Conhecer uma fábrica na China pode valer mais do que horas de negociação

Conhecer uma fábrica na China pode valer mais do que horas de negociação

Visitas presenciais ampliam a leitura sobre qualidade customização escala e potencial de desenvolvimento com fornecedores

A busca presencial por fornecedores chineses continua mobilizando compradores de diferentes partes do mundo. A 139ª Feira de Cantão, realizada entre abril e maio de 2026 em Guangzhou, cidade localizada no sul da China e capital da província de Guangdong, recebeu mais de 314 mil compradores estrangeiros de 220 países e regiões, recorde de participação internacional.

Os pedidos pretendidos durante o evento chegaram a US$ 25,7 bilhões e, segundo o Ministério do Comércio da China, muitos compradores já programavam visitas posteriores a fábricas.Para Gustavo Braz, CEO do Grupo PMD, empresa que atua nos segmentos de importação, distribuição e desenvolvimento empresarial, o movimento ajuda a explicar por que conhecer pessoalmente quem produz pode mudar decisões de compra.

“Uma foto, um catálogo e uma conversa pelo WhatsApp mostram aquilo que o fornecedor quer apresentar. Quando o empresário entra na fábrica, ele começa a enxergar o que aquela empresa realmente consegue fazer. Muitas oportunidades de produto surgem justamente nesse contato, olhando máquinas, materiais, testes e soluções que nem estavam sendo negociadas inicialmente”, afirma Gustavo.

A diferença está no acesso à operação. Durante uma visita, o importador consegue observar a organização da linha de produção, processos de controle de qualidade, capacidade instalada, matérias primas utilizadas e nível de automação. Também pode comparar o discurso comercial com a estrutura disponível para cumprir volume, prazo e especificações.

Compras brasileiras

Esse cuidado ganha relevância diante do peso da China nas compras brasileiras. De janeiro a agosto de 2026, o Brasil importou US$ 51,56 bilhões em mercadorias do país asiático, avanço de 9,5% sobre igual intervalo do ano anterior. A origem chinesa já representa 26,4% de tudo o que entra no mercado nacional.

Ao mesmo tempo, a indústria local tornou-se mais sofisticada. Em 2025, o valor adicionado da manufatura chinesa de alta tecnologia cresceu 9,4%, enquanto a produção de equipamentos avançou 9,2%, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas da China. O país também investiu mais de 3,9 trilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento no período, o equivalente a 2,8% do PIB.

Na prática, essa evolução significa que uma viagem pode revelar possibilidades que não aparecem nas listas de produtos disponíveis para exportação. Uma fábrica especializada em determinado item pode ter engenharia para alterar composição, medidas, acabamento, embalagem ou desempenho. Em outros casos, o fornecedor consegue desenvolver um modelo exclusivo a partir de uma demanda identificada pelo distribuidor brasileiro.

“Quando existe contato direto com quem desenvolve e produz, o empresário deixa de perguntar apenas quanto custa e começa a questionar o que é possível fazer. Essa mudança é importante porque permite sair da comparação pura de preço e pensar em diferenciação, qualidade e marca própria”, ressalta Gustavo.

Conhecimento no chão de fábrica

Para Gustavo, o ganho também está na qualidade das perguntas feitas depois da visita. Ao compreender como a produção funciona, o importador passa a negociar com referências mais concretas e consegue avaliar melhor propostas de outros fornecedores. O conhecimento adquirido no chão de fábrica permanece mesmo quando determinado negócio não é fechado.

A experiência presencial, no entanto, não elimina etapas técnicas da importação. Documentação, certificações, amostras, inspeções, contratos e análise de viabilidade continuam necessários. A viagem funciona como uma camada adicional de avaliação, especialmente para empresas que pretendem construir relações de longo prazo ou desenvolver linhas exclusivas.

“WhatsApp é excelente para dar velocidade ao relacionamento, mas não substitui conhecer a capacidade de quem vai fabricar um produto que levará a sua marca ou chegará ao seu cliente. Em alguns dias dentro de fábricas, o empresário pode aprender sobre uma cadeia produtiva o que levaria meses para descobrir negociando à distância”, conclui o CEO do Grupo PMD.

A visita à fábrica deixa de ser apenas uma etapa de relacionamento e passa a funcionar como ferramenta de análise estratégica. Para empresas brasileiras, conhecer de perto quem produz pode ajudar a reduzir riscos, identificar oportunidades de diferenciação e tomar decisões de compra com mais informação. Em uma relação comercial cada vez mais baseada em desenvolvimento, escala e especificação técnica, estar no chão de fábrica pode fazer diferença entre simplesmente importar um produto e construir uma vantagem competitiva.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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