Déficit comercial brasileiro de 2014 é mais um fracasso da política econômica

Economista Gilmar Mendes Lourenço.
Economista Gilmar Mendes Lourenço.

As estatísticas da balança comercial brasileira, relativas ao mês de setembro de 2014, apuraram déficit de US$ 939 milhões, tendo as exportações atingindo a cifra de US$ 19,617 bilhões e as importações de US$ 20,556 bilhões. Ainda que fortemente influenciada pelas compras externas de combustíveis, que cresceram 49,1% frente a setembro de 2013, trata-se da pior performance mensurada para o mês desde 1998, ocasião em que o País padeceu dos efeitos da moratória russa sobre as transações internacionais.

O desempenho também é negativo quando considerado o intervalo de tempo compreendido entre janeiro e setembro de 2014 (-US$ 690 milhões, sendo US$ 173,63 bilhões em exportações e US$ 174,32 bilhões em importações), em comparação com o mesmo período de 2013. Se essa tendência persistir até dezembro, o Brasil contabilizará o primeiro déficit anual desde 2000 (-US$ 731 milhões), consolidando o quadro de queda das exportações de produtos manufaturados e ampliação da subordinação à pauta de itens considerados básicos.

Com isso, confirma-se a rápida e radical alteração da característica de intercâmbio externo prevalecente no lapso 2003-2007, quando, embalado pela expansão da economia internacional, capitaneada pela demanda interna dos Estados Unidos e da China, o País chegou a registrar superávits superiores a US$ 40 bilhões por ano na conta de comércio. Naquela época houve a subida simultânea das vendas e das compras do exterior, sendo estas últimas responsáveis pelo paradoxal movimento de modernização e sucateamento do tecido de transformação doméstico.

Tal cenário foi abortado pela instabilidade financeira planetária, eclodida em setembro de 2008, o que agravou a situação de enfraquecimento estrutural da capacidade competitiva e da perda de mercado da indústria brasileira, por conta especialmente dos erros de gestão macroeconômica e das armadilhas preparadas pela permanente impulsão dos custos internos.

Em outras palavras, a permissividade oficial com as condições adversas à operação dos segmentos de produção – como câmbio sistematicamente apreciado (substituto das estratégias monetária e fiscal no combate à inflação), tributos e juros elevados, excessiva burocracia, precariedade infraestrutural, escassez e encarecimento de mão de obra e ausência de incentivos à inovação -, em um ambiente de acirramento da concorrência em cadeias globais de maior valor agregado, com a melhoria da eficiência e a acelerada modernização das plantas na China e seus evidentes impactos deflacionários, resultou na fragilização do poder de fogo de incontáveis empresas e ramos da indústria brasileira.

Por tais razões, o peso da comercialização de itens de manufatura nas exportações totais caiu de 54% em 2004 para menos de 35% em 2014 e o desequilíbrio na conta de comércio industrial passou de 7 bilhões em 2008 para mais de US$ 100 bilhões em 2013 e de quase US$ 200 bilhões no acumulado 2011-2014.

Muitas companhias passaram a empreender ações de importação direta para a realização da revenda interna ou de terceirização da produção, com a definição do desenho e do tipo de material empregado. Esse processo vem acontecendo notadamente nas divisões de medicamentos, papel e celulose, cimento, máquinas, bebidas e têxtil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação das revendas (de procedência nacional ou importada) na receita total do setor saltou de 7%, em 2007, para 12%, em 2012.

O pior é que os anabolizantes aplicados pelo governo federal para equacionar os problemas da área serviram apenas para exacerba-los, sobretudo com a reinvenção do protecionismo estatal, dificultando o acesso a insumos, matérias primas e métodos de produção dotados de apreciável densidade tecnológica, o estímulo ao aumento dos percentuais de conteúdo local, e a rendição ao paralisado multilateralismo preconizado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e, por extensão, a abdicação da prática de acordos bilaterais.

Nesse contexto, soa até curioso observar a defesa das bandeiras de intensificação da abertura comercial e de identificação e preenchimento de espaços no front global, por parte de alguns segmentos relevantes da base industrial operante no território nacional.

O artigo foi escrito pelo economista Gilmar Mendes Lourenço, diretor-presidente do Ipardes  e professor da FAE.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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