Por que não falamos quanto ganhamos de salário?

Por que não falamos quanto ganhamos de salário?

Ausência de planejamento financeiro atinge 55% das classes A, B e C, reforçando que o problema é estrutural e não limitado às faixas de menor renda

Mesmo com o avanço da digitalização dos serviços bancários e o acesso ampliado a informações sobre investimentos, falar sobre salário ainda é um tema sensível para muitos brasileiros. A renda costuma ser tratada como assunto estritamente privado, evitado no ambiente de trabalho e, muitas vezes, silenciado até em conversas familiares. Esse comportamento revela um tabu cultural que vai além da discrição e influencia diretamente a forma como lidamos com o dinheiro no dia a dia.

A dificuldade em falar sobre quanto se ganha está ligada também à maneira como aprendemos, ou deixamos de aprender, sobre finanças. Um levantamento da Nexus aponta que 55% dos brasileiros das classes A, B e C não realizam planejamento financeiro. O dado reforça que a desorganização não está concentrada nas camadas de menor renda, mas atravessa diferentes faixas sociais, indicando uma lacuna estrutural de educação financeira no país.

Na prática, a ausência de planejamento faz com que decisões sejam tomadas no curto prazo, muitas vezes guiadas por urgências e emoções. Sem controle claro de receitas e despesas, torna-se mais difícil criar reserva de emergência, definir metas ou estruturar objetivos de médio e longo prazo. O resultado é uma sensação constante de instabilidade, independentemente do valor recebido mensalmente.

O livro A Psicologia Financeira, de Morgan Housel, reforça que lidar com dinheiro tem menos relação com fórmulas matemáticas e mais com comportamento. Segundo o autor, decisões financeiras são moldadas por experiências pessoais, crenças e emoções. Quando o salário é tratado como segredo, cria-se um ambiente de insegurança e comparação silenciosa, que dificulta negociações e planejamento consciente.

O tabu em torno da renda também impacta a trajetória profissional. A falta de transparência limita referências de mercado, enfraquece negociações salariais e reduz a capacidade de avaliar oportunidades com clareza. Sem diálogo, muitos profissionais acabam tomando decisões reativas, baseadas apenas na necessidade imediata, e não em estratégia de crescimento ou estabilidade futura.

Para Jéssica Giustino, superintendente de franquias do CEBRAC (Centro Brasileiro de Cursos), romper esse silêncio é um passo importante para ampliar a autonomia financeira. “Quando o dinheiro não é tratado como tema de aprendizado, ele acaba cercado por insegurança. Falar sobre salário, planejamento e metas financeiras é fundamental para que as pessoas desenvolvam uma relação mais consciente com sua realidade econômica”, afirma.

Segundo ela, educação financeira deve ser entendida como uma competência essencial da vida adulta. “Planejar não significa apenas investir, mas compreender quanto se ganha, como se gasta e quais objetivos se deseja alcançar. Essa clareza impacta decisões de consumo, carreira e qualidade de vida”, explica. Quanto mais cedo esse aprendizado acontece, maiores são as chances de construir estabilidade ao longo do tempo.

Nesse contexto, o CEBRAC oferece um curso gratuito de educação financeira, voltado a jovens e adultos que desejam organizar melhor sua vida econômica. O conteúdo aborda controle de gastos, definição de metas, planejamento financeiro e consumo consciente, tornando o tema mais acessível e prático. A proposta é transformar o dinheiro em assunto cotidiano, reduzindo o tabu e fortalecendo a tomada de decisões mais estratégicas.

Em um país onde mais da metade da população não realiza planejamento financeiro, independentemente da classe social, ampliar o debate sobre salário e organização financeira representa uma mudança cultural necessária. Falar sobre dinheiro não é exposição, mas um instrumento de aprendizado e autonomia. Tornar esse diálogo mais aberto pode contribuir para decisões mais seguras, estabilidade econômica e trajetórias profissionais mais sustentáveis.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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