Ataque bilionário à Binance expõe falhas de autenticação e riscos na custódia de criptomoedas

Após roubo estimado em US$ 6,3 bilhões, especialista alerta para a concentração de permissões de acesso e a necessidade de separar reservas digitais de ambientes conectados à internet
O ataque hacker à Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, que resultou no desvio estimado de US$ 6,3 bilhões, cerca de R$ 33 bilhões, expôs vulnerabilidades nos mecanismos de autorização de transações e na custódia de ativos digitais. O incidente, registrado na quinta-feira (29), levou à suspensão temporária de saques e mobilizou empresas de inteligência blockchain e autoridades para rastrear os recursos.
A investigação inicial da Binance apontou o possível comprometimento do notebook de um engenheiro de DevOps, que teria permitido aos invasores acessar componentes internos e executar retiradas não autorizadas. Nesta sexta-feira (30), a empresa informou ter identificado outros pontos de invasão, indicando que o ataque foi mais complexo do que a hipótese inicial sugeria. A corretora afirma não ter encontrado evidências de vazamento das chaves privadas de suas carteiras.
Para Marco Zanini, CEO da DINAMO Cyber Security Company, o episódio reforça a necessidade de controles de autenticação mais rigorosos e de maior segregação dos recursos mantidos pelas corretoras.
“A fraude começou pelo notebook de um desenvolvedor lá da própria Binance. Certamente, esse cara tinha um acesso privilegiado que dava direito de fazer as transferências de chave de um lugar para outro. Esse é um grande furo de autenticação. De novo, é uma fraude assim como as outras desde lá atrás, no Pix, que são fraudes ligadas à fragilidade de autenticação. Pra você fazer uma transação dessas você precisa ter autenticação forte, ter múltiplos fatores de autenticação ou mais de uma pessoa. Não dá para o acesso de uma única pessoa ter direito de acesso às chaves de transferência.”
Além da proteção das credenciais, o especialista destaca a importância de limitar a quantidade de criptoativos disponível em ambientes permanentemente conectados. A distinção entre carteiras quentes, utilizadas para movimentações frequentes, e carteiras frias, mantidas offline, permite reduzir a exposição das reservas a incidentes que atinjam a infraestrutura operacional de uma plataforma.
“A gente tem defendido que para as melhores práticas de custódia de chave de criptoativos você precisa de um ambiente quente e um ambiente frio. O ambiente quente é online, onde você consegue transferir a chave na hora. Custódia fria é um ambiente desplugado da internet. Você deixa sua reserva lá e à medida que você precisa fazer transferência de fundos, você vai faz uma carga no ambiente quente. Já existe legislação no mundo, principalmente na Ásia, que diz que uma das melhores práticas é deixar mais ou menos 5% da sua reserva em custódia quente e 95-90% em custódia fria. Eventualmente, se alguém tem que fazer uma transferência grande, precisa avisar com 24 horas de antecedência, como os bancos faziam antigamente quando você ia sacar dinheiro. Se você ia sacar um valor alto, você precisava avisar antes para que pudesse reservar esse dinheiro.”
Perdas serão cobertas
A dimensão do incidente também colocou em evidência os mecanismos de contenção disponíveis no mercado de criptoativos. Segundo a Binance, aproximadamente US$ 3 bilhões dos recursos atingidos foram congelados com a colaboração de parceiros do setor. A empresa anunciou que cobrirá as perdas com recursos próprios e de seu fundo de proteção aos usuários, enquanto trabalha para restabelecer os serviços de retirada.
No Brasil, a operação local informou que os ativos dos clientes permanecem protegidos em carteiras frias e que os saques de criptoativos continuam temporariamente suspensos por precaução. A corretora também declarou que os demais serviços seguem funcionando normalmente. Para Zanini, incidentes dessa magnitude demonstram as consequências de flexibilizar controles de segurança em favor da agilidade operacional.
“O que tá acontecendo hoje nas fraudes em geral é que as melhores práticas não estão sendo seguidas. Alguma negligência desse controle de segurança está sendo feita em detrimento da facilidade de uso, e isso está mostrando vulnerabilidades que estão sendo exploradas pelos hackers para conseguir fazer transferências de fundo ou fazer reserva. Neste caso, as notícias dizem que o ataque veio da Coreia do Norte. Se foi ou não foi, de qualquer forma, eles exploraram uma vulnerabilidade que seria relativamente simples proteger.”
A autoria do ataque ainda não foi confirmada oficialmente, embora empresas especializadas em rastreamento de transações tenham apontado indícios de participação de grupos associados à Coreia do Norte. A Binance prometeu divulgar um relatório técnico após a conclusão das investigações, que deverá esclarecer a sequência do comprometimento e os controles efetivamente contornados pelos invasores.








