Do fax à inteligência artificial: o que mudou na relação entre marcas e parceiros em mais de três décadas?

Do fax à inteligência artificial: o que mudou na relação entre marcas e parceiros em mais de três décadas?
Meire Medeiros.

Às vésperas do Dia do Cliente, executiva analisa como tecnologia, novas gerações de gestores e pressão por resultados transformaram as relações B2B 

Há mais de três décadas, um briefing podia chegar por fax, aprovações levavam dias e boa parte da relação entre empresas e seus parceiros era construída pelo telefone e em reuniões presenciais. Agora, projetos atravessam WhatsApp, plataformas colaborativas, dashboards, dados em tempo real e inteligência artificial. O intervalo entre uma demanda e uma resposta encolheu, a quantidade de informação explodiu e, com ela, aumentou a expectativa sobre quem está do outro lado da mesa.

Às vésperas do Dia do Cliente, celebrado em 15 de setembro, um levantamento global da McKinsey ajuda a dimensionar essa transformação. O Global B2B Pulse 2026, realizado com quase 4 mil tomadores de decisão em 13 países, mostra que compradores B2B utilizam, em média, dez canais ao longo da jornada de compra.

O estudo também aponta informações inconsistentes e falta de suporte qualificado entre os principais motivos para a troca de fornecedores. Quanto mais digital e fragmentada se torna a jornada, maior é a exigência por contexto, consistência e conhecimento.

Meire Medeiros acompanhou essa transformação de dentro. CEO do Grupo MM Eventos, empresa especializada em eventos B2B, a executiva está à frente da companhia, que completa 32 anos de fundação em 2026. No primeiro ano, foram mais de 300 projetos. Atualmente, o grupo realiza cerca de 2,9 mil eventos por ano.

“Ao longo de mais de três décadas, praticamente todas as ferramentas que usamos para trabalhar mudaram. A expectativa do cliente também. Há muito mais velocidade, informação e tecnologia disponíveis, o que tornou a execução mais eficiente, mas elevou a régua sobre o parceiro. O cliente não quer apenas alguém que faça. Quer alguém que entenda por que aquilo está sendo feito”, afirma Meire.

De fornecedor a parceiro de negócio

Para a executiva, uma das mudanças mais relevantes ocorreu justamente antes da execução. Se o briefing concentrava grande parte das informações necessárias para desenvolver um projeto, conhecer o negócio, o mercado e os objetivos da empresa passou a integrar a própria entrega.

“Um bom briefing continua sendo fundamental. Mas a relação mais rica começa antes dele. Quando você acompanha o negócio do cliente, conhece sua cultura e entende seus desafios, consegue fazer perguntas melhores e trazer possibilidades que talvez ainda nem estivessem colocadas na mesa”, diz.

A evolução também aparece nas estruturas corporativas. Ao longo de mais de três décadas, novas gerações de profissionais chegaram à liderança, as áreas de marketing se aproximaram de dados, vendas e negócios e os processos de decisão ganharam novas camadas. Nesse ambiente, relações B2B de longo prazo preservam uma vantagem difícil de acelerar: o contexto acumulado sobre a empresa e seus desafios.

No Grupo MM Eventos, essa longevidade não é apenas uma percepção. A companhia mantém clientes há décadas, alguns deles em relações construídas ao longo de diferentes gerações de gestores, transformações tecnológicas e mudanças na própria dinâmica do mercado.

“Existe um valor enorme em conhecer a história de uma empresa, o que ela já experimentou e como pensa. Mas esse conhecimento só tem valor quando ajuda a olhar para frente. Uma relação de longo prazo não pode significar fazer sempre da mesma maneira. Precisa significar evoluir com mais contexto”, afirma.

IA muda novamente a equação

A inteligência artificial acrescenta outra camada a esse cenário. Tarefas operacionais ganham velocidade, enquanto informações, referências e alternativas ficam disponíveis quase instantaneamente. O comportamento de compra B2B já reflete essa mudança: pesquisa divulgada pelo Gartner em 2026 mostrou que 45% dos compradores consultados utilizaram inteligência artificial generativa em uma compra recente, principalmente para pesquisar fornecedores e produtos. Ainda assim, 69% disseram preferir validar com profissionais as informações geradas por IA.

Para Meire, os números ajudam a mostrar por que tecnologia e relacionamento não caminham em direções opostas. A automação redefine o papel das pessoas e dos parceiros, mas não elimina a necessidade de confiança, repertório e leitura de contexto.

“Quanto mais a tecnologia resolve o operacional, menos sentido faz competir apenas pela capacidade de executar. O diferencial passa por repertório, confiança, leitura de contexto e capacidade de pensar junto. Tecnologia acelera muita coisa, mas conhecer profundamente um cliente ainda leva tempo”, afirma.

O valor de conhecer antes do briefing

É justamente antes de uma nova demanda chegar que uma relação B2B longeva pode revelar sua maior vantagem. Com conhecimento acumulado sobre estratégia, cultura e objetivos, o parceiro consegue entrar na discussão mais cedo, fazer perguntas, identificar necessidades e ampliar possibilidades antes de receber uma solicitação fechada.

“Para mim, uma das maiores demonstrações de parceria é quando você conhece o cliente o suficiente para contribuir antes que ele precise pedir. Não é adivinhar o que ele quer. É acompanhar o negócio tão de perto que você consegue pensar junto. É aí que a relação deixa de ser apenas uma sequência de projetos e passa a gerar valor de verdade”, afirma.

Depois de mais de três décadas à frente do Grupo MM Eventos, Meire vê na combinação entre conhecimento acumulado e capacidade de mudança a base das relações que atravessam diferentes ciclos.

“Ter história com um cliente é muito valioso. Mas o que mantém uma relação viva é continuar construindo futuro juntos. Temos muito mais ferramentas para trabalhar, mas parceria continua dependendo da capacidade de permanecer relevante”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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