Pressão por resultado leva empresas a trocar equipes sem resolver o problema

Decisões impulsivas podem custar mais caro do que insistir com critério
Trocar profissionais, interromper projetos ou mudar estratégias logo após os primeiros resultados negativos tornou-se uma resposta frequente dentro das empresas. A prática, muitas vezes estimulada pela pressão por desempenho de curto prazo, pode transmitir a sensação de agilidade, mas nem sempre resolve a origem do problema. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostra que apenas 21% dos trabalhadores estavam engajados em 2025, enquanto o baixo engajamento gerou perdas estimadas em US$ 438 bilhões para a economia global, reforçando o impacto que decisões de liderança exercem sobre os resultados das organizações.
Alexandre Slivnik, especialista em Recursos Humanos e Treinamento, diretor executivo do IBEX (Institute for Business Excellence), instituição dedicada ao desenvolvimento de líderes e à excelência empresarial, afirma que muitas empresas ainda confundem confiança na equipe com teimosia. Segundo ele, a diferença está na capacidade de tomar decisões sustentadas por evidências, e não pela pressão do momento. “A confiança na liderança significa manter uma estratégia enquanto existem sinais concretos de evolução. A teimosia começa quando os dados mostram outro caminho, mas o gestor insiste apenas para defender uma decisão que já perdeu sentido.”
Na prática, resultados abaixo do esperado nem sempre indicam falhas de pessoas ou de estratégia. Projetos recém implantados, mudanças de processos e equipes em formação costumam passar por um período de adaptação antes de atingir estabilidade. Quando esse ciclo é interrompido cedo demais, a empresa perde conhecimento, aumenta a insegurança dos colaboradores e reduz sua capacidade de executar mudanças consistentes.
A pressão não pode decidir pela liderança
A velocidade exigida das empresas também alterou a forma como gestores tomam decisões. Um estudo da McKinsey aponta que equipes de liderança ainda enfrentam dificuldades para lidar com opiniões divergentes, administrar conflitos e construir ambientes de confiança, fatores que comprometem a qualidade das decisões estratégicas e a execução dos negócios.
Na avaliação do diretor executivo do IBEX, bons líderes definem critérios antes mesmo de iniciar um projeto. Indicadores de desempenho, prazos compatíveis e metas intermediárias servem como referência para decidir se é momento de insistir, ajustar a rota ou encerrar uma iniciativa.
“Trocar pessoas costuma ser a decisão mais rápida. Descobrir a verdadeira origem do problema exige análise. Muitas vezes, a dificuldade não está na equipe, mas na falta de direcionamento, de recursos ou na própria estratégia adotada pela liderança”, afirma Slivnik.
Trocar pessoas nem sempre resolve o problema
Antes de substituir profissionais ou abandonar projetos, o especialista recomenda que gestores respondam algumas perguntas essenciais: a equipe recebeu recursos suficientes para executar o trabalho? O prazo estabelecido era compatível com a complexidade da entrega? Os indicadores mostram evolução, ainda que gradual? O problema está na execução ou na estratégia? A decisão está baseada em fatos ou apenas na pressão por resultados imediatos?
Responder a essas questões reduz o risco de mudanças precipitadas e aumenta a qualidade das decisões gerenciais. Organizações que criam processos claros de acompanhamento conseguem corrigir desvios sem comprometer o desenvolvimento das equipes ou desperdiçar investimentos realizados.
Excelentes líderes sabem a hora de insistir e a hora de mudar
Além de elevar custos com novas contratações e treinamentos, mudanças constantes enfraquecem a confiança dos colaboradores. O receio de ser substituído diante do primeiro resultado negativo reduz a disposição para inovar, assumir responsabilidades e propor soluções, criando ambientes mais conservadores e menos colaborativos.
Para o professor convidado do MBA de Gestão Empresarial da FIA/USP, liderar não significa manter pessoas ou projetos indefinidamente, mas garantir tempo suficiente para que sejam avaliados com critérios objetivos. “Líderes inseguros mudam de direção para responder à pressão. Líderes preparados mudam quando os fatos demonstram que chegou a hora. O maior erro é desistir antes de entender onde realmente está o problema”, conclui.








