Mais uma década perdida para o Brasil

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

As providências de austeridade monetária e fiscal, lançadas pelo Ministério da Fazenda, que devem resultar em economia de R$ 43 bilhões, ou 0,7% do produto interno bruto (PIB), diante de compromisso de 1,2% do PIB para o exercício de 2015, em paralelo ao panorama de contração dos níveis de atividade, delineiam o arrefecimento do eixo dinâmico da economia brasileira, sustentado, durante onze anos, no consumo do governo e das famílias.

O boom de consumo, instaurado pelo atendimento da demanda reprimida, com a desinflação provocada pelo plano real, ganhou contornos de mobilidade social a partir de 2004, com o reforço do acréscimo do poder de compra do salário mínimo, da proliferação das ações institucionais de transferência de renda e do crédito consignado, descontado na folha de salários dos tomadores.

Contudo, a viga mestra desse processo esteve assentada na poupança externa, proveniente da valorização dos termos de troca, com a impulsão da demanda e dos preços das commodities agrícolas, minerais e metálicas, entre 2004 e 2008, em função da escalada da China, hoje o maior mercado consumidor do mundo, e em crescentes déficits na conta de transações correntes, depois da eclosão da crise financeira internacional.

Tanto é assim que no lapso de tempo compreendido entre 2008 e 2013, os gastos de consumo das famílias passaram de 58,9% do produto interno bruto (PIB) para 62,6% do PIB e os dispêndios correntes da administração pública subiram de 20,2% do PIB para 22% do PIB. Por certo, existe um freio até natural à renovação do estoque de bens de consumo duráveis pela população. Ademais, o desequilíbrio das contas externas atingiu US$ 90,9 bilhões, em 2014, o maior da história, pulando de 1,7% do PIB, em 2008, para 4,17% do PIB, o maior desde 2001, não cobertos pelo ingresso líquido de investimentos diretos estrangeiros (2,3% do PIB).

Não obstante, a taxa de investimento declinou de 19,1% do PIB, em 2008, para 17,4% do PIB, no terceiro trimestre de 2014, e as contas públicas primárias saíram de saldo positivo de 3,8% do PIB para déficit de 0,2% do PIB, mesmo com os malabarismos contábeis.

Pela ótica fiscal, a mensagem e o roteiro da gestão econômica oficial sugerem a indisfarçavelmente envergonhada manobra de reparação dos erros e desmandos cometidos entre 2010 e 2014, sem qualquer aceno acerca do aproveitamento de oportunidades ou da descoberta de elementos de transformações, como simplificação nos tributos, abertura econômica e acordos comerciais com nações de maior envergadura. De fato, o pacote anunciado pelo ministro Levy, que estava pronto há algum tempo, aguardando apenas o desfecho favorável da disputa eleitoral, não conseguiu escapar da aplicação da terapia ortodoxa tupiniquim na gestão das finanças públicas.

O receituário brasileiro é tradicionalmente mais inclinado à elevação da arrecadação, pela via fácil da retirada de haveres da órbita privada, com novos aumentos de impostos, e menos sensível à necessidade de contenção e racionalização dos substanciais gastos governamentais, presos a uma estrutura pública pesada, espalhada em 39 ministérios e mais de 23 mil cargos em comissão.

As inclinações no sentido da redução de dispêndios limitaram-se à equivocada compressão dos recursos destinados à educação, às alterações de regras para supressão de frações de alguns benefícios sociais, notadamente seguro-desemprego, abono salarial, pensão por morte, auxilio doença e seguro-defeso (para pescadores artesanais), e a não autorização para novos empréstimos a estados e municípios.

No caso da educação, o aspecto mais saliente foi a alteração dos fluxos de pagamentos do financiamento estudantil (Fies) às entidades de ensino de terceiro grau, deixando metade dos reembolsos das mensalidades de 2015 para 2016. Lembre-se que, em números corrigidos, os desembolsos do programa passaram de R$ 1,1 bilhão, em 2010, para 13,5 bilhões, em 2014.

Na área de tributos, na sequência do fim do incentivo da redução do IPI na compra de bens de consumo duráveis, busca-se receita incremental de R$ 20,6 bilhões, com a duplicação do imposto sobre operações financeiras (IOF) – de 1,5% para 3%, depois de ter sido reduzido em 2012 para estimular as compras a prazo -, nas transações de crédito para pessoas físicas, com manutenção de 0,38%, estipulado para a abertura de cada operação, criado em 2008 para amortecer os efeitos da extinção da contribuição provisória sobre movimentações financeiras (CPMF).

Para os combustíveis passará a ser cobrado o PIS-Cofins e a contribuição de intervenção do domínio econômico (Cide – dentro de três meses), zerada em 2012, perfazendo recolhimento agregado de R$ 0,22 e R$ 0,15, por litro de gasolina e diesel, respectivamente. Também haverá a elevação de 9,25% para 11,75%, da alíquota do PIS-Cofins para as importações, objetivando compensar a retirada do ICMS da base de cálculo da referida contribuição nas compras externas; e a equiparação do IPI para vendedores atacadistas e industriais de produtos cosméticos.

Na mesma linha emerge o arcabouço montado para justificar os aumentos das tarifas de energia, que devem acontecer a partir de março de 2015 e superar os 30%, decorrentes da adoção das bandeiras tarifárias, da indexação anual dos contratos com as concessionárias e da suspensão das transferências do tesouro para a conta de desenvolvimento energético (CDE), uma espécie de fundo de amparo do setor elétrico, mergulhado em dificuldades financeiras derivadas do populismo tarifário patrocinado pela presidente da república desde 2013.

Frise-se que as intervenções estenderam-se ao segmento de petróleo, impedindo o alinhamento dos preços internos dos derivados à curva de cotações do óleo no mercado internacional, sacrificando a rentabilidade técnica da Petrobrás, já suficientemente abalada pela obrigatoriedade de investimento no pré-sal, de cifras superiores à sua capacidade de captação, e pela submissão às exageradas exigências de conteúdo local e reservas de mercado, em simultâneo à montagem e execução da maior rede de deslocamento de dinheiro público da história do País.

A propósito disso, a retórica de repúdio ao patrimonialismo, evidenciada na manifestação de não quitação da conta das farras das estatais e do fim da festa dos bancos públicos, pode sucumbir diante das ações para salvação da Sete Brasil – empresa formada pelo Previ, BTG, Bradesco, Santander e Funcef, contratada pela Petrobras para fornecimento de sondas de perfuração as preços maiores que os praticados no mercado internacional -, pelo BNDES e Banco do Brasil.

Sem contar o veto do texto aprovado pelo Congresso Nacional, que atualizava a tabela do imposto de renda – pessoa física (IR-PF) em 6,5%, e a definição de correção em 4,5%, o que representará ingresso disfarçado de R$ 7 bilhões aos cofres da Receita Federal, em razão do alargamento efetivo das faixas de incidência. Frise-se que desde 1996, quando os distintos estratos do IR-PF foram desatrelados dos índices de preços, a inflação acumulou variação de 226% contra menos de 100% da tábua do imposto.

O pedaço monetário do conjunto de deliberações contém a majoração da taxa de juros de longo prazo (TJLP), dos juros praticados pela Caixa Econômica Federal no financiamento habitacional e da Selic (para 12,25% ao ano, em janeiro de 2015). Esta última medida, adotada a pretexto de sufocar as tensões inflacionárias, serve prioritariamente para viabilizar a rolagem da dívida pública e segurar a depreciação do real, em face da ampliação da entrada de capitais externos de curto prazo, à procura de ganhos com as operações de arbitragem. Recorde-se que a Selic retorna ao patamar vigente entre 09 de junho e 20 de julho de 2011, chegando a 12,5%, no final de agosto, quando iniciou curso descendente até abril de 2013.

É desnecessário ser um observador conjuntural arguto para perceber que as medidas produzirão impactos negativos na demanda agregada, pelos canais do encarecimento do crédito para consumo, giro e investimento, da elevação da cunha da tributação, da subida das despesas de produção e distribuição e, por consequência, da instituição de focos de impulsão da inflação, agudizando também a endemia do lado da oferta de bens e serviços.

Nessas circunstâncias, parece lícito supor a interrupção do ciclo expansivo movido a consumo no Brasil, em detrimento do investimento, que seria preponderante na recuperação da eficiência da indústria e da infraestrutura e o atestado exclusivo de garantia do giro da roda em médio e longo prazo. O mais gritante, porém, é que a julgar pelo foco e insuficiência da política econômica, atestados pelas modestas indicações de otimismo e confiança, emitidas pelos atores sociais, a nação ruma a passos largos para mais uma década perdida.

O primeiro quinquênio já está garantido, magnificado com os riscos de racionamento de água e energia elétrica e os desdobramentos da operação Lava Jato. Enquanto isso, o mundo sinaliza sentido diferente, com a reação mais consistente da economia dos Estados Unidos e o provável reerguimento da economia europeia, motivado pela injeção de mais de um trilhão de euros pelo Banco Central Europeu (BCE), por meio da compra de papéis públicos e privados até setembro de 2016, apesar da desaceleração chinesa, cujo PIB cresceu 7,4% em 2014, a menor taxa desde 1990.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Um comentário em “Mais uma década perdida para o Brasil

  1. Nada a acrescentar. Estamos ferrados mesmo, sendo que o reflexo maior deve ser sobre a faixa da população de menor renda, apesar de estarem aparentemente protegidos pelas diversas bolsas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *