Recusa de cartão pode comprometer faturamento de empresas

Recusa de cartão pode comprometer faturamento de empresas

Falhas na autorização nem sempre indicam falta de limite do cliente e colocam a taxa de aprovação entre os indicadores que merecem atenção das equipes comerciais

O vendedor apresenta a proposta, negocia as condições, recebe o aceite do cliente e envia o link de pagamento. Quando tudo parece resolvido, o cartão é recusado. O problema ganha relevância diante do crescimento das transações digitais no Brasil. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as compras remotas com cartões movimentaram R$633 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Para Antonio Alfonso, CEO da Sinnu, empresa brasileira especializada em processamento de pagamentos para negócios com vendas consultivas, equipes comerciais e transações de maior valor, uma cobrança negada não significa necessariamente falta de dinheiro ou limite disponível. “Muitas empresas investem em marketing, treinam vendedores e estruturam processos comerciais, mas não acompanham o que acontece depois que o cliente aceita a proposta. Quando o pagamento falha, todo esse trabalho pode ser comprometido”, explica.

Gustavo Oliveira, CMO da Sinnu, acrescenta que a falha também pode comprometer o investimento realizado para conquistar o cliente. “A empresa investe em divulgação, atrai o consumidor e mobiliza uma equipe para fechar a negociação. Quando o pagamento não é concluído, todo esse esforço comercial pode ser perdido por uma dificuldade que não está relacionada à decisão de compra”, afirma.

A situação é especialmente delicada para negócios que dependem de vendas consultivas, como agências de viagens, instituições de ensino, clínicas, empresas de serviços e organizadoras de eventos. Nessas operações, cada contrato pode representar milhares de reais e envolver dias ou semanas de negociação.

Por que o cartão pode ser recusado mesmo com limite disponível

Entre a tentativa de pagamento e sua aprovação, diferentes sistemas participam do processamento. O banco emissor, responsável pelo cartão do cliente, avalia a autorização. A adquirente participa do encaminhamento da operação, enquanto ferramentas de prevenção a fraudes podem identificar riscos e impedir que determinadas transações avancem.

O valor da compra, a quantidade de parcelas, os dados informados e o comportamento da operação também podem influenciar a análise. Uma cobrança muito diferente do padrão habitual do titular, por exemplo, pode despertar mecanismos de segurança, mesmo quando há limite disponível.

“Uma compra de valor elevado pode passar por verificações adicionais porque foge do comportamento habitual daquele cartão. O problema é quando a empresa recebe apenas a informação de que a transação foi recusada e não consegue identificar o que precisa ser feito para recuperar aquela venda”, explica Alfonso.

O impacto das dificuldades na etapa financeira também aparece em uma pesquisa divulgada pela Visa Conecta, em fevereiro de 2026. Entre os consumidores que desistiram de finalizar uma compra online, 58% abandonaram a operação no momento do pagamento. Desse total, 37 pontos percentuais correspondem à escolha do meio de pagamento e 21 pontos percentuais à inserção ou confirmação dos dados. O levantamento trata do comércio eletrônico e não mede especificamente recusas de cartões em vendas consultivas.

A taxa de aprovação também é um indicador comercial

Embora seja comum acompanhar quantidade de propostas, conversão de vendedores e valor médio dos contratos, nem sempre as empresas incluem a taxa de aprovação dos pagamentos nos relatórios comerciais.

O indicador mostra a proporção de tentativas de pagamento autorizadas e permite investigar onde surgem dificuldades na conclusão das compras. A análise pode considerar valores, número de parcelas, canais de cobrança, bancos emissores e motivos de recusa, quando essas informações estão disponíveis.

Para Oliveira, o acompanhamento também precisa fazer parte das decisões de marketing. “A conversão não deveria ser medida apenas até o momento em que o consumidor aceita comprar. Se uma empresa conquista cem clientes, mas parte deles não consegue pagar, existe uma diferença entre o resultado comercial esperado e o faturamento efetivo. É preciso entender quanto da receita está ficando pelo caminho”, avalia.

Na avaliação de Alfonso, identificar o motivo das negativas permite adotar medidas mais adequadas para cada situação. Algumas exigem contato com o banco emissor, correção de informações, autenticação adicional ou oferta de outra forma de pagamento. Nem toda recusa permite uma nova tentativa, e insistir na mesma cobrança sem compreender o problema pode provocar novos bloqueios.

Tecnologia busca reduzir falhas na etapa de pagamento

Foi a dificuldade de empresas em concluir pagamentos de vendas já negociadas que motivou a criação da Sinnu, em 2025. A companhia nasceu da união das experiências de Alpha, Blue Ocean e Cakto, com o objetivo de desenvolver uma infraestrutura capaz de reduzir obstáculos na autorização de transações e dar mais controle sobre o processo de cobrança.

Com R$ 5 milhões investidos em capital próprio, a empresa desenvolveu tecnologias para gateway, checkout, antifraude e orquestração de pagamentos. Entre os recursos estão a identificação dos motivos de recusa informados pelos bancos emissores, a autenticação adicional para operações de maior valor e o acompanhamento dos indicadores de aprovação.

A estrutura também contempla links de pagamento que podem ser enviados por vendedores durante uma negociação por WhatsApp, telefone ou atendimento personalizado. Além de facilitar a cobrança, a plataforma permite acompanhar o desempenho das transações e identificar dificuldades que poderiam passar despercebidas pela equipe comercial.

Para Alfonso, o objetivo é aproximar o processamento financeiro das necessidades de empresas que dependem de negociações de maior valor. “Quando uma venda representa milhares de reais e exigiu dias de negociação, uma recusa não pode ser tratada apenas como uma mensagem de erro. É preciso entender o que aconteceu e quais alternativas existem para concluir aquela operação sem comprometer a segurança”, afirma.

O que as empresas precisam revisar antes do fim do ano

Com a proximidade da Black Friday e das campanhas comerciais de novembro e dezembro, o aumento esperado no volume de negociações reforça a importância de revisar a etapa de pagamento. Além de preparar equipes e ofertas, as empresas precisam verificar a integração entre os canais de venda e cobrança, acompanhar os motivos das recusas e definir como o vendedor deve agir quando uma transação não é autorizada.

Para Gustavo Oliveira, essa preparação também interfere na experiência do consumidor. Uma cobrança recusada sem explicação ou alternativa pode gerar insegurança e fazer com que o cliente desista da contratação, mesmo depois de demonstrar interesse pelo serviço.

“Quando alguém já passou por uma negociação e decidiu comprar, a última coisa que espera é encontrar dificuldades para pagar. Se a empresa não consegue orientar esse cliente, corre o risco de perder não apenas aquela venda, mas também a confiança construída durante o atendimento”, afirma o CMO.

O cuidado exige equilibrar conversão e segurança. Reduzir barreiras desnecessárias pode melhorar a experiência do comprador, mas flexibilizar indiscriminadamente os mecanismos antifraude expõe a operação a outros prejuízos.

“Melhorar a aprovação não significa aprovar qualquer transação. Significa entender onde estão as falhas, preservar os controles de segurança e evitar que uma compra legítima seja perdida por um problema que poderia ser identificado. A venda só termina quando o pagamento é concluído”, conclui Alfonso.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *