Jogos de poder no trabalho: como identificar disputas políticas nas empresas e proteger a carreira

Jogos de poder no trabalho: como identificar disputas políticas nas empresas e proteger a carreira

Relações de influência são normais nas organizações

Promoções disputadas, decisões tomadas fora das reuniões oficiais, favoritismo, retenção de informações e grupos de influência. Situações como essas fazem parte dos chamados jogos de poder no ambiente corporativo, um fenômeno que pode impactar diretamente o clima organizacional, a produtividade e a trajetória profissional dos colaboradores.

Embora muitas vezes sejam associados a ambientes tóxicos, os jogos de poder não são, necessariamente, um sinal de que a empresa está em crise. Segundo o professor de Gestão de Pessoas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP)Marcelo Treff, as relações de influência são naturais em qualquer organização, já que fazem parte das interações humanas. O problema surge quando essas disputas passam a sobrepor critérios técnicos, éticos e transparentes.

“Jogos de poder são ações informais, nem sempre explícitas, que buscam aumentar ou manter a capacidade de influência sobre recursos, informações, decisões e status. Eles existem porque toda organização é um ambiente político, mas a forma como se manifestam revela muito sobre sua cultura”, explica o especialista.

Entre as manifestações mais comuns estão disputas por promoções, liderança, reconhecimento, distribuição de projetos estratégicos e conflitos entre áreas. Em ambientes pouco transparentes, essas situações podem abrir espaço para comportamentos como sabotagem, formação de grupos fechados, retenção de informações e relações baseadas em lealdades pessoais.

Competição saudável ou disputa tóxica?

Diferenciar uma competição legítima de uma disputa política prejudicial nem sempre é simples. De acordo com Treff, a principal diferença está na existência de critérios claros e conhecidos por todos.

“Na competição saudável, as regras são transparentes, os objetivos são mensuráveis e o foco está no desenvolvimento e na entrega de resultados. Já na competição tóxica prevalece a lógica do ‘vencer a qualquer custo’, criando medo, isolamento e individualismo”, afirma.

Quando esse cenário se instala, os impactos vão além das relações interpessoais. A colaboração diminui, a confiança entre equipes é comprometida e profissionais qualificados podem perder espaço para aqueles que desenvolvem maior influência política, independentemente de seu desempenho.

Os erros mais comuns dos profissionais

Ao longo de suas pesquisas sobre comportamento organizacional, Marcelo Treff identifica três atitudes recorrentes entre profissionais que enfrentam disputas internas.

A primeira delas é a chamada “miopia ingênua”, quando o colaborador acredita que política organizacional não existe e ignora as relações de influência presentes no ambiente de trabalho. O segundo erro é reagir impulsivamente aos conflitos, transformando divergências profissionais em confrontos pessoais. O terceiro é o isolamento, quando o colaborador deixa de compartilhar informações, reduz a comunicação e passa a atuar de forma defensiva.

“Isolar-se pode parecer uma forma de autoproteção, mas normalmente reduz a influência do profissional e enfraquece sua posição dentro da organização”, observa.

O desafio do trabalho híbrido

As transformações trazidas pelo trabalho remoto e híbrido também mudaram a forma como os jogos de poder acontecem dentro das empresas. Segundo o professor, a presença digital passou a exercer papel importante na percepção de visibilidade e influência.

“Hoje, profissionais que participam pouco das reuniões virtuais ou demoram para interagir nas plataformas digitais podem acabar sendo marginalizados, independentemente da qualidade do trabalho que entregam. O jogo de poder também passou pela gestão da presença digital.”

Além disso, o ambiente remoto reduziu a possibilidade de perceber sinais informais das relações organizacionais, como interações presenciais (quem almoça com quem, por exemplo), linguagem corporal e redes de relacionamento que antes eram mais facilmente identificadas.

Cultura organizacional baseada em disputas políticas

Para Treff, alguns sinais merecem atenção. Um dos principais é quando decisões relevantes deixam de ser tomadas nos canais formais e passam a acontecer em reuniões paralelas ou grupos de mensagens, tornando os processos oficiais apenas uma formalidade.

Outro indicativo importante é a chamada rotatividade seletiva: empresas que frequentemente perdem seus profissionais mais qualificados enquanto mantêm colaboradores que acumulam influência política (aquele que “puxa o saco do chefe”), mas apresentam baixa produtividade.

Esses comportamentos costumam indicar problemas estruturais na cultura organizacional e exigem atuação ativa da liderança e do setor de Recursos Humanos.

O papel das lideranças

Na avaliação do especialista, reduzir os efeitos negativos dos jogos de poder depende, sobretudo, do exemplo dado pelos líderes. “A liderança precisa evitar favoritismos, compartilhar informações com transparência e utilizar critérios objetivos para avaliar desempenho e tomar decisões. Feedbacks estruturados e conversas focadas nos problemas, e não nas pessoas, ajudam a diminuir o espaço para a politicagem.”

Já o RH deve assumir um papel estratégico, estabelecendo políticas claras, oferecendo mecanismos para prevenção e mediação de conflitos e garantindo justiça nos processos internos.

Crescer sem abrir mão da ética

Para profissionais em início de carreira, o docente da FECAP recomenda desenvolver uma postura estratégica sem abrir mão dos próprios valores. Isso significa observar atentamente a dinâmica da organização antes de agir, compreender as relações de influência que existem além do organograma formal, construir redes de relacionamento baseadas em confiança e evitar participar de práticas antiéticas, mesmo quando elas pareçam trazer vantagens imediatas.

“Não se trata de ignorar a política organizacional, mas de aprender a navegar por ela com integridade. A coerência é a base da confiança duradoura”, conclui.

Crédito da foto: Magnific

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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