47% dos brasileiros têm alto estresse financeiro

Endividamento, dificuldade de poupar e preocupação com o futuro mostram os limites do planejamento financeiro e ampliam a discussão sobre gestão de riscos pessoais
Em períodos de maior incerteza econômica, planejar as finanças pessoais deixa de ser apenas uma questão de organizar receitas e despesas. Para uma parcela significativa dos brasileiros, a dificuldade de formar reservas, o peso das dívidas e a preocupação com a renda tornam qualquer imprevisto capaz de comprometer o orçamento. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da ANBIMA em parceria com o Datafolha, mostra que 47% da população apresenta alto nível de estresse financeiro e que cerca de um terço gasta mais do que ganha.
Segundo o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas do Serasa, 83,9 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em julho de 2026, o equivalente a mais de 348 milhões de dívidas em aberto, que somavam R$586,4 bilhões. No mesmo levantamento, 50% dos consumidores disseram ter gastado mais do que planejavam no primeiro semestre, enquanto 49% afirmaram que pretendem quitar dívidas até o fim do ano.
O quadro se torna mais sensível quando considerado o nível de endividamento das famílias. Segundo o Banco Central, o indicador de endividamento das famílias chegou a 49,9% em fevereiro de 2026, enquanto o comprometimento de renda alcançou 29,7%, ambos com alta em 12 meses. Em outras palavras, uma parcela relevante da renda já está comprometida antes mesmo de surgir uma despesa inesperada.
Para Marcelo Biasoli, CEO da 123Seguro, esse contexto aumenta o impacto que um imprevisto pode ter sobre as finanças pessoais.
“Quando existe pouco espaço no orçamento, o impacto de um imprevisto é muito maior. Por isso, autonomia financeira não significa apenas conseguir poupar ou investir, mas também entender quais riscos podem comprometer essa estrutura e quais podem ser transferidos ou protegidos”, afirma o executivo.
A dificuldade não está apenas na capacidade de guardar dinheiro. Pesquisa da Febraban com o Ipespe mostra que 55% dos brasileiros dizem entender pouco ou nada de educação financeira, embora 75% afirmam prestar muita ou alguma atenção ao controle das próprias finanças. Para Biasoli, o dado mostra que planejamento financeiro envolve também entender como lidar com riscos que podem comprometer o orçamento.
Nesse cenário, o seguro aparece como uma das ferramentas de proteção financeira. Dados da Susep mostram que os seguros de pessoas cresceram 12,7% em termos nominais em 2025, enquanto a arrecadação do segmento chegou a R$78,8 bilhões, segundo a CNseg.
A lógica, porém, é diferente de uma reserva de emergência ou de um investimento. Enquanto a reserva oferece liquidez para despesas inesperadas e os investimentos buscam formação de patrimônio, o seguro permite transferir determinados riscos financeiros para uma seguradora, conforme as coberturas e condições contratadas.
“Não existe uma única solução para proteger a vida financeira. A pergunta mais importante é quais riscos uma pessoa consegue absorver sozinha e quais poderiam comprometer todo o planejamento. A partir daí, fica mais fácil entender onde faz sentido ter liquidez, onde investir e onde contar com uma proteção securitária”, explica Biasoli.
A discussão ganha importância em um cenário no qual o planejamento financeiro ainda convive com restrições concretas de renda e endividamento. A estratégia, portanto, não está em prever o que acontecerá com a economia, mas em criar condições para que cada família atravesse diferentes cenários sem comprometer todo o patrimônio construído.








