Casas Bahia e a crise estrutural do varejo

Casas Bahia e a crise estrutural do varejo

Especialista em varejo analisa como juros, endividamento e a lógica do sistema financeiro pressionam grandes redes e deixam pequenos e médios negócios em desvantagem

A recuperação judicial das Casas Bahia, com dívida de R$ 17,3 bilhões, expõe um problema que vai além da empresa. O grupo registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, patrimônio líquido negativo de R$ 8,1 bilhões e anunciou o fechamento de 298 lojas. Para Paulo Brenha, o caso mostra que faturamento e lucro não significam, necessariamente, saúde financeira.

“Uma empresa pode vender muito, apresentar lucro e ainda assim estar financeiramente sufocada. É como uma pessoa que recebe um bom salário, mas tem tantas dívidas que boa parte da renda já nasce comprometida”, compara.

Não é o varejo inteiro que quebrou

Enquanto grandes redes enfrentam reestruturações, o varejo brasileiro continua crescendo. Segundo o IBGE, o volume de vendas do varejo restrito avançou 2,9% em junho de 2026 na comparação anual e acumula alta de 1,9% no ano. A pressão está concentrada principalmente no varejo de bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, segmentos mais dependentes de crédito.

Em dois anos e meio, ao menos oito redes brasileiras renegociaram cerca de R$ 68 bilhões em dívidas por recuperação judicial ou extrajudicial, entre elas Americanas, Dia, Polishop, Casas Bahia e Marabraz. “Não estamos diante de um colapso do consumo, mas do fim de um modelo que crescia empurrado por crédito e escala, e não por margem”, avalia Brenha.

O cenário é agravado pelos juros. Com a Selic em 14% ao ano, o crédito ficou mais caro para empresas e consumidores. Em julho, o endividamento das famílias chegou a 82%, segundo a CNC, enquanto 29,5% da renda familiar estava comprometida com dívidas.

“Quando quase um terço da renda da família está reservado para dívidas antes de qualquer decisão de compra, o varejista está competindo com a fatura do cartão”, afirma. Apesar disso, a inadimplência recuou para 29,8% no mês, sinal de renegociação e maior priorização de gastos essenciais.

Quando o juro cresce mais rápido que a operação

Paulo Brenha.

Para Brenha, o problema também está na estrutura de financiamento. Grandes empresas acessam capital e negociam com fornecedores em condições mais favoráveis, enquanto pequenos e médios varejistas têm menos margem para absorver erros e períodos de baixa.

O caso das Casas Bahia ilustra esse descompasso. Mesmo com melhora operacional no segundo trimestre de 2026, a despesa financeira superava o Ebitda em mais de 200%. A companhia também tinha cerca de R$ 4 bilhões em dívida líquida, enquanto as obrigações incluídas na recuperação judicial chegaram a R$ 17,3 bilhões, considerando estruturas como FIDCs, risco sacado e compromissos com fornecedores.

“Muito varejista olha só para o empréstimo bancário e esquece que prazo de fornecedor, antecipação de recebível e risco sacado também são dívida”, explica.

O efeito dominó da confiança

A crise de liquidez também afeta fornecedores. No caso das Casas Bahia, restrições às linhas que garantiam vendas dos fabricantes contribuíram para a redução dos estoques, que passaram de R$ 5,4 bilhões em março para R$ 4,2 bilhões em junho.

O mecanismo vale para empresas de qualquer porte: quando fornecedores reduzem prazo, limite ou exigem pagamento antecipado, a operação pode travar por falta de estoque, mesmo que exista demanda.

Crescimento não é sinônimo de saúde financeira

Segundo o especialista, a busca permanente por faturamento pode criar uma armadilha. “O crescimento saudável não é simplesmente aumentar o faturamento. É aumentar a capacidade de gerar valor, remunerar o capital, investir na operação e continuar existindo no longo prazo”.

Com o custo de capital elevado, a lógica precisa mudar: primeiro margem, depois escala. O consumidor também mudou. Marketplaces, bancos digitais e plataformas de pagamento ampliaram as alternativas de preço e crédito, reduzindo vantagens históricas das grandes redes. “O consumidor não abandonou a loja física. Ele passou a chegar nela já informado, com preço na mão e alternativa de pagamento no bolso”.

O que pequenos e médios varejistas podem aprender

Brenha destaca cinco cuidados para operações de qualquer porte:

  • Medir margem de contribuição por categoria, e não apenas faturamento.
  • Mapear todo o passivo, incluindo antecipação de recebíveis, risco sacado e prazos de fornecedores.
  • Controlar o giro de estoque como indicador de caixa.
  • Considerar o custo do capital na precificação, especialmente em um cenário de juros elevados.
  • Construir diferenciais além do preço, como atendimento, serviço, sortimento, entrega e recorrência.

“Nenhuma empresa quebra da noite para o dia. Ela quebra devagar, tomando decisões que parecem corretas isoladamente: dar mais prazo, cobrir o preço do concorrente, abrir mais uma loja, alongar mais uma dívida. O caso das Casas Bahia é grande demais para ser ignorado e didático demais para ser desperdiçado”, finaliza.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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