Fim da escala 6×1: como empresas podem reorganizar jornadas, controlar custos e evitar riscos trabalhistas

Fim da escala 6×1: como empresas podem reorganizar jornadas, controlar custos e evitar riscos trabalhistas

Especialista em compliance e governança empresarial orienta sobre planejamento de equipes, revisão de contratos e medidas preventivas para adaptação às novas regras

Como manter uma loja aberta durante toda a semana, reorganizar os turnos de um restaurante ou garantir o funcionamento de uma empresa de serviços com menos dias de trabalho por empregado? A discussão sobre o fim da escala 6×1 coloca essas questões no planejamento das empresas brasileiras, que precisam conciliar custos operacionais, gestão de pessoas e continuidade das atividades. Para o advogado e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Fernando Moreira, especialista em compliance, governança e consultoria jurídica empresarial, a preparação para uma eventual mudança deve começar antes da implementação das novas regras, com um diagnóstico das jornadas atuais, revisão de práticas internas e planejamento financeiro e operacional.

“Alterar a escala no papel é apenas uma parte do trabalho. A empresa precisa entender como manter o atendimento, distribuir as tarefas e ajustar seus processos sem transferir toda a pressão para os empregados”, afirma.

Segundo Moreira, o primeiro passo é levantar as jornadas efetivamente cumpridas, o volume de horas extras, os períodos de maior demanda e os setores que operam com equipes insuficientes. Esse diagnóstico permite identificar a necessidade de novas contratações, redistribuição de atividades ou melhorias nos processos, evitando que a redução da jornada comprometa a operação ou aumente a sobrecarga dos trabalhadores.

“Uma empresa que depende diariamente de horas extras precisa avaliar seu dimensionamento de pessoal. A mudança de jornada torna ainda mais importante corrigir essa dependência”, explica Moreira.

Planejamento deve considerar custos e continuidade do atendimento

O especialista recomenda simular diferentes cenários de organização do trabalho, considerando despesas com pessoal, treinamento, cobertura de ausências e possíveis ganhos de produtividade. Em setores como comércio, bares, restaurantes e serviços contínuos, nos quais a demanda se estende aos fins de semana e feriados, o planejamento dos revezamentos merece atenção especial.

“O descanso do empregado não precisa coincidir com o fechamento do estabelecimento. É possível organizar equipes em dias e horários diferentes, observadas as regras aplicáveis. Mas a escala precisa funcionar também durante férias, afastamentos e faltas, não apenas em uma semana ideal”, observa.

Contratos e políticas internas precisam acompanhar a mudança

Além dos ajustes operacionais, a revisão jurídica deve abranger contratos de trabalho, acordos de compensação, bancos de horas e instrumentos coletivos. O objetivo é identificar quais mudanças serão necessárias, como formalizá-las corretamente e quais práticas poderão representar riscos trabalhistas para as empresas. “A assinatura de um aditivo pelo empregado não resolve qualquer problema. É necessário verificar a legalidade da alteração, evitar prejuízos e respeitar as regras da categoria”, alerta Moreira.

Para o professor, a negociação coletiva deve integrar o planejamento, respeitados os limites legais. “Um restaurante, uma indústria e um escritório têm necessidades diferentes. O diálogo com os sindicatos pode contribuir para soluções que ofereçam previsibilidade às empresas e proteção aos trabalhadores.”

Também devem ser atualizadas as políticas sobre registro de ponto, autorização de horas extras, troca de turnos, intervalos e contatos fora do expediente, além dos sistemas utilizados pelo setor de Recursos Humanos (RH). A adequação exige atenção especial às práticas cotidianas de gestores e lideranças, para evitar que as mudanças formais sejam desrespeitadas na rotina de trabalho.

“Não adianta estabelecer uma jornada menor e manter a expectativa de que o empregado continue trabalhando por mensagens depois de registrar a saída. A orientação aos gestores precisa acompanhar a mudança”, destaca.

Prevenção de riscos passa pelo controle da sobrecarga

Moreira ressalta que a reorganização não deve se limitar a concentrar as mesmas tarefas em menos tempo. É necessário avaliar metas, ferramentas, processos e capacidade das equipes para prevenir sobrecarga, adoecimento e perda de qualidade, fatores que também podem elevar custos e gerar passivos trabalhistas.

“Produtividade depende de organização. Se a resposta da empresa for apenas aumentar a cobrança, ela pode gerar mais erros, afastamentos e conflitos”, afirma.

Como medida de prevenção, o especialista recomenda acompanhar indicadores de horas extras, absenteísmo, rotatividade, qualidade do atendimento e reclamações internas. Esses dados permitem identificar falhas na distribuição do trabalho e corrigir problemas antes que se tornem recorrentes.

O que as empresas podem fazer desde já

Mesmo antes da definição das regras de uma eventual nova jornada, as empresas podem iniciar medidas de preparação. A orientação é reunir direção, RH, jurídico, financeiro e responsáveis pela operação para elaborar um plano com responsáveis e prazos. O trabalho pode começar pelo diagnóstico das jornadas, pela revisão das práticas existentes e pela simulação de novas escalas, considerando as particularidades de cada atividade. A implementação deverá observar o texto normativo aplicável, sua vigência e as regras de transição.

“Esperar o prazo de adaptação terminar para começar a planejar aumenta o risco de improvisação. Uma transição bem conduzida protege o descanso do trabalhador, preserva o atendimento e reduz a exposição da empresa a passivos trabalhistas”, conclui.

Crédito da foto: Freepik

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *