Fracas apostas na reversão do cenário econômico

As estatísticas deste começo de 2015, relativas à produção, faturamento e emprego industrial, vendas do comércio varejista, contratação de mão de obra com carteira assinada e emprego metropolitano, apontam para um inquestionável aprofundamento da contração econômica, iniciada no segundo trimestre de 2014.
Em paralelo à linha de indicadores correntes desfavoráveis, emergem sinais qualitativos antecedentes desanimadores. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela acentuada deterioração da credibilidade e da popularidade da administração de Dilma Rousseff. O índice de confiança do empresário industrial caiu de 52,5 pontos para 37,5 pontos, entre março de 2014 e março de 2015. Lembre-se de que o indicador possui uma faixa de variação entre 0 (zero) e 100 pontos, denotando desconfiança quando fura o piso de 50 pontos.
Ainda segundo a CNI, a aprovação da população ao governo despencou de 52% para 19% e a avaliação de ótimo ou bom da gestão do executivo recuou de 40% para 12%, entre dezembro de 2014 e março de 2015. Ademais, somente 14% da população creem em recuperação da simpatia do Planalto até o final do segundo mandato da presidente.
No mesmo sentido, o índice de medo do desemprego subiu 32,1% e 34,2%, em março de 2015, em comparação com dezembro e março de 2014, respectivamente, sendo o pior número apurado desde 1999, quando do começo da série histórica, em meio ao contágio da turbulência externa. Já o índice de satisfação com a vida chegou a 94,7 pontos, em abril de 2015, contra 103,2 pontos, em dezembro de 2014, também o menor patamar já registrado pela pesquisa, evidenciando que a população brasileira nunca esteve tão desacorçoada.
Na verdade, os resultados das sondagens de opinião expressam um absoluto ceticismo dos agentes sociais, em relação à eficácia da postura e das ações de um governo que desprezou a formação de elementos de exaustão do ciclo de consumo, armado em 2009, como anteparo aos efeitos da crise financeira internacional.
Mais que isso, com o abandono dos fundamentos da estabilidade macroeconômica e a intensificação da aplicação dos princípios de uma nova matriz, de cunho essencialmente intervencionista – que afugentou potenciais investidores em infraestrutura ao interferir artificialmente na rentabilidade dos projetos – conseguiu-se a proeza de, em pouco mais de quatro anos de gestão, a produção de rombos recordes nas contas públicas e externas, o descontrole da inflação, uma recessão “consistente”, e o retorno das curvas ascendente do desemprego e cadente da redução da desigualdade.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) chegou a 8,13% em doze meses terminados em março de 2015, representando o nível mais alto desde dezembro de 2003, quando chegou a 9,3%.
Sem contar o comprovado alargamento da ineficiência e improvisação na condução e gerenciamento do setor público, fato que representou uma espécie de semeadura em campo fértil para a multiplicação da corrupção e a montagem de esquemas de desvios de vultosos recursos de grandes empresas estatais e de outras entidades sob a responsabilidade direta do poder executivo, com a participação expressiva de empreiteiras amigas.
Tal quadro serviu para agudizar a deterioração do clima de negócios, atestada pelo avanço do processo de desindustrialização da economia brasileira e, por extensão, da quebra de ânimo dos empresários, repercutindo negativamente nos planos de investimento. Só a título de exemplo, a participação da indústria de transformação no produto interno bruto (PIB) nacional declinou de 17,9%, em 2004, para 10,9%, em 2014.
Um arranjo econômico adequado, ladeado por reformas estruturais, seria crucial para a reversão dessa situação delicada. Infelizmente, pelo andar da carruagem, os atores econômicos não estão cravando apostas nisso.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, professor e editor da revista Vitrine da Conjuntura da FAE Centro Universitário.





