analistas que sorriem ao comentarem o momento atual da economia brasileira.