Consórcio ou quitar dívidas: o que deve vir primeiro?

Recorde de negativados no país reforça a importância de reorganizar o orçamento antes de assumir compromissos de longo prazo para comprar carro ou imóvel
O Brasil tem mais de 75 milhões de consumidores inadimplentes, o maior número da série histórica da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil. O contingente representa 44,75% da população adulta e reacende uma dúvida para quem, mesmo com contas em atraso, pensa em começar a formar patrimônio: faz sentido entrar em um consórcio enquanto ainda existem pendências no cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos?
Para Leonardo Baldez Augusto, economista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), fundador e CEO do Grupo ISF Soluções Financeiras, ecossistema que atua nas áreas de consórcio, crédito e meios de pagamento, a resposta depende principalmente do tipo e do custo da dívida. Na maior parte dos casos envolvendo crédito caro ou contas já vencidas, porém, reorganizar o orçamento deve vir antes de assumir uma nova obrigação de longo prazo.
“Não faz sentido começar um projeto de formação de patrimônio enquanto uma dívida cara cresce do outro lado. Antes de assumir uma nova parcela, o consumidor precisa entender quanto está pagando pelos compromissos que já possui e se existe espaço real no orçamento para uma nova obrigação”, afirma.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Em julho, cada inadimplente brasileiro devia, em média, R$5.205,30 e tinha pendências com 2,34 empresas credoras. Os bancos concentravam 65,91% das dívidas em atraso.
Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, também mostrou que o cartão de crédito aparece em 42% das pendências entre os negativados pesquisados. Empréstimos em bancos ou financeiras aparecem em 26%, crediários em 23% e cheque especial em 16%.
A dívida mais cara tende a ter prioridade
A existência de uma dívida, por si só, não significa que o consumidor precise abandonar qualquer plano de aquisição. Um financiamento imobiliário com prestações organizadas, por exemplo, é diferente de uma fatura de cartão que entrou no rotativo ou de um cheque especial utilizado mensalmente para completar a renda.
É essa distinção que, segundo Baldez, deveria orientar a decisão.
“Ter uma dívida não é necessariamente sinônimo de desorganização financeira. A pergunta é que dívida é essa. Se a pessoa possui um compromisso previsto no orçamento e consegue pagá-lo normalmente, a análise é uma. Se está usando cartão, cheque especial ou outro crédito para conseguir fechar o mês, assumir mais uma parcela tende a aumentar o problema”, explica.
A própria CNDL identificou um comportamento que mostra a dificuldade de interromper esse ciclo. Pesquisa divulgada em julho apontou que 81% dos inadimplentes entrevistados utilizaram algum tipo de crédito para pagar outra dívida no último ano. Entre eles, 25% disseram recorrer à prática mensalmente.
Para o economista, esse é um dos principais sinais de que ainda não chegou o momento de assumir um compromisso voltado à compra de patrimônio.
“Se o consumidor precisa do limite do cartão para pagar uma parcela e depois usa outro crédito para cobrir o cartão, a prioridade não deveria ser adquirir um novo bem. O primeiro objetivo precisa ser interromper essa sequência”, ressalta.
Consórcio não deve substituir reserva de emergência
A discussão ganha relevância enquanto o próprio mercado de consórcios cresce. O sistema encerrou junho com 13,36 milhões de participantes ativos, avanço de 12,6% em um ano e novo recorde. No primeiro semestre, foram vendidas 2,82 milhões de cotas, enquanto o volume de créditos comercializados chegou a R$ 278,99 bilhões, alta de 25,5%, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).
Baldez chama atenção, porém, para um erro de interpretação: tratar a parcela como uma espécie de poupança obrigatória e entrar no grupo antes de construir uma reserva mínima para imprevistos.
O consórcio é uma modalidade de autofinanciamento destinada à aquisição de bens ou serviços. A contemplação ocorre por sorteio ou lance e depende da existência de recursos no grupo. O pagamento antecipado das parcelas, inclusive, não garante que o participante será contemplado antes, conforme explica o Banco Central.
“Consórcio pode participar de uma estratégia de construção patrimonial, mas não deveria ocupar o lugar da reserva de emergência. Se qualquer imprevisto faz o consumidor deixar de pagar a parcela, significa que aquele compromisso provavelmente entrou cedo demais no orçamento”, aponta.
Qual deveria ser a ordem?
Para quem possui dívidas caras e deseja adquirir um carro, imóvel ou outro bem no futuro, Baldez recomenda começar pelo diagnóstico do orçamento.
O primeiro passo é listar saldo devedor, taxa, prestação e prazo de cada compromisso. Na sequência, o consumidor deve priorizar a renegociação ou amortização das modalidades mais onerosas e evitar contratar novo crédito apenas para cobrir parcelas anteriores.
Depois dessa reorganização, entra a formação de uma reserva compatível com as despesas essenciais da família. Somente então a aquisição planejada de patrimônio deve ser dimensionada de acordo com a renda disponível.
“Não existe uma regra de que a pessoa precise estar sem nenhuma dívida para entrar em um consórcio. O que precisa existir é equilíbrio. A parcela não pode disputar espaço com alimentação, moradia, contas básicas ou com dívidas que crescem rapidamente”, afirma.
A avaliação também deve considerar o momento em que o bem será necessário. Como não existe garantia de data para contemplação, o consumidor que precisa imediatamente de um carro ou imóvel deve analisar outras possibilidades e comparar os custos e condições de cada alternativa.
Quando ter dívida e entrar em um consórcio pode fazer sentido
Há situações, segundo Baldez, em que os dois compromissos podem coexistir. É o caso de uma pessoa com financiamento contratado em condições controladas, pagamentos em dia, reserva de emergência formada e renda suficiente para iniciar o planejamento de outra aquisição sem prejudicar o orçamento.
O problema surge quando o desejo de construir patrimônio passa à frente da necessidade de corrigir um desequilíbrio financeiro já existente.
“Comprar patrimônio é importante, mas a ordem das decisões importa. Quitar uma dívida cara também é uma forma de melhorar o patrimônio, porque reduz um passivo que consome renda todos os meses. O consumidor não precisa correr para começar um consórcio. Precisa chegar ao momento em que consegue mantê-lo sem depender de outra dívida para pagar a parcela”, conclui.








